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Da origem a complexa estrutura social: 5 curiosidades sobre os antigos guaicurus

Implacáveis e impiedosos, esses guerreiros indígenas dominavam, entre os séculos 16 e 19, a região do Chaco paraguaio até a área onde hoje se entende os estados do Mato Grosso do Sul e Goiás

Reinaldo José Lopes/ Adaptado por: Fabio Previdelli Publicado em 05/02/2021, às 08h00

Pintura dos guaicurus montando em seus cavalos
Pintura dos guaicurus montando em seus cavalos - Wikimedia Commons

Famosos por serem uma tribo de guerreiros indígenas que utilizavam cavalos em suas caças e ataques, os guaicurus migraram para o Brasil, na região onde hoje se entende os estados do Mato Grosso do Sul e Goiás, a partir de meados do século 18. 

Antes disso, no século 16, o grupo habitava a região do Chaco paraguaio. Antes do período colonial, eles eram nômades, tendo uma cultura baseada na caça, pesca e coleta. Porém, a partir do século 19, a agricultura passou a fazer parte da economia daquele povo. Eles também passaram a criar rebanhos de bovinos e equinos — que passou a ser um de seus elementos característicos.  

Do século 16 ao começo do século 19, nenhum espanhol, português, brasileiro ou paraguaio estava seguro nas terras desse povo. Nesse tempo, jamais foram submetidos e, quando aceitaram a paz com os forasteiros, fizeram-no em seus próprios termos.  

Os índios durante ataques / Crédito: Aventuras na História

 

Pensando na relevância da história desse grupo étnico, o site do Aventuras separou 5 curiosidades sobre os guaicurus. Confira: 

1. Origem 

Segundo os mitos que contam sobre sua própria origem, relatada por seus descendentes, os kadiwéus de Mato Grosso do Sul, pode-se como eles se viam e como queriam ser vistos.

"Eles contam que o Criador — chamado de Gô-noêno-hôdi  tirou todos os povos de um buraco e deu a cada um funções diferentes. Alguns ganharam enxadas e se tornaram agricultores, outros viraram artesãos e assim por diante. Só que ele esqueceu os kadiwéus, que saíram por último do buraco. Por isso, permitiu que eles roubassem um pouco de cada povo", disse o antropólogo Jaime Garcia Siqueira.

O antropólogo Darcy Ribeiro estudou sobre as origens dos Kadiwéus / Crédito: Fundação Darcy Ribeiro

 

Jaime ainda explica que pesquisas sobre a origem do povo sugerem que eles podem ter migrado da Patagônia, na Argentina. Outra hipótese levanta a possibilidade de que sua origem seja andina. 

Seja como for, o certo é que a região que habitavam na época do descobrimento, no miolo da América do Sul, recebia influências da Amazônia, dos Pampas e das grandes civilizações dos Andes, como os incas.


2. Cavalos 

Em 1542, os guaicurus conseguiram sobreviver ao lutaram contra uma expedição organizada pelo lendário conquistador espanhol Alvar Núñez Cabeza de Vaca. Foi durante o conflito que eles tiveram seu primeiro contato com os cavalos europeus. 

Segundo relatos do próprio Cabeza de Vaca, os índios pareceram aterrorizados frente aos bichos, mas mesmo assim não se intimidaram: ateando fogo às próprias tendas, confundiram os invasores (alguns espanhóis foram decapitados a golpes de machados feitos com mandíbulas de piranha) e conseguiram fugir sob a cortina de fumaça. 

Estátua de um Guaicuru em Campo Grande / Crédito: Reprodução

 

Entretanto, não se sabe em que momento eles passaram a usar os equinos como montaria. Segundo o espanhol Félix de Azara, que comandou as tropas paraguaias nas fronteiras no fim do século 18, os guaicurus roubaram seus primeiros cavalos em 1672, mas é quase certo que tenham adquirido os animais bem antes, de expedições e assentamentos europeus que não foram bem sucedidas. 


3. Estrutura social 

Por serem dominantes em relação as tribos da região, os guaicurus acabaram desenvolvendo uma complexa estrutura social, onde povos como os guanás, por exemplo, acabaram tornando-se seus vassalos.  

Índio Guaicuru retratado na obra de Alexandre Rodrigues Ferreira / Crédito: Wikimedia Commons

 

Além do mais, haviam uma camada chamada de capitães pelos brancos, que eram os mais nobres da tribo, que nada mais eram os caciques de cada aldeia e seus parentes mais próximos, do qual o domínio era passado de geração em geração.

Além deles, ainda haviam os soldados e os cativos - pessoas capturadas durante ataques guaicurus a outros povos indígenas e aos colonos europeus e seus escravos.


4. Coalizão indígena 

Durante os séculos 17 e 18, os cavaleiros guaicurus se aliaram aos paiaguás, exímios usuários de canoas. Suas velozes embarcações, aliadas aos seus remos que viravam lanças, os fizeram donos absolutos dos rios, o que complicava ainda mais a situação dos europeus que tentavam atravessar a bacia do Paraguai. 

Índios Guaicurus atravessando um rio/ Crédito: Wikimedia Commons

 

A união era consistente e forte que eles prevaleciam tanto nos rios quanto nas planícies. Para se ter uma ideia, eles quase guaicurus e paiaguás quase conseguiram exterminar a bandeira de Raposo Tavares. Já os mineiros que embarcavam em canoas mal equipadas, em busca de ouro em Cuiabá, em 1719, viraram alvo fácil da união indígena. 


5. Aliança 

No fim do século 18, quando os governos de Espanha e Portugal lutavam para definir suas colônias na região, os portugueses, em especial, depois da fundação do Forte Coimbra, em 1775, perceberam que a paz com os guaicurus era um tremendo negócio. 

Os guaicurus, por Jean-Baptiste Debret / Crédito: Wikimedia Commons

 

Apesar de alguns percalços, o governo de Portugal conseguiu firmar paz com os guaicurus em 1791. De um lado, os índios conseguiram manter sua liberdade e áreas de influência; do outro, os portugueses - e depois os brasileiros — ganharam um aliado e tanto nos conflitos de fronteira contra a Espanha e na Guerra do Paraguai. E os guerreiros guaicurus conseguiram chegar invictos ao fim dessa história.


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