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“Darwin fez uma balbúrdia nas ciências da vida, mesmo não sendo docente de nenhuma universidade federal”

Em entrevista exclusiva ao AH, Nélio Bizzo, um dos maiores especialistas de Charles Darwin da América Latina, fala sobre a importância do naturalista que revolucionou a Biologia

Fabio Previdelli Publicado em 19/02/2020, às 18h00

Charles Darwin
Charles Darwin - Getty Images

A ideia de que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança era compartilhada pela maioria dos cientistas Ocidentais até meados do século 19. Eles acreditavam que todas as criaturas do planeta haviam sido concebidas pela ‘Força Divina’. Foi, então, que apareceu Charles Darwin e mudou toda a forma como enxergamos o mundo.

É bem verdade que, na época, alguns cientistas já falavam sobre uma possível evolução das espécies, mas foi o naturalista britânico, nascido em 1809 — que completaria 211 anos esse mês —, o primeiro a oferecer provas científicas e explicar toda sua teoria de seleção natural.

Com isso, ele desmentiu todas as hipóteses que colocavam a mudança dos animais como resultado de projetos objetivos ou vontades e esforços repetidos, como afirmava Lamarck. Entretanto, Darwin sempre teve um conflito importante: equilibrar sua visão científica com sua fé. Ele se sentia pressionado a não publicar suas conclusões, com medo de represálias da igreja ou da comunidade cristã, ou de abalar demais os fundamentos do cristianismo.

Porém, em 1859, finalmente o público teve acesso a primeira versão de A origem das Espécies, o que redefiniu para sempre a ciência moderna e o tornou o cientista mais relevante do século 20 para a biologia. Com sua obra, Darwin confronta frontalmente toda a ordem ideológica dos principais cientistas e, principalmente, de líderes das universidades anglicanas.

Manuscrito original de A Origem das Espécies / Crédito: Wikimedia Commons

 

“Darwin viveu em um tempo e espaço no qual fazer apologia de ateísmo era crime gravíssimo. Daí não é difícil entender a razão de seus críticos lhe imputarem essa prática, em vez de criticarem suas ideias, aliás, como ocorre até hoje. Ele sempre se afastou de pessoas que procuravam estabelecer relação entre suas ideias e o confronto com a Igreja Anglicana, chegando até mesmo a recusar a dedicatória de um livro que ia nessa direção. Ele entendia que essa era uma reflexão individual e íntima de cada pessoa e não pretendia interferir com a decisão de outras pessoas”.

Explica Nélio Bizzo — coordenador científico do Núcleo de Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução ‘Charles Darwin’, ligado á Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo — em entrevista exclusiva ao AH.

Um dos maiores especialistas de Darwin no Brasil — e também na América Latina —, Bizzo foi o responsável pela revisão técnica da edição de A Origem das Espécies publicada pela Edipro, que traz a versão original escrita pelo naturalista, antes das mudanças que ele foi ‘obrigado’ a fazer motivadas pela comunidade científica, pela imprensa e pelo público da época.

“Nenhuma das edições do livro foi idêntica à anterior. Houve modificações em todas as edições acompanhadas pelo autor. Foram diversas alterações, na forma de atualizações, pequenas correções, e algumas modificações, a meu ver, estratégicas”, explica Nélio.

Anotações em que Darwin esquematiza uma Árvore da Vida, base do que será a cladística na biologia contemporânea / Crédito: Wikimedia Commons

 

“Já na segunda edição ele introduziu uma epígrafe, um trecho de um livro do bispo anglicano Joseph Butler (1692-1752), que utiliza os termos dos atuais defensores do ‘Design Inteligente’, inclusive utilizando essa expressão. Além disso, inseriu mais referências ao ‘Criador’, algo que parece contraditório. O longo prefácio da tradução francesa, por exemplo, dizia que as ideias de Darwin eram francamente anti-clericais. A última edição foi a com maiores modificações, com a introdução de um capítulo inteiro para fazer frente a críticas, as quais, contudo, hoje não fazem muito sentido”.

A trajetória de Darwin

A jornada do naturalista começou quase três décadas antes da publicação de sua principal obra. Em 1831, o então estudante da Universidade de Cambridge, com 22 anos na época, foi convidado a participar de uma grande expedição. À bordo do HSM Beagle, Darwin passou cinco anos percorrendo vários continentes, sendo a América do Sul o primeiro entre eles.

“Darwin estava ansioso para conhecer a vida tropical, e ficou deslumbrado ao constatar a grande diversidade de formas da Mata Atlântica. No entanto, ele havia estudado Lamarck no início de seus estudos, ainda em Edimburgo, mas não era um evolucionista. O Darwin viajante era sobretudo um geólogo em início de carreira, lembrando que isso incluía, à época, o estudo dos seres vivos”, diz Bizzo.

Charles Darwin quando jovem / Crédito: Getty Images

 

“No entanto, não se sabe ao certo quando ele começa a pensar seriamente na possibilidade da evolução. O que mais impressionou Darwin no Brasil foi a brutalidade da escravidão. E, para dizer a verdade, ele passou por profunda depressão no Brasil, diante de uma decepção amorosa”. Esse episódio é relatado com mais detalhes no livro ‘Darwin no telhado das Américas’, escrito pelo próprio Nélio Bizzo e publicado em 2009 pela Editora Odysseus. “ Ele não estava em seu melhor momento no Brasil...”.

Daqui, voltou com dezenas de espécimes vivos, além de ilustrações e fósseis. Esse último item, deu a ele uma das primeiras pistas sobre a evolução. Ao se deparar com os restos de um milodonte, um animal que já está extinto, mas que é muito parecido com a preguiça que conhecemos hoje, ele deduziu que essa ‘semelhança’ não era obra do acaso.

O pensamento se fortaleceu quando ele passou pelo Arquipélago de Galápagos, no Oceano Pacífico. Onde observou que cada uma das ilhas do conjunto abrigavam espécies distintas de tartarugas — que se diferenciavam pelo formato de seus cascos ou de seus pescoços.

Após mais alguns anos aprofundando o que evidenciou, Darwin constatou que as espécies em questão eram produtos da evolução. Darwin defendia que no processo de seleção da natureza, não era necessariamente o mais forte que sobreviveria e procriaria, mas sim aquele que se adaptava melhor às condições que vivia.

Com o passar dos anos, o avanço científico só veio comprovar a teoria estabelecida por Darwin e, apesar das contradições que causou, anos depois, até mesmo a Igreja Católica acabou aceitando a ideia — com algumas ressalvas, é claro.

O pensamento darwiniano no mundo moderno

Apesar de ser amplamente difundido, o pensamento darwiniano até hoje é atacado por criacionistas, negacionistas e defensores do design inteligente — pseudociência que se baseia que as características do universo, e dos seres vivos, são explicadas por uma “causa inteligente” (daí o nome), e não por um processo não-direcionado, como a seleção natural.

Movidos por uma ideologia mais ligada ao pensamento de que Deus é o principal responsável pela criação da vida e de como os seres vivos são, os defensores do Design Inteligente ganharam novamente os holofotes, principalmente após a posse de um governo mais conservador e autoritário.

Nas últimas semanas, Benedito Guimarães Aguiar Neto, ex-reitor do Mackenzie e ferrenho defensor do Design Inteligente, foi nomeado por Jair Bolsonaro como novo presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), um dos principais órgãos no que se diz respeito à contribuição para a pesquisa científica no país.

Benedito Guimarães Aguiar Neto / Crédito: Divulgação

 

A nomeação não foi muito bem vista por Bizzo. “A CAPES tem uma longa história de contribuição para a pesquisa científica no país e teve presidentes com profundo conhecimento do que sejam os desafios que o Brasil tem a enfrentar para ser uma noção desenvolvida científica e tecnologicamente”.

“A proposta de incluir o criacionismo na educação básica, como ‘contraponto à teoria da evolução’, é ilegal, como ficou demonstrado pela Nota Oficial emitida pelo Núcleo de Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução ‘Charles Darwin’, ligado á Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo”, explica Bizzo (a resposta completa pode ser vista na integra ao fim desta reportagem).

Outra notícia que preocupa é que em 2020 o MEC decidiu cortar pela metade o orçamento da instituição. Anteriormente, era reservada a quantia de 4.25 bilhões de reais, que foram reduzidos a 2.2 bilhões.

“O corte de mais de 12% das bolsas de pós-graduação em instituições públicas do Nordeste foram um duro golpe na ciência brasileira, com prejuízos irreversíveis onde ela é mais necessária”, diz Nélio. “Hoje provavelmente não haveria a resposta ao Zika vírus que houve à época. A CAPES mantém mais de 85 mil alunos na pós-graduação, e outros tantos na iniciação à docência em todo o país, mas sobretudo no setor público, onde se faz pesquisa científica”.

“O setor privado está de olho nessas verbas, ainda mais agora que cresce a participação de instituições religiosas no ensino superior. Acredito que a discussão agora na CAPES não será sobre ideias a respeito da evolução biológica, mas sobre a criação de formas de abocanhar fatias do orçamento público, em especial por entidades comunitárias, filantrópicas e, sobretudo, confessionais, que passaram a competir por recursos na luta pela sobrevivência financeira”, conclui.


Confira abaixo a entrevista exclusiva que Nélio Bizzo concedeu ao AH:

Qual a importância do pensamento darwiniano para a ciência moderna?

Charles Darwin trouxe uma contribuição inestimável para a ciência moderna, ao aplicar na Biologia certos princípios filosóficos que já eram utilizados em outras áreas, como Astronomia e Física. Apesar de Galileu ter mostrado a importância de se desvincular o pensamento científico da tradição clássica, em especial de Aristóteles, o estudo do mundo vivo manteve a tradição antiga.

Nessa perspectiva, as chamadas “causas finais” continuaram a ser valorizadas em experimentos de história natural e mesmo em fisiologia humana. Conceitos aristotélicos como “forma”, “finalidade”, “propósito” e “essência” foram banidos da astronomia, por exemplo, mas continuaram a guiar a história natural do século XVII e XVIII. A circulação do sangue foi descrita por William Harvey em 1649 em termos aristotélicos, com muitas menções a seus escritos.

Capa do livro A Origem das Espécies / Crédito: Divulgação Edipro

 

O próprio “movimento circular” seria uma “forma perfeita”. No século seguinte a supremacia aristotélica se manteve, e vemos em Lineu, grande estudioso de Aristóteles, a valorização daqueles conceitos centrais do mestre estagirita. A anatomia da flor seria estudada em suas formas e explicada pela sua finalidade: o elemento central, recatadamente escondido pela cortina de pétalas, é feminino.

As partes masculinas se exibem ao vento, espalhando sua contribuição para as gerações seguintes sem qualquer pudor. Isso não seria por mero acaso, mas uma materialização da moral divina, expressão da perfeição e harmonia do mundo! Na década de 1830 dois dos principais biólogos da França ainda discutiam quem era seguidor mais fiel de Aristóteles.

Darwin se alinhará a seus críticos, como Francis Bacon (mesmo se não conhecesse o mestre grego diretamente), e introduz o acaso (uma heresia aristotélica!) e o conflito como causas a explicar a realidade. Como consequência, ele rompe com a visão idílica de mundo perfeito: os seres vivos não estão perfeitamente adaptados em um mundo estático e perene. O equilíbrio dinâmico é sempre temporário, as formas mudam; portanto, não há essências incorruptíveis, não há espécies eternamente fixas, enfim, o mundo natural virou de ponta-cabeça.

As extinções, impensáveis no mundo perfeito e estático da antiguidade grega e de sua recriação por Tomás de Aquino, passaram a ser inevitáveis na lógica darwinista. Darwin fez uma balbúrdia nas ciências da vida, mesmo se não fosse docente de nenhuma universidade federal.


Darwin fazia oposição ao pensamento de Lamarck? É possível relacionar esses dois pensamentos?

 A distinção básica entre Lamarck e Darwin não diz respeito à ideia dos efeitos hereditários do uso e desuso das partes. Nisso ambos estavam de acordo. Quando Darwin recita a seus correspondentes que quer evitar “os erros de Lamack” ele se refere à sua visão da vida como uma árvore genealógica, pela lógica da ancestralidade comum, ao passo que Lamarck pensava em processos paralelos de aperfeiçoamento contínuo.

Darwin antecipa, na primeira edição, uma conjectura sobre a origem da baleia: ela seria descendente de mamíferos terrestres. A ideia foi tão criticada, com zombaria inclusive, que ele a retirou na segunda edição. Para Lamarck isso seria impensável, pois um mamífero aquático seria resultado de “aperfeiçoamento” de um réptil aquático. Um mamífero terrestre não se “aperfeiçoa” tornando-se aquático.


Recentemente, o ex-reitor do Mackenzie, Benedito Guimarães Aguiar Neto, assumiu a Presidência da Capes. Como você vê um defensor do Design Inteligente atuando numa área tão importante para a ciência no Brasil?

A CAPES tem uma longa história de contribuição para a pesquisa científica no país e teve presidentes com profundo conhecimento do que sejam os desafios que o Brasil tem a enfrentar para ser uma noção desenvolvida científica e tecnologicamente.

A proposta de incluir o criacionismo na educação básica, como “contraponto à teoria da evolução”, é ilegal, como ficou demonstrado pela Nota Oficial emitida pelo Núcleo de Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução “Charles Darwin”, ligado á Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo.

A ideia é tão flagrantemente ilegal que ela não está presente no manifesto lançado pela frente de deputados evangélicos no final de 2018. Eles falavam do “esquerdismo” da CAPES, mas no documento não aprece nem uma única menção ao criacionismo, nem mesmo disfarçado de “design inteligente”.

 A manchete do jornal Folha de São Paulo chamava a atenção para essa ideia expressa por ele há pouco. Ao mesmo tempo, o jornal chamava a atenção para a disputa no âmbito do setor privado da educação superior. Com as restrições impostas ao financiamento estudantil, que na gestão de Temer atingiu a marca recorde de dezoito bilhões de reais anuais, não é difícil imaginar que o setor privado esteja disputando com unhas e dentes as verbas públicas das quais se nutriram fartamente.

O corte de mais de 12% das bolsas de pós-graduação em instituições públicas do Nordeste foram um duro golpe na ciência brasileira, com prejuízos irreversíveis onde ela é mais necessária. Hoje provavelmente não haveria a resposta ao Zika vírus que houve à época. A CAPES mantém mais de 85 mil alunos na pós-graduação, e outros tantos na iniciação à docência em todo o país, mas sobretudo no setor público, onde se faz pesquisa científica.

O setor privado está de olho nessas verbas, ainda mais agora que cresce a participação de instituições religiosas no ensino superior. Acredito que a discussão agora na CAPES não será sobre ideias a respeito da evolução biológica, mas sobre a criação de formas de abocanhar fatias do orçamento público, em especial por entidades comunitárias, filantrópicas e, sobretudo, confessionais, que passaram a competir por recursos na luta pela sobrevivência financeira.


Você acha que isso pode afetar, de alguma maneira, o modo que o pensamento darwiniano é visto no Brasil?

Vivemos em meio a cortinas de fumaça. A criação de uma filial em Higienópolis (bairro de São Paulo) da ONG estadunidense que difunde o criacionismo deve ser vista em seu contexto. Trata-se de um movimento iniciado pela “Convenção Batista do Sul”, uma rede de igrejas com articulação política e financeira, muito forte no chamado “cinturão evangélico” (“Bible Belt”) dos Estados Unidos.

Charles Darwin / Crédito: Wikimedia Commons

 

Houve uma disputa interna crucial em 1979, que resultou na supremacia dos fundamentalistas radicais. Logo em seguida ocorreu defecção de quadros políticos importantes, como Jimmy Carter e Bill Clinton, e conquista de apoio financeiro de grandes capitais, ligados às petroleiras texanas e congêneres, garantindo eleitores cativos para a ala conservadora do Partido Republicano. Mas sua atuação político-partidária foi sobretudo local, nos espaços legislativos onde têm maioria, buscando reivindicar espaço nas escolas públicas para difundir seus dogmas e angariar adeptos.

É dessa época o uso recorrente da expressão “criacionismo científico” procurando travestir como ciência formas de doutrinação religiosa. Esse grupo se fortaleceu ao eleger e re-eleger Ronald Reagan. Mas o obstáculo para sua expansão foi, e continua sendo, a Constituição do país, que instituiu um estado laico ainda no século XVIII.

Não pode haver aulas de religião nas escolas públicas. As sucessivas derrotas nesse campo levaram a um programa ousado de travestir como ciência seus dogmas religiosos. É daí que se origina esse estranho literalismo religioso. Um novo e ousado programa de atuação se tornou público em 1999 (“The Wedge Strategy”), com orientação de realizar ações políticas e sociais, com cronograma muito definido, farto financiamento de publicação de textos em livros, revistas e espaços de propaganda.

Ele previa que em 20 anos o “design inteligente” estaria no centro das discussões da comunidade científica estadunidense. O prazo venceu no ano passado e não é difícil constatar que eles colheram um retumbante fracasso. Ninguém os leva a sério nos Estados Unidos, onde são apenas motivo de piada, até na série televisiva “Os Simpsons”. Nenhum livro didático pode trazer menção ao “design inteligente” ou a qualquer escrito teológico.

Essa proibição se estendeu ao Reino Unido, que não é estado laico, mas não reconhece o design inteligente como algo sério nem mesmo para as aulas de religião, que ocorrem lá nas escolas públicas. É daí que surge a iniciativa de exportar a estratégia para lugares que estão dentro da esfera de influência política estadunidense. Estamos diante de um artefato neocolonial, infelizmente não isolado. O adeus à EMBRAER, a doação de parte do território brasileiro da base de Alcântara aos Estados Unidos e a privatização de empresas estratégicas fazem parte dessa estratégia neocolonial.


O que você acha da aplicação de Darwin no estudo de sociedades humanas? Isso tem fundamento na obra do Darwin?

As ideias de Darwin foram utilizadas por diferentes pensadores e ativistas políticos com diferentes finalidades. Darwin foi evocado na União Soviética e pelos nazistas ao mesmo tempo, em programas de eugenia defendidos por líderes políticos de extrema direita, mas também por cientistas comunistas.

Ele mesmo percebeu o potencial explosivo de suas ideias e até seus parentes diretos viveram em desavença por conta disso. Uma votação crucial ocorreu em 1913 no parlamento britânico, sobre a esterilização compulsória de tipos “inferiores”. De um lado estava o filho de Darwin, o major Leonard Darwin (1850-1943), que presidira um congresso de eugenia no ano anterior. Mas, de outro, estava o deputado Josiah Clement Wegwood (1872-1943), primo de Leonard, que foi um dos três únicos votos contrários, mas que lutou para que a lei fosse vetada, o que de fato ocorreu.

Essa história é pouco conhecida, e eu a recontei com algum detalhe em meu livro “Meninos do Brasil” (2013, Editora do Brasil). Assim, não é difícil ver que até mesmo os parentes diretos de Darwin divergiam sobre a aplicação de suas ideias ao mundo social. Enfim, eu costumo dizer que as ideias de Darwin são mais ou menos como a energia atômica. Podem ser utilizadas para combater o câncer ou para destruir a civilização.


Nelio Bizzo é coordenador científico do Núcleo de Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução “Charles Darwin”, ligado á Pró-Reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo. Professor da USP e UNIFESP, onde atua na graduação e pós-graduação, realizou pesquisas em seu doutorado na Inglaterra, estudando os manuscritos originais de “A Origem das Espécies” mantidos na Sala de Manuscritos da Universidade de Cambridge. Eleito Fellow da Royal Society of Biology de Londres, foi professor visitante da Universidade de Verona (Itália) e realizou pós-doutorado na Universidae de Leeds (Inglaterra).


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