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Dados comprovam que não faz sentido culpar indígenas pela origem das queimadas

Em discurso de abertura da 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Jair Bolsonaro culpou indígenas e caboclos pelos incêndios florestais no Brasil

Giovanna de Matteo Publicado em 23/09/2020, às 12h40

Pôster do documentário Amazônia Sociedade Anônima
Pôster do documentário Amazônia Sociedade Anônima - Divulgação

Em discurso de abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU, Jair Bolsonaro afirmou, por meio de vídeo gravado, que o Brasil foi "vítima" de uma campanha de desinformação contra o governo a respeito das queimadas na Amazônia e no Pantanal.

Segundo palavras dele, pela grande umidade da floresta amazônica, ela só pegaria fogo 'nos cantos', negando os acontecimentos divulgados pela mídia sobre a gravidade das queimadas.

"Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas", indagou o presidente brasileiro.

Fumaça sai de dentro de terreno indígena em Novo Progresso, no Pará, em agosto de 2019 - Getty Images

 

O ambientalista Antonio Oviedo, assessor do Instituto Sócio-Ambiental (ISA), ONG presente na Amazônia há 25 anos, explicou ao G1 que a floresta, apesar de permanecer úmida em algumas regiões, já perdeu parte de suas particularidades originais por conta do desmatamento e da construção de estradas no local. Desse modo, a Amazônia teria se tornado mais propensa a não aguentar grandes incêndios.

"Ela é úmida em áreas como no interior do Rio Solimões ou no alto do Rio Negro, onde não tem muitas estradas, mas mesmo lá o fogo já tem entrado, por conta do desmatamento. Quando se fragmenta a floresta em blocos, vem o efeito de borda. Quanto mais bordas tiver, mais seca fica, e facilita a entrada do fogo”, afirmou Oviedo.

A respeito de quem iniciou as queimadas, dados de satélite monitorados pela Nasa mostraram que 54% dos focos de incêndio na Floresta Amazônica em 2020 foram iniciados por conta do desmatamento.

Além disso, uma pesquisa lançada no mês passado pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, também se opõe às falas do presidente a respeito dos indígenas serem os responsáveis pelas queimadas. De acordo com o estudo divulgado, o desflorestamento do bioma foi considerado menor em áreas indígenas, por conta da proteção dessas terras por parte de seus residentes, que necessitam dos frutos do bioma para sobrevivência.

“Esse aumento não vem dos indígenas. Quando usam o fogo, eles colocam numa área muito pequena, só mesmo para poderem fazer a agricultura”, contou o bispo Dom Wilmar Santin em entrevista ao G1 no ano passado. Ele ainda afirmou com clareza que as terras indígenas do Pará vêm sendo constantemente atacadas pelo garimpo e pelo desmatamento.

O pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, Carlos Nobre, também se posicionou sobre o caso em entrevista à BBC News Brasil.

Ele afirma que a maioria dos incêndios na Amazônia não ocorre em áreas já desmatadas e não é provocado por caboclos e índios no objetivo de aumentar suas roças de agricultura. Ele impõe a autoria das queimadas à expansão do agronegócio na região, que apesar dessas ações serem crime ambiental, os garimpeiros, madeireiros e empresários não são julgados pela justiça, e seus crimes são ocultados pelo governo federal.

"É o famoso e tradicional processo de expansão da área de agropecuária. E quase tudo, acima de 80% dessa expansão, é feita por grandes propriedades, não é o pequeno agricultor ou o caboclo ou a roça indígena. O pequeno agricultor e o caboclo usam fogo, todos usam, mas o número de área queimada pela pequena agricultura é relativamente pequeno, A grande maioria é área queimada pela expansão de grandes propriedades", disse Nobre em entrevista.

No começo do mês de setembro, o site Aventuras na História conversou com o diretor Estêvão Ciavatta sobre o seu documentário, Amazônia Sociedade Anônima. Na entrevista, falamos sobre a importância da preservação da floresta, a luta indígena e sobre os bastidores do filme do Estêvão, uma obra que é tão urgente e necessária. 

Confira a conversa completa abaixo.


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