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De cangaceiro a santo popular: Jararaca, o cabra de Lampião

O bandoleiro teve seu fim enquanto estava em custódia, no entanto, passou para o imaginário popular como uma figura de culto

André Nogueira Publicado em 17/05/2020, às 08h00

Jararaca em foto rara da época
Jararaca em foto rara da época - Wikimedia Commons

Um dos mais famosos e populares dos bandoleiros nordestinos, principalmente no Rio Grande do Norte, Jararaca faz parte da cultura do povo mais pobre. Anos após a sua morte, o túmulo em Mossoró ainda é visitado por simpatizantes em prece ao nome dele, que virou santo.

Nascido em Pernambuco e batizado de nome José Leite de Santana, Jararaca entrou no exército aos 19 anos, tornando-se soldado raso e servindo em São Paulo. Nessa ocasião, participou das campanhas das tropas do general Isidoro Dias Lopes, o Marechal da Revolução de 1924. Ou seja, ingressou um importante movimento tenentista do sudeste, em busca de mudanças institucionais.

Jararaca serviu até 1926, ano em que largou a instituição e, em meio às especulações de melhoria de vida no banditismo, adentrou ao Cangaço, participando do famoso bando de Lampião. Com conhecimento de artilharia, ele foi bem aceito no grupo, no entanto, a carreira foi curta.

Cangaceiros / Crédito: Wikimedia Commons

 

Segundo relatos vindos do próprio Jararaca, ele acompanhou diversos casos atrozes do bando, como o episódio em que Lampião teria invadido a festa de casamento de um inimigo e, com seu próprio punhal, causado a morte do noivo. Já a noiva teria sido estuprada na caatinga pelos cabras do bando.

De acordo com fora da lei, Virgulino também ordenou que os convidados de um baile tirassem as roupas e dançassem xaxado completamente nus. Todavia, Vera Ferreira, neta de Lampião, que hoje cuida das memórias do avô em Aracaju, Sergipe, vê muito folclore nesse tipo de história.

Combate

Na tarde de 13 de junho de 1927, feriado de Santo Antônio, Lampião e seus 53 cangaceiros enfrentaram, ao menos, 150 homens armados na defesa de Mossoró, uma das mais prósperas cidades do Rio Grande do Norte.

Um dia depois do episódio, quando o povo de Mossoró ainda temia o possível retorno de Lampião e partiu em busca de vingança, Jararaca, de 26 anos - segundo registros oficiais -, foi capturado e arrastado num matagal.

Mesmo com um rombo de bala no peito, conseguiu gargalhar durante uma entrevista na cadeia. Segundo o relato de Lauro da Escóssia, então repórter do jornal O Mossoroense, que acompanhou o caso, o cabra de Lampião dizia que era por causa das “lembranças divertidas do cangaço”.

Jararaca preso / Crédito: Wikimedia Commons

 

 

Fato é que, na cadeia, o criminoso virou atração pública na cidade potiguar. Quando já apresentava alguma melhora do ferimento, mesmo sem ser medicado, ouviu que seria transferido para a capital, Natal. Era mentira.

“Alta noite, da quinta para a sexta feira, levaram Jararaca para o cemitério, onde já estava aberta sua cova”, relata Escóssia. Pressentindo a armação, Jararaca disse: “Sei que vou morrer. Vão ver como morre um cangaceiro”.

O capitão Abdon Nunes, que comandava a polícia em Mossoró, relatou dias depois os momentos finais do capanga de Lampião: “Foi-lhe dada uma coronhada e uma punhalada mortal. O bandido deu um grande urro e caiu na cova, empurrado. Os soldados cobriram-lhe o corpo com areia”. O então soldado João Arcanjo teria sido o responsável pela bala final que matara o bandido.

Pelas circunstâncias da morte, o túmulo de Jararaca virou local de romaria. Na cultura popular, acredita-se que Jararaca é um santo, pois se arrependeu de seus pecados no momento antes de sua morte e teria gerado graças diversas depois de assassinado. Até hoje as pessoas rezam e fazem promessas com pedidos ao cangaceiro executado. Na terra do Sol, Deus e o Diabo ainda andam juntos.

Mossoró / Crédito: Wikimedia Commons

 

Pesquisas feitas pelo próprio Escóssia revelam que o cangaceiro nunca ordenou ou praticou estupros coletivos que o bando realizava. Em constante embate em relação aos rumos de sua vida, Jararaca era um bandido muito singular.

Segundo Paulo Medeiros Gastão, assessor da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, ao Jornal Gazeta do Oeste, “a história do milagre se confunde muito com o misticismo, com a conduta cultural de um povo”. Ele explica que “Jararaca apenas foi consagrado por conta de sua bravura”.

“O povo sempre busca o menor para enaltecê-lo. Nós sentimos isso no próprio cemitério, quando o túmulo de Rodolfo Fernandes não recebe o mesmo número de visitas correspondentes ao tumulo onde está Jararaca”.

O túmulo de Fernandes, político que comandou a defesa de Mossoró contra Lampião, é grande e rico, pois o político era de família grande e poder forte (o que não iria atrair os olhares populares, das pessoas que tinham que ser submissas a ele).


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