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De princesa africana a escravizada em solo brasileiro: Aqualtune, a avó de Zumbi

Figura central do Quilombo dos Palmares, essa princesa guerreira foi capturada em uma guerra contra os portugueses e levada ao Recife à força

André Nogueira Publicado em 08/06/2020, às 06h00 - Atualizado às 07h58

Representação de Aqualtune
Representação de Aqualtune - Divulgação

Durante uma sangrenta batalha colonial entre o Reino do Congo, comandado pela dinastia dos Kinzala, e Portugal (Batalha de Mbwila), em 1665, a princesa Aqualtune foi capturada e levada para a América como escrava. Provável irmã do rei regional, Nvita, ela era uma hábil articuladora política, o que continuou a acontecer no Brasil.

Derrotada na batalha, ela foi batizada a força por um bispo e, logo depois, marcada com ferro quente no seio. Levada ao Recife e desesperada, foi vendida como escrava reprodutora, na época em que descobriu a existência do Quilombo dos Palmares. Relatos alegam que a experiência foi tão traumática que, ao chegar ao Brasil, ela tentou aos prantos cair no mar e retornar à terra natal.

Grávida, organizou uma revolta que culminou numa fuga rumo ao núcleo de resistência. O engenho em que estava, Porto Calvo, era conhecido como particularmente brutal, e os feitores responsáveis poelo controle dos escravos não pensavam duas vezes antes de usar da mais brutal violência contra os cativos.

Inicialmente num grupo pequeno, Aqualtune revoltou-se contra a Casa Grande, o que atraiu mais cativos do campo que, integrando ao comando de fuga, criaram um grupo de cerca de 200 pessoas. Então, adentraram à mata rumo a Palmares, onde foi liderança central.

Capoeira, uma das manifestações do quilombo / Crédito: Divulgação

 

Integrando a luta pela liberdade, em nome de sua ancestralidade de reis livres e contra as violências que sofreu nas mãos dos portugueses, Aqualtune participou ativamente na montagem de Palmares. Pouco tempo depois que chegou, deu à luz a Ganga Zumba, aquele que seria um dos maiores líderes da comunidade, e responsável por acordos de paz com a coroa lusitana.

Pouco tempo depois, também deu à luz a Gana, outro líder que comandaria um dos mocambos centrais de Palmares no futuro. De linhagem nobre e alta capacitação política, Aqualtune desenvolveu relações importantes com a comunidade de africanos fugidos, tendo sido fundamental na estruturação da República de Palmares como núcleo de resistência gigante, se tornando maior que Portugal em seu auge.

Ainda teve uma terceira filha, Sabina, que depois seria mãe de Zumbi (ou seja, Aqualtune era sua avó), o mais famoso líder de Palmares e responsável pela grande revolta contra a colonização, resultando numa grande guerra. Sua linhagem nascida livre foi de grandes nobres que batalharam por um sistema contrário ao escravismo lusitano.

O fim da sua vida é incerto, por falta de relatos conhecidos e pouca pesquisa, mas aparentemente ela continuou na luta pelo quilombo por anos. Uma das versões de sua morte, mais violenta, afirma que os portugueses teriam empreendido uma campanha contra Palmares e incendiado algumas vilas, entre elas a que abrigava os mais idosos, e, nisso, ela teria sido assassinada.

Outra versão afirma que ela teria fugido desse ataque e passou a viver num mocambo mais central, onde morreu em paz por conta da idade avançada, em meio à comunidade que tanto a prestigiava. Tida como rainha e guerreira, Aqualtune foi uma peça-chave no sucesso do maior quilombo da História do Brasil, mesmo sendo pouquíssimo conhecida pelo país afora.

Zumbi / Crédito: Wikimedia Commons

 

O quilombo de Palmares, comunidade ampla formada por uma grande rede de mocambos na atual Alagoas, foi o maior do tipo na História. Conhecido como refúgio dos escravos fugidos, que tinham uma chance reviverem livremente, trabalhando em nome da comunidade, e não mais de um senhor por obrigação, o local abrigou milhares de africanos e negros nascidos no Brasil, dando origem a uma série de homens e mulheres nascidos livres.

Aqualtune é pouco conhecida pela História, mas sua importante atuação política a fez símbolo relevante na luta política, não só pela emancipação preta, mas também como figura feminina de destaque e comando político de peso.  Já na época colonial, sua imagem se tornou de uso geral entre mulheres em luta por emancipação.

Depois de sua morte, criou-se uma lenda na África de que a princesa teria sido transformada pelos deuses em uma guerreira imortal, guia ancestral que comandou guerreiros na luta de resistência em Palmares. Em Pernambuco, ela é uma figura mais conhecida, com cordéis e músicas sobre sua figura.


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