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Da rejeição familiar a exploração de mulheres "perdidas": os insólitos asilos de Madalena

Abrigando mulheres de "comportamento promíscuo", as casas eram, na realidade, lucrativas empresas

Caio Tortamano Publicado em 17/06/2020, às 19h10

Lavanderia de Madalena na Inglaterra
Lavanderia de Madalena na Inglaterra - Wikimedia Commons

Do século 18 até praticamente o final do século 20, países de religião protestante tinham os insólitos asilos de Madalena (também conhecidos como lavanderias de Madalena). Originalmente pertencentes à Igreja Protestante, as versões recentes acabaram sendo abraçadas pela Igreja Católica.

Essas casas consistiam, basicamente, a acolher as chamadas mulheres "perdidas" — isso é, que teriam deixado a inocência para trás. Eram elas prostitutas, jovens que engravidaram antes do casamento, ou meninas sem apoio familiar. Em troca de abrigo, elas deveriam trabalhar em lavanderias comerciais de grande porte, recebendo clientes de fora do núcleo episcopal.

Sistema prisional

Muitas vezes, a rigidez com que as mulheres eram tratadas nesses locais relembravam os mais atrozes presídios, às vezes até mais cruéis. Aos olhos dos religiosos e das pessoas que tomavam conta desses lugares, era uma forma das moças tratarem seus pecados contra a castidade, como se fosse uma casa de reabilitação.

No entanto, a realidade era outra, uma vez que o calor gerado pelas máquinas de lavar — e do vapor — tornavam o ambiente insuportável. Além disso, não tinham poderiam sair de suas estações de trabalho sem autorização. Só eram liberadas quando o serviço chegava ao fim.

A primeira

A instituição que começou com essas atividades foi nomeada de Hospital Madalena para Recepção de Prostitutas Penitentes. Fundada em 1758 no distrito de Whitechapel em Londres, local recebia as prostitutas que haviam cansado da vida nas ruas e não tinham outros lugares aos quais recorrer.

O nome, inclusive, faz referência á figura bíblica de Maria Madalena, que, por muito tempo, foi retratada no livro sagrado do cristianismo como uma prostituta dissidente. A mulher teria buscado a redenção sendo uma financiadora para os apóstolos, já que é subentendido que ela tinha bastante dinheiro.

O local surgiu como uma ideia de Robert Dingley, um rico comerciante de seda; Jonas Hanway, um viajante e filantropo; e John Fielding, membro do magistrado londrino. O sistema era simples: conforme produziam, a casa onde moravam era sustentada, recebendo uma pequena quantia pelo trabalho duro — vale lembrar que muitas eram mães jovens e solteiras sem nenhum apoio familiar.

A remuneração poderia ser maior caso colaborassem em promover a casa como uma atração turística para as classes mais altas. Foi assim, inclusive, que outros ricos britânicos tiveram a ideia de levar o modelo de trabalho — barato e lucrativo — para suas respectivas cidades. Por volta de 1800, historiadores afirmaram que existiam mais de 300 Lavanderias de Madalena somente na Inglaterra.

Os estabelecimentos eram construídos em locais como hospitais e asilos e atraiam o interesse de investidores, que promoviam o desenvolvimento dos locais bem como dos arredores. As proporções da casa londrina foram tamanhas que chegou a abrigar mais de 140 mulheres, todas entre 15 e 40 anos de idade.

Escócia

Em 1797, a primeira filial fora da Inglaterra foi aberta. Construída na rua Canongate, na cidade de Edimburgo, a região era conhecida por abrigar as prostitutas da capital do país — assim, estariam próximos da mão de obra.

As moradoras do Asilo Madalena Real de Edimburgo não somente realizavam trabalhos de lavanderia, bem como trabalhavam em serralherias dentro do próprio complexo hospitalar. A casa escocesa funcionou ativamente até 1958.

Um negócio e tanto

Eram claras as segundas intenções dos investidores que, supostamente, queriam livrar as mulheres pecadoras de suas "indecências" do passado, organizando um negócio extremamente lucrativo. Além da Inglaterra e Escócia, asilos do mesmo modelo foram construídos em Gales, nos Estados Unidos, Canadá e Suécia.

Lavanderia de Madalena na Irlanda / Crédito: Wikimedia Commons

 

O último a ser fechado, inclusive, foi na Irlanda, em Waterford, que encerrou as suas atividades no ano de 1996. Atualmente, o prédio onde era mantida a Lavanderia de Madalena funciona como o Instituto de Tecnologia de Waterford.


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