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Da captura a forca: Há 60 anos, começava o julgamento do nazista Adolf Eichmann

O administrador da Solução Final, que levou milhões de pessoas à morte nos campos de extermínio, foi julgado e condenado por seus atos

Giovanna Gomes, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 11/04/2021, às 00h00

Um dos registros de Adolf Eichmann em documento
Um dos registros de Adolf Eichmann em documento - Getty Images

O alemão Adolf Eichmann, que atuou como comandante da SS, é tido como um dos maiores monstros do período da Alemanha Nazista. Adepto à política eugenista, Eichmann foi um dos arquitetos da Solução Final, que resultou no assassinato de milhões de judeus nos campos de concentração.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o militar foi apreendido pelo exército americano e enviado aos EUA, onde permaneceu até 1946, quando conseguiu fugir para o norte da Alemanha e passou a trabalhar como lenhador.

No ano de 1950, fez contato com a Odessa, organização formada por ex-integrantes da SS que o ajudaram a ir para a Itália. Lá, ele conheceu um padre franciscano que providenciou documentos falsos ao nazista.

Assim, conseguiu viajar para a Argentina, país em que passou a viver com o nome de Ricardo Klement. Mais tarde, também sua esposa e seus filhos foram a seu encontro.

A farsa caiu por terra em 1960, quando Eichmann foi identificado e sequestrado pelo serviço secreto israelense, o Mossad. Logo, ele foi levado a Israel, onde foi julgado por seus crimes.

"Seu disfarce começou a ruir quando seu filho contou a uma namorada que seu pai era um antigo funcionário nazista. A menina comentou com a família, que também era de origem alemã e fez contato com um procurador na Alemanha", explica Jayme Caon Jovegelevicius, Cientista Social (UFRGS), estudante de Direito na mesma Universidade e colaborador do Instituto Brasil Israel, em entrevista ao site Aventuras na História. "Essa informação foi passada ao Mossad, o serviço secreto israelense, que investigou o suspeito por 3 anos, até decidir por uma operação de captura em 1960".

"Agentes israelenses sequestraram Eichmann quando este chegava em casa após o trabalho, mantiveram-no preso por 9 dias e levaram-no sedado em um vôo comercial da companhia El Al como se fosse um passageiro comum. O nazista permaneceu meses preso em Israel até o seu julgamento, iniciado no ano de 1961", relata Jayme.

Inicia-se o julgamento

No dia 11 de abril de 1961, teve início, em Jerusalém, o tão aguardado momento em que o nazista seria julgado. Porém, durante todo o processo, o réu se apresentou como um mero subordinado, que apenas seguia as ordens, mas que não era um antissemita. E como era de se esperar, não passava de uma farsa.

"A documentação comprova que, além de organizar a logística para o transporte em massa de judeus, Eichmann esteve presente em locais de matança, como Chelmno, Minsk e Auschwitz, sendo falsa a afirmação de que não sabia o que acontecia com as vítimas", ressalta Jovegelevicius. 

Eichmann no julgamento - Crédito: Wikimedia Commons

 

Suas declarações frias surpreenderam muitas pessoas, que esperavam um nazista fervoroso, em vez de um homem que se dizia responsável 'apenas' por assinar documentos.

"Naquele contexto, o julgamento ocorrido em Jerusalém, cumpriu a função de fortalecer Israel na arena internacional e de desacomodar a percepção da sociedade israelense em relação aos sobreviventes do Holocausto, que os percebia como 'ovelhas impotentes indo para o matadouro', sugerindo cumplicidade com os algozes", diz o colaborador do Instituto Brasil Israel. "A instrução do processo produziu e publicizou relatos de mais de 100 sobreviventes do Holocausto, que serviram como testemunha dos crimes de Eichmann e ajudaram a iluminar a complexidade do extermínio nazista. O julgamento foi acompanhado por jornalistas e observadores do mundo todo". 

Condenação

Entretanto, Eichmann não convenceu a justiça.  Assim, com base em mais de 100 testemunhas, nas duas mil provas contra o alemão, além de um longo protocolo da polícia israelense, Adolf Eichman acabou sendo condenado.

"O julgamento foi presidido por três juízes israelenses: Moshe Landau, Benjamin Halevy e Yitzhak Raveh e a acusação ficou a cargo do procurador Gideon Hausner, assistido por Gabriel Bach. Além do próprio Eichmann, que tomou parte ativa na própria defesa, foi auxiliado pelo advogado alemão Robert Servatius e o assistente Dieter Wechtenbruch", ressalta  Jayme.

Quanto a linha de defesa, o Cientista Social explica que de tudo foi feito para declarar o episódio como algo 'ilegal'.

"Após a ampla produção de provas, que culminaram num relatório de mais de 3.500 páginas, os juízes sentenciaram Adolf Eichmann, no dia 15 de dezembro de 1961, como culpado, condenando-o à morte por enforcamento". 

Somente na Hungria, para onde o oficial foi enviado em 1944, cerca de 800 mil judeus foram mandados para campos de extermínio. Na época, ele próprio acompanhou de perto uma série de execuções em massa. 

Justiça histórica

O episódio, que completa exatos 60 anos neste domingo, representa, nas palavras de Jayme, uma justiça histórica. Afinal, foi graças ao processo que o nazista não passou seus dias finais na Argentina enquanto escondia o seu passado sujo, responsável por feridas nas vítimas do Holocausto. 

"O país, que contava apenas 13 anos desde sua fundação, havia vivenciado o dilema entre aceitar ou negar as reparações monetárias da Alemanha Ocidental pelos Crimes de Guerra e havia assistido sem influenciar diretamente aos Julgamentos de Nuremberg", explica Jayme. "No entanto, a crueza dos relatos em primeira pessoa e a ampla cobertura do Julgamento de Eichmann obrigou a sociedade israelense a se deparar com os traumas da guerra e os efeitos do estigma atribuído às vítimas do genocídio nazista nos primeiros anos da nação". 

Além disso, foi com o processo que se tornou possível valorizar e relembrar testemunhos de sobreviventes do regime liderado por Adolf Hitler. 

"A data de 11 de abril de 2021 marca os 60 anos do Julgamento de Eichmann, porém as vítimas costumam ser homenageadas em outros dias consagrados à lembrança do genocídio, como o dia 27 de janeiro, Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, e, no calendário judaico, o Iom HaShoá (7 de Nissan), que neste ano correspondeu ao dia 8 de abril", finaliza.


AH indica

Para saber mais sobre o processo de captura e o julgamento do nazista, a redação do site Aventuras na História indica o filme Operação Final, lançado em 2018 pela Netflix. 

 


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