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Da primeira cirurgiã a primeira médica brasileira: A saga das mulheres na história da medicina

A história do feminino na medicina é marcada pela luta e talvez muitas áreas não seriam as mesmas sem o toque de resiliência, inteligência e sensibilidade que só elas conseguem prover

Julia Magarão Costa e Guilherme Suarez Pompeo // Edição: Fabio Previdelli Publicado em 16/03/2021, às 16h19

Margaret Ann Bulkley, Elizabeth Blackwell e Rita Lobato de Freitas
Margaret Ann Bulkley, Elizabeth Blackwell e Rita Lobato de Freitas - Divulgação

Você já se perguntou quando as mulheres começaram a frequentar as faculdades de Medicina? Como foi e quando começaram a desempenhar papéis relevantes na área de saúde? Durante muito tempo, a Medicina foi uma área dominada por homens, e as mulheres conquistaram seu espaço sofrendo preconceitos e enfrentando muita desconfiança.  

Afinal, em certos momentos, elas foram impedidas de estudar, tendo seu intelecto subestimado. Porém, como o passar dos anos, e a ajuda do Movimento Feminista, o cenário mudou e elas foram vencendo os limites anteriormente impostos pela própria sociedade.  

Hoje, talvez, podemos dizer que a carreira médica seja dominada por elas, já que o número de mulheres que honram seus jalecos é cada vez maior — o que fazem delas, atualmente, serem a grande maioria nas faculdades de Medicina. 

A virologista June Almeida identificou o primeiro coronavírus humano / Crédito: Wikimedia Commons

 

Só para termos um parâmetro, em 1950, no Brasil, tínhamos 3.450 mulheres para 22.670 homens na área clínica. Quase sete décadas depois, em 2017, esse domínio já inverteu de lado, sendo de 189.281 e 225.550, respectivamente.  

Essa diferença, no número de médicos e médicas, vem caindo a cada ano, o que pode ser considerado uma “feminização” da Medicina no país. Entre os médicos mais jovens, por exemplo, a população feminina predomina, sendo perto de 60% no grupo até 29 anos — e em torno de 54% na faixa etária entre 30 a 34 anos. 

É importante ressaltar que, apesar dessa tendência de redução das disparidades entre homens e mulheres na Medicina, ainda há especialidades em que o predomínio é masculino. 

Para diversas médicas, a diferença entre homens e mulheres ainda existe, porém o movimento de feminização da Medicina vem ganhando força nas últimas décadas e, aos poucos, as mulheres vêm cada vez mais ocupando cargos de liderança, sendo reconhecidas pelo excelente trabalho no meio médico e apontando para um equilíbrio futuro entre os gêneros no mercado (e, convenhamos, nada mais merecido!). 

Porém, ainda assim, é crucial entendermos o passado para termos a dimensão de quanto isso representa para elas nos dias atuais.

Uma breve passagem histórica 

Por incrível que pareça, na antiguidade as mulheres, às vezes, possuíam menos dificuldade para praticar a medicina. Por exemplo, no antigo Egito existiam muitas médicas, mais do que em alguns períodos posteriores. Gradualmente, a prática feminina foi desencorajada no Ocidente. Já na Idade Média, elas praticamente desapareceram. 

O curioso caso de James Barry 

James Barry foi um cirurgião militar do exército britânico, que se graduou na Universidade de Edimburgo, em 1812. Por mais de 40 anos, ele serviu o Império Britânico, tornando-se reconhecido profissionalmente pelos seus cuidadosos serviços a militares e civis.

O cirurgião James Barry / Crédito: Wikimedia Commons

 

James foi o primeiro cirurgião britânico a realizar uma cesariana na África, salvando tanto a criança quanto a mãe dela de um possível óbito por complicações obstétricas. 

Após sua morte, em 1865, uma empregada que foi designada para reconhecer seu corpo descobriu que se tratava de uma mulher. Hoje, a maioria dos estudiosos acredita que Barry foi, na verdade, Margaret Ann Bulkley e escolheu viver como homem para que pudesse seguir a carreira de cirurgião. Assim, Bulkley foi a primeira mulher a se tornar uma médica especializada na Inglaterra. 

A primeira mulher médica nos tempos modernos 

Apesar de muitos debates e inconsistências Elizabeth Blackwell foi a primeira mulher a se formar e ser reconhecida como médica. Aos 26 anos, ela não pretendia ser médica. Na verdade, seu interesse pela carreira foi desencadeado por um problema pessoal. Uma amiga que se encontrava em fase terminal de uma doença grave comentou que seu tratamento seria mais fácil se houvesse uma médica mulher para cuidá-la. 

Assim, atraída pelo desafio e vontade de ajudar a colega, decidiu se formar em medicina. Elizabeth se submeteu a aplicação para diversas faculdades norte-americanas, mas apenas o Dr. Dean Charles Lee, de uma faculdade do oeste de Nova York, decidiu aceitar sua candidatura. 

Elizabeth Blackwell, a primeira mulher a se formar e ser reconhecida como médica / Crédito: Wikimedia Commons

 

Elizabeth se formou nos Estados Unidos na escola de Medicina da “Geneva College”, em Nova York. Na época, o corpo docente perguntou aos alunos se ela deveria ou não ser admitida. Se houvesse algum voto “não”, sua candidatura não seria aceita.  

Pensando que sua inscrição era uma farsa, eles votaram pela admissão e se chocaram quando Blackwall realmente se inscreveu para cursar. Em 1849, ela se formou. No entanto, a maioria dos hospitais não a aceitava e, com isso, decidiu ir até Paris para aprofundar seus conhecimentos práticos. Em 1857, foi fundadora de uma enfermaria para mulheres e crianças indigentes. 

A primeira médica brasileira 

A primeira mulher a se formar em Medicina no Brasil foi a gaúcha Rita Lobato de Freitas, nascida em 1866. Até o final do século 19, no Brasil, não era permitido que mulheres se matriculassem nas Faculdades de Medicina do Império.

Porém, em abril de 1879, com a reforma Leôncio de Carvalho, diversas medidas modificaram profundamente o ensino superior no país, dentre elas a autorização para a matrícula de mulheres. 

Rita Lobato de Freitas, a primeira mulher a se formar em Medicina no Brasil / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em 1884, Rita se matriculou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. No segundo ano médico, ela se transferiu para a Faculdade de Medicina da Bahia (dizem que por um problema entre seus irmãos homens e alguns professores da Faculdade).

Em 1887, já havia concluído a faculdade com apenas 21 anos. Após a conclusão, retornou ao Rio Grande do Sul com seu pai e irmãos, exercendo a profissão por mais 40 anos. Segundo as pesquisas, Lobato de Freitas foi, de fato, a primeira médica brasileira e a segunda da América do Sul. 

O feminino e a medicina: um encontro de sucesso 

Além das pioneiras já citadas anteriormente, vamos listar mais algumas mulheres importantes para a História da Medicina: 

Gerty Cori: nasceu em Praga, na República Tcheca, em 1896. Foi a primeira mulher a receber o prêmio Nobel de Medicina, em 1947, por causa de seus estudos e descobertas que contribuíram e ampliaram o conhecimento sobre a diabetes. 

Gertrude Elion: foi uma bioquímica americana que, em 1988, ganhou um prêmio Nobel de Medicina por desenvolver medicamentos importantes para o tratamento da leucemia, além de descobertas sobre os princípios da quimioterapia. 

Françoise Barré-Sinoussi: virologista francesa que descobriu o HIV. Em 1983, publicou na revista Science a descrição completa do vírus. Em 2008, seu trabalho foi reconhecido, fornecendo à Barré-Sinoussi o prêmio Nobel de Medicina. 

Em ordem: Gerty Cori, Gertrude Elion e Françoise Barré-Sinoussi (cima); Ana Néri, Maria Augusta Generoso Estrela e Patricia Bath (baixo)/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Ana Néri: Nascida na Bahia em 1814, Anna Justina Ferreira Néri não foi médica, porém é considerada a pioneira da enfermagem no Brasil. 

Maria Augusta Generoso Estrela: primeira brasileira a receber uma bolsa de estudos no exterior. Com 16 anos, ela conseguiu ingressar na New York Medical College and Hospital for Women. 

Patricia Bath: mulher negra, sofreu muita discriminação no início de sua carreira. Após muita luta, conseguiu uma vaga no curso de medicina da Howard University e, posteriormente, conseguiu vaga no programa de residência de Columbia.

Criou tratamento para catarata e foi cofundadora da American Institute for the Prevention of Blindness. Com seu sucesso, conseguiu uma vaga entre os docentes da Universidade da Califórnia, Estados Unidos. Foi a primeira professora de oftalmologia da instituição. 

Ainda na luta 

Há especialidades médicas em que o número de homens e mulheres ainda é muito desigual. Por exemplo, a cardiologia é uma especialidade em que, aproximadamente, 30% apenas é composto por mulheres. Outro exemplo, a otorrinolaringologia tem como mulheres pouco mais de 40% dos seus médicos. 

Outros pontos a serem combatidos ainda é a existência persistente de diferença salarial entre os gêneros e à ocupação de cargos de liderança (embora seja importante ressaltar que isso vem se reduzindo nos últimos tempos). 

O futuro da mulher na medicina 

É crescente o número de mulheres que atuam na saúde e o alto nível de seu desempenho na carreira. Ainda há uma luta pela frente para que haja igualdade entre os gêneros na carreira médica, mas parece que, após séculos de lutas, isso está mais próximo do que sempre esteve (e é muito mais do que merecido). 

Há cada vez mais mulheres nas faculdades de medicina, mais cargos importantes sendo ocupados dentro de sociedades Médicas, hospitais, empresas e Universidades, e que isso se torne cada vez mais comum. Que as disparidades entre os gêneros não existam mais e que seja possível acabar com essa diferença, infelizmente, historicamente herdada.


A médica Julia Magarão Costa é endocrinologista e Mestranda UFRJ. Endocrinologista no Hospital Pró Cardíaco.

O médico Guilherme Suarez Pompeo, professor da plataforma Jaleko, é cardiologista pelo INC.


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