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Da maldição divina ao tratamento inusitado: 5 curiosidades sobre a Praga de São Vito

Conhecido como a Epidemia da dança ou apenas dançonomia, fenômeno acometeu diversas pessoas entre os séculos 14 e 18 — sendo que algumas morreram de tanto dançar

Fabio Previdelli Publicado em 26/03/2021, às 00h00

Gravura de Henricus Hondius retratando três mulheres acometidas pela praga
Gravura de Henricus Hondius retratando três mulheres acometidas pela praga - Wikimedia Commons

Homens, mulheres, crianças, pelas ruas, ou em vilarejos e até mesmo em cidades, não importa, entre os séculos 14 e 18 diversos casos de pessoas dançando até a exaustão foram registrados na Europa.  

Segundo artigo do pesquisador Daniel O 'Neill, da Universidade do Estado da Flórida, há registros de pessoas que dançaram até espumarem pela boca e, em casos mais extremos, até a morte. 

Mas qual seria o motivo de tanta comemoração? Algum tipo de ritual ou uma celebração religiosa, quem sabe? Na verdade, tudo não passou de uma grande epidemia. Conheça mais sobre a dançomania, ou Epidemia da Dança, chame como quiser! 

1. Casos registrados 

Embora a ocorrência mais famosa seja a que aconteceu em Estrasburgo, na França, em 1518, onde a epidemia acometeu mais de 400 pessoas, segundo aponta matéria da SuperInteressante, há registros mais antigos da dançonomia. 

Gravura do século 17 mostrando a praga da dança/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Antes de Estrasburgo, conforme mostra matéria doTerra, outros sete casos do surto aconteceram na Europa, sendo o de Aquisgrano, na Alemanha, em 24 de junho de 1374, um dos primeiros de grande escala. Outros registros ocorreram em 1492, 1502 e 1511, em lugares como os Países Baixos, e as cidades de Colônia e Metz. 


2. As possíveis causas 

Conforme explica matéria do Terra, após o início da Epidemia em Estrasburgo, muitos acreditavam que a dança coletiva poderia ser causada por condições astrológicas ou por interferência sobrenatural — algo levado muito a sério na época. 

Entretanto, depois de um tempo, essas opções foram descartadas, o que os levaram a outra conclusão: o “sangue quente”. Naquela época, a medicina ortodoxa acreditava que o aquecimento do cérebro poderia levar as pessoas a loucura.


3. O tratamento 

Mas como fazê-las recuperarem a sanidade? Um dos tratamentos testados foi o mais óbvio possível: fazer com que elas dançassem até recuperarem o total controles de seus corpos.  

O ossuário do cemitério dos santos inocentes de Paris, com um dos primeiros afrescos da Dança da Morte, 1424/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Para isso, salões e bares foram abertos para as vítimas; e até mesmo músicos e dançarinos profissionais foram chamados para tocarem dia e noite nas festanças na cidade. Caso a vítima cambaleasse ou até mostrasse sinais de fraqueza, o compasso dos acordes acelerava ainda mais, explica o Terra. Como se pode imaginar, isso não deu muito certo.


4. O responsável pela praga 

Riscado mais uma possibilidade, as autoridades decidiram que a epidemia não era uma doença natural, mas uma maldição divina, enviada por um santo. Conforme conta matéria da Super, o nome responsabilizado por isso foi o de São Vito

E havia motivos para isso: o primeiro era que o santo é o protetor dos animais e dos epiléticos. Outro é que, em 1278, um outro surto da doença ocasionou na queda de uma ponte, no rio francês Mosa. Os feridos do acidente foram levados a uma capela dedicada a ele.  

Já outros dois casos, que ocorreram no século 14, na Suíça, aconteceram um dia depois do Dia de São Vito, que é celebrado em 15 de junho. Assim, com o passar dos anos e o aparecimento dos casos, sua possível origem foi se difundindo na Europa. 


5. Mas o que os estudiosos contemporâneos dizem disso? 

Na época, muitos não sabiam explicar o que levava as pessoas a tais condições, entretanto, o historiador John Waller, especialista no fenômeno, tem uma versão plausível para esses acontecimentos. 

Em entrevista ao Terra, ele diz que é preciso entender o contexto da época, onde as pessoas viveram momentos severos, com invernos rigorosos ou verões abrasadores; o aumento de impostos e as diversas proibições à população; além da grave situação econômica que elas viviam, onde muitas delas morriam de fome.  

Assim, a angústia e o medo passaram a tomar conta dos menos afortunados, que se tornaram suscetíveis a quaisquer sugestões. Waller explica que muitas acreditavam estar “amaldiçoadas” por São Vito e que outras pessoas que as viam nessa situação também passaram a crer que estavam igualmente amaldiçoadas.  

Quadro retrata pessoas que foram acometidas pela epidemia / Crédito: Arquivo Público

 

Foi uma espécie de união inconsciente, o que podemos chamar de histeria coletiva. "A praga de dança foi uma expressão patológica de desespero e medo religioso", afirma o historiador.


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