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De escrava a empresária: a inspiradora história de Elizabeth Keckley

No século 19, a mulher, que enfrentou diversos obstáculos, conseguiu a liberdade e tornou-se reconhecida por seu desempenho na costura

Nicoli Raveli Publicado em 19/05/2020, às 08h00 - Atualizado às 08h30

Elizabeth Keckley, escrava durante o século 19
Elizabeth Keckley, escrava durante o século 19 - Wikimedia Commons

A pequena Elizabeth Keckley nasceu em meio a conturbação. Filha de uma escrava doméstica, a garota não sabia nem mesmo quem era seu pai. O segredo só foi desvendado após a morte da sua mãe, quando foi descoberto que seu pai era o coronel Armistead Burwell, que também era seu proprietário.

A menina trabalhou – juntamente com sua mãe – desde os quatro anos de idade como babá na residência Burwell. Sua vida, todavia, era marcada por violências. É que, quando ela fazia algo de errado, era extremamente punida por Mary, esposa de Armistead.

Ao atingir os 14 anos, porém, Elizabeth acreditava que sua vida iria mudar. Ela havia sido destinada ao Condado de Chesterfield para cuidar do filho mais jovem dos Burwells, Robert.

Entretanto, a esposa do homem também não respeitava a serva e não sabia por qual motivo a mulher a odiava. Foi então que a família mudou-se para Carolina do Norte e as ameaças tornaram-se ainda mais recorrentes.

Em sua nova casa, Margaret, companheira de Robert, chamou William J. Bingham para dar uma lição à escrava. Ela ordenou que Keckley tirasse suas roupas, mas ela recusou o pedido.

Bingham, irritado, amarrou suas mãos e bateu na jovem de 18 anos. As visitas se tornaram mais frequentes. Na semana seguinte, ele apareceu novamente e a espancou.

Elizabeth Keckley, escrava que tornou-se uma famosa costureira / Crédito: Wikimedia Commons

 

A vida como escrava

Pouco tempo depois, Robert decidiu entregar a escrava a um amigo, Alexander M. Kirkland. A garota – que esperava o início de uma nova vida – foi novamente frustrada. Na nova residência, foi violentada sexualmente por seu dono durante quatro anos.

Os inúmeros atos sexuais resultaram em uma gravidez em 1839 e o pequeno George veio ao mundo. O nascimento, entretanto, não era motivo de felicidade. “Não me importo em me debruçar sobre o assunto, pois ele é cheio de dor. Basta dizer que ele me perseguiu por quatro anos e eu me tornei mãe”, alegou Keckley.

Infeliz com sua vida, decidiu voltar a Virgínia, onde agora serviria Ann, a outra filha dos Burwells, e seu marido, Hugh A. Garland. A família mudou-se diversas vezes, até que chegaram a Missouri.

Lá, Elizabeth – juntamente com seu filho – desenvolveu suas habilidades de costura e logo tornou-se uma costureira com muito talento. O pouco dinheiro que recebia, porém, era destinado a família Garland, que continha 17 membros.

Mas isso não impediu que seu amor pela costura fosse frustrado. Pelo contrário, Keckley ficou cada vez mais dedicada e chamou atenção de diversas pessoas entre a população negra e branca.

Foi em meio a sua ascensão que conheceu James e se apaixonou. O homem se recusou a casar com a escrava até que ela e seu filho fossem livres, mas isso demorou mais dois anos para acontecer.

Ilustração de Elizabeth Keckley / Crédito: Divulgação 

 

Hugh Garland decidiu comprar a liberdade da escrava e os liberou por 1.200 dólares. Logo, casou-se e se mudou para Baltimore, onde pretendia ganhar a vida ensinando outras mulheres a costurar.

Sem sucesso, Elizabeth percebeu que não conseguiria bancar as despesas com esse trabalho. Foi somente com a ajuda do prefeito James G. Berret que Keckley conseguiu diversas clientes e pôde se sustentar.

Ascensão como costureira

Em um de seus trabalhos, a mulher costurou um vestido de seda para Mary Anna Custis Lee, esposa de Robert E. Lee, para um jantar com Edward VII, o então Príncipe de Gales.

A vestimenta foi um sucesso e rendeu diversos comentários positivos. Isso fez com que suas confecções se tornassem cada vez mais um sucesso. Logo, abriu uma fábrica e empregou 20 costureiras.

Entre suas clientes, estavam Adele Cutts Douglas, esposa de um político e advogado de Illinois, e Varina Davis, a única primeira-dama dos Estados Confederados da América. Foi Davis que apresentou a costureira a Margaret McLean, que solicitou um vestido.

Por consequência, a mulher a introduziu a Abraham Lincoln, o então presidente dos Estados Unidos, e sua esposa, Mary Todd Lincoln. Posteriormente, a profissional foi escolhida pela primeira-dama como personal dresser, e a fez roupas sofisticadas.

Devido a aproximação, a mulher foi até mesmo confidente de Mary e esteve presente em inúmeras conquistas. Entre elas, durante a liberação dos escravos, Keckley pediu ajuda dos Lincolns para criar a Associação de Liberados de Senhoras e Soldados a fim de ajudar aqueles que passariam pela mesma situação financeira que ela.

Elizabeth Keckley quando já exercia a profissão de costureira / Crédito: Divulgação 

 

Elizabeth também presenciou o final da Guerra Civil. Seu filho, George, que foi à luta em 1861, morreu durante uma batalha. Além disso, a costureira foi uma fonte confiável e de conforto quando Willie Lincoln morreu de febre tifoide, e também quando o presidente foi assassinado. Após o crime, Mary se viu sem chão e estava completamente endividada. Para isso, Keckley a ajudou por meio de uma seleção de artigos de valor que a família poderia vender para gerar alguma renda.

Conquistas de Elizabeth

Quando se afastou dos Lincolns, a costureira decidiu focar na escritura de um livro, o Behind the Scenes, que continha a história de sua ascensão como costureira e informações sobre a família do então ex-presidente dos Estados Unidos, como escritos de que Mary era uma esposa e mãe amorosa e uma primeira-dama ambiciosa.

Todavia, o que se esperava ser uma fonte de lucro a família, gerou diversas críticas, já que o editor James Redpath incluiu as cartas que Mary havia encaminhado a Keckley.

A costureira chegou até mesmo a perder clientes após a publicação e foi dito que perdeu a amizade com Mary, que se sentiu traída. A partir de então, seu negócio entrou em declínio.

Elizabeth Keckley quando idosa / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com o passar do tempo, entretanto, o livro foi apreciado pela narrativa e também por ter sido escrito por uma mulher que havia sido escrava. Após o sucesso da obra, a trabalhadora continuou a ganhar a vida com suas confecções e foi chamada para ser chefe do Departamento de Costura e Artes das Ciências Domesticas na Universidade Wilberforce em 1892, e mudou-se para Ohio.

Em 1907, porém, Keckley morreu no Lar Nacional de Mulheres e Crianças Desamparadas de Cor por causa desconhecida – e deixou para trás uma impressionante saga.


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