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Ausência familiar e 'Rei da Bélgica': Os relatos sombrios de hospícios na Era Vitoriana

Com registros ocultados publicamente por mais de uma década, os sanatórios britânicos tiveram o desamparo de seus pacientes revelados em 2018

Wallacy Ferrari Publicado em 11/05/2020, às 08h00

Imagem ilustrativa de um sanatório abandonado com macas
Imagem ilustrativa de um sanatório abandonado com macas - Peter H. / Pixabay

Mantidos em segredo desde o século 19, o modo de funcionamento das clinicas de saúde mental durante a Era Vitoriana ocultou as pessoas, histórias e registros de passagens moldadas com medo e angústia. Porém, com acesso aos dados, a Public Records Office Victoria e o site de genealogia Ancrestry puderam contribuir com a lacuna histórica, em 2018.

Digitalizando e disponibilizando publicamente mais de 150 mil documentos de 15 antigos sanatórios vitorianos, as instituições possibilitaram o conhecimento e desfecho de histórias com o auxílio de registros médicos, cartas, fotografias e laudos diagnósticos. Alguns membros se destacam por passagens inconclusivas na época, muitos sem ter ciência da realidade.

Um dos casos notáveis entre os registros divulgados foi o de Kate Dunphy, que foi acolhida no sanatório de Ballarat aos 32 anos de idade, em 1905. Com registros de que a própria família induziu sua internação, a paciente foi descrita como “peculiar durante toda a vida” e compunha a lista de “demência”.

Quando chegou na clínica, mostrava um quadro agressivo, com antecedentes de agressão aos animais e até uma tentativa de botar fogo em uma igreja por “não acreditar em religião”. Porém, no decorrer de sua internação, manifestou a ausência do amparo familiar como a principal causa de sua angústia. Sempre mandando cartas a família — chegando a pedir roupas e calçados — nunca foi correspondida.

Escaneamentos de cartas tratando da paciente Kate Dunphy / Créditos: Divulgação

 

Com os registros públicos, a verdade foi conclusiva; a direção do sanatório não teve interesse em revelar o falecimento de seu pai e a total recusa da família, visto que, gradativamente, a paciente apresentava maior passividade e perdia o comportamento agressivo. O último registro de Kate foi aos 49 anos, relatando que a interna era “limpa, quieta e arrumada”, mas sofria com uma “deficiência mental congênita”.

O rei bobo

No sanatório Ararat, um dos casos chamou a atenção durante a busca dos registros. O francês Louis Perrody, integrado em 1912, aos 36 anos, alucinava com o poder, acreditando fielmente que era o próprio príncipe Leopoldo da Bélgica. Além de perambular nas imediações do internato como um majestoso rei, costumava expor suas partes íntimas para as pacientes da ala feminina, como estivesse dando um prêmio para as senhoras.

O narcisismo não ficava apenas na postura; Louis chegou a assinar diversas cartas como rei, sendo apresentado como “Sua Majestade”, além de solicitar aos diretores o direcionamento das correspondências para membros do governo, sempre sem sucesso. O conteúdo das cartas, no entanto, revelava o sofrimento do interno, pedindo auxílio e envio de dinheiro que "contribuiria para uma manutenção decente”.

Apesar de nascido na França contava uma história plena de altos e baixos: “Nascido em Spa, na Bélgica, nas circunstâncias mais misteriosas já ouvidas... eu me encontrei vivendo entre uma tropa de acrobatas ou povos Ismael, constantemente abusado, principalmente zombado e desprezado”.

Escaneamentos de cartas tratando do paciente Louis Perrody / Créditos: Divulgação

 

Quando se sentiu lesado pela sistemática demora das respostas sobre seus pedidos de extradição à Bélgica, chegou a convidar os médicos do hospício para se juntarem à guerra com as Forças Imperiais Australianas: "Estou certo de que os resultados desse pedido serão atendidos com sucesso e bem-vindos pelo público como um meio amplo e honrado de restaurar o príncipe belga derrubado, um novo nascimento, uma reputação gloriosa, um novo nome australiano ".


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