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A curiosa saga do frasco que dizia conter os restos mortais de Joana D'Arc

A 'descoberta' ocorreu no século 19, todavia a mentira por trás do artefato apenas foi revelada no ano de 2007

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 02/10/2021, às 08h00

Pintura que mostra Joana D'arc e os falsos restos mortais
Pintura que mostra Joana D'arc e os falsos restos mortais - Getty Images e Divulgação/Nature

Joana D'Arc é uma personalidade histórica extremamente curiosa. Heroína francesa da Guerra dos Cem Anos tornada Santa Padroeira da França séculos após sua morte, ela parece mais uma figura mítica do que alguém de carne e osso que viveu mesmo.

Sua história é impressionante nos mínimos detalhes: desde suas supostas visões divinas que começaram quando tinha apenas 13 anos, até o fato que conseguiu uma audiência com o reiCarlos IV, por exemplo, e de alguma forma foi capaz de convencer o monarca de deixá-la juntar-se ao exército. 

A atuação não conflito, todavia, não impediu que Joana fosse mais tarde executada com acusações de heresia e feitiçaria. Ela tinha só 19 anos quando foi queimada viva em uma fogueira. Sua posterior beatificação e canonização foi uma das formas que a Igreja Católica encontrou de corrigir seu erro. 

Com uma trajetória de vida tão impressionante, não é de se espantar que, para arqueólogos, a ideia de encontrar o esqueleto da heroína é extraordinária.

No século 19, inclusive, pesquisadores acreditaram ter encontrado esse tesouro histórico, porém, em 2007, foi revelado que se tratava de um alarme falso, segundo relembrado pela BBC em uma matéria daquele ano. 

Santa Joana D'arc, de William Blake Richmond / Crédito: Getty Images

 

Rótulo enganoso

Tudo começou em 1867, quando um pote de vidro encontrado no sótão de uma farmácia em Paris tinha um rótulo promissor demais para ser verdade. A inscrição dizia que ali dentro jaziam os restos mortais de Joana D'Arc

O conteúdo do frasco em si consistia em uma costela queimada, o fêmur de um gato (era comum que os felinos de pelagem preta fossem atirados para queimar junto com aquelas que eram consideradas "bruxas"), madeira e linho. 

A relíquia chegou a ser colocada em exibição na cidade de Chinon, uma comuna francesa, e tinha sua legitimidade reconhecida pela própria Igreja. 

No século 21, porém, um estudo da revista científica Nature descobriu que o recipiente guardava algo totalmente diferente do que anunciava. 

Fotografia do pote de vidro citado / Crédito:  J. FOUCHET/SIPA/NEWSCOM

 

Descobrindo a verdade

O material foi analisado por uma equipe de pesquisadores liderada por Philippe Charlier, que foi capaz de conseguir a permissão da instituição religiosa para examinar o conteúdo do pote de vidro através de métodos científicos. 

Foi então que ele descobriu que tanto o osso humano quanto o de gato eram restos de uma mumificação. Os restos eram datados ainda de antes do nascimento de Cristo, no período que compreende 3 a.C e 7 a.C. A francesa, por outro lado, foi morta no século 15.

A aparência enegrecida dos restos mortais também não era porque eles haviam sido queimados, mas sim um outro resultado do processo de mumificação. 

"Nunca pensei que (os fragmentos) pudessem ser de uma múmia", afirmou Charlier, ainda conforme a BBC. 

Outra substância identificada dentro do frasco foi resíduo de pólen de pinheiros, uma árvore que não existia na região em que Joana foi morta. No Egito, por outro lado, o material era usado durante embalsamentos. 

Um aspecto peculiar dos experimentos realizados pelo pesquisador é que ele contou com a ajuda de uma dupla de especialistas em perfumes que foi encarregada de cheirar o conteúdo do frasco.

Um aroma relevante identificado por eles foi o de baunilha, que é criado através da decomposição de um corpo. Se os restos mortais estivessem realmente queimados, os tecidos estariam mortos desde o princípio, e não passariam por esse processo. 

Philippe levantou a teoria de que a mentira teria sido criada por algum farmacêutico do século 19 que trabalhava no local onde foi feita a descoberta. Ainda segundo o cientista, múmias costumavam ser usadas como remédio durante a Idade Média, e talvez essa fosse a fonte dos ossos colocados no pote. 


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