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Cruelmente desfigurada por um perseguidor: a comovente história de Ameneh Bahrami

Sete anos após ser atacada com ácido por Majid Mohavedi, Bahrami teve a chance de se vingar seguindo a Lei do Talião

Fabio Previdelli Publicado em 14/11/2020, às 08h00

A iraniana Ameneh Bahrami
A iraniana Ameneh Bahrami - Wikimedia Commons

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgados em 2014, 7 em cada 10 mulheres no mundo foram, ou irão ser, vítimas de agressões por parte de parceiros, familiares ou desconhecidos.  

Já outro relatório da própria ONU, divulgado no final do ano passado, chamado de "O Progresso das Mulheres no Mundo 2019-2020: Famílias em um mundo em mudança", mostra que, nos últimos 12 meses anteriores a publicação do estudo, 17,8% das mulheres no planeta — o que significa uma a cada cinco — sofreram violência sexual, física ou doméstica de seus parceiros.  

Um caso bem marcante de violência contra as mulheres aconteceu em novembro de 2004, no Irã. Na ocasião, Ameneh Bahrami foi surpreendida saindo de seu trabalho por Majid Mohavedi, um rapaz que a perseguia há certo tempo.

Assim ficou o rosto de Ameneh Bahrami / Crédito: Divulgação/Youtube/  NEWS.AT

 

Enfurecido por Bahrami não aceitar se casar com ele, Majid jogou ácido como maneira de se vingar. O ataque a deixou com rosto, mão e braços completamente desfigurados. Como consequência, a iraniana teve de passar por 19 dolorosas cirurgias apenas para reconstruir sua face. A justiça só agiu sete anos depois, mas foi a ação de Ameneh que chamou a atenção de todos.  

Mundos opostos

A vítima já era perseguida por Mohavedi há algum tempo. Uma das primeiras medidas tomadas por ele foi a de ligar incansavelmente para a mãe de Bahrami para que ela intercedesse e o ajudasse a conquistar sua linda filha que havia conhecido na Universidade de Azad, em Teerã, capital do país.  

Seu pedido era para que ela conseguisse marcar uma reunião familiar. Assim, ele poderia formalizar o pedido de casamento. Majid havia criado uma verdadeira obsessão em Ameneh, que na época tinha 24 anos. Apesar do desejo, os dois vivam em mundos distintos, mas que ele fazia questão para que se cruzassem.  

O rapaz era um camponês, sem muita educação e seguidor ferrenho das regras do Islã. Para ele, as mulheres deveriam ser submissas a seus maridos. Já Bahrami, apesar de muçulmana, tinha um pensamento mais moderno e independente, que sempre que pudera desafiava as regras da Revolução Islâmica — mostrando seus ombros ou usando o cabelo preso com um rabo de cavalo. 

Estudante de engenharia eletrônica, já havia rejeitado inúmeras vezes as investidas do rapaz. Para ele, dizia que já estava se relacionando com outro, mesmo que fosse mentira, apenas para deixá-la em paz.  

A agressão 

Entretanto, a sequência de recusas de Bahrami já não seriam mais engolidas por Mohavedi. Em novembro de 2004, enquanto a jovem saia do trabalho e já esperava por um ônibus, ele se aproximou com um frasco vermelho e jogou o líquido do recipiente no rosto da iraniana.  

Naquele momento a dor e angustia eram derramados pela jovem. Conforme o ácido penetrava sua pele, ela podia sentir seu corpo queimando — além de ser desconfigurado. Em primeiro momento, ela acreditava ter sido alvejada com água quente, devido a queimação e dor que sentia.  

Instantes depois, um motorista parou para socorrê-la, jogando água fria em seu rosto. Porém, apesar dos esforços, nada daquilo adiantaria. O pior já havia acontecido, ela não enxergava mais. A jovem foi encaminhada imediatamente para o hospital.  

Ameneh Bahrami / Crédito: Divulgação/Youtube/  NEWS.AT

 

No centro médico, os médicos a aconselharam viajar até Barcelona, Espanha, onda havia especialistas mais preparados para reconstruir seu rosto deformado. Enquanto se preparava para viajar, Majid foi preso. 

Cirurgias 

No começo de 2005, Ameneh foi atendida por Ramón Medel. Apesar de não falar uma palavra em espanhol, os dois acabaram se tornando amigos, afinal, as mãos do médico foram responsáveis por 10 cirurgias no rosto da iraniana. Os procedimentos foram tão bem sucedidos que ela recuperou a visão parcial em um de seus olhos. 

Aos poucos, a moça foi se integrando à sociedade de Barcelona, conhecendo novas pessoas e melhorando seu espanhol. Tudo parecia correr bem em sua vida, entretanto, em 2007, uma infecção em seu olho acabou a deixando cega novamente. O revanchismo tomou conta de si. Naquele momento ela jurou que todo seu sofrimento não ficaria impune e que faria de tudo em nome da justiça.  

Três anos depois de ser preso, Majid foi condenado pelo tribunal do Irã. Como pena, ele teria de receber em cada um dos seus olhos 10 gotas do mesmo ácido que havia atirado em Ameneh. A pena foi baseada na Lei do Talião, que permitia que a vítima perdoasse seu agressor ou se vingasse dele. Outro ponto na sentença é que a própria Bahrami poderia realizar o trabalho de cegar seu perseguidor. Ela aceitou.  

A notícia da condenação se espalhou pelo mundo de maneira muito polêmica. A sentença foi condenada por diversas organizações dos direitos humanos, entre elas, a Anistia Internacional. Apesar das controversas, a iraniana, que já vivia há três anos na Espanha, estava convencida que a punição era o certo a se fazer. 

No ano seguinte, em 2009, Ameneh passara por sua 19ª cirurgia no rosto. Àquela altura, já havia publicado um livro em alemão chamado “Olho por Olho”. Apesar de todos os indícios, sua irmã mais nova, Shadi Bahrami, explicou que a iraniana não tinha intenção de concluir a cruel pena contra seu agressor.  

“Ela não queria fazer isso e eu sabia que ia desistir. Ela queria que ele ficasse com medo. Agora no Irã, já sabem: se alguém quiser atacar outro com ácido, poderá enfrentar o mesmo destino. Mas antes não tínhamos [as mulheres] esta opção”, disse em entrevista repercutida pelo O Globo.  

No dia 31 de julho de 2011, sete anos depois do ataque que sofreu, estava nas mãos de Bahrami colher os frutos do “olho por olho, dente por dente”. Porém, no último minuto, ela surpreendeu Mohavedi dizendo: “Eu te perdoo”. O homem desabou a chorar em seus pés.  

“Falei com meu irmão, que estava comigo na hora, para esperar, porque não queria fazer aquilo. Nunca quis fazer isso, sempre me perguntaram se era uma vingança, mas não. Nas apliquei a lei por quatro motivos: primeiro por Deus, a lei era no Alcorão, mas no livro também está escrito que aquele que renega tal direito recebe muitos presentes; segundo, por meu país, a população iraniana já é muito estigmatizada por jornalistas que escrevem muitas coisas erradas sobre as pessoas daqui; terceiro, por causa de duas pessoas, o médico Ramón Medel e Amir Sabouri [um amigo]; e quarto, por minha família, para que eles possam viver tranquilos até o último minuto”, disse a iraniana sobre sua escolha. 


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