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De rituais satânicos a abuso de menores: O bizarro julgamento da pré-escola McMartin

Uma escola nos Estados Unidos viveu momentos deploráveis depois que sérias — e bizarras — acusações foram feitas

Caio Tortamano Publicado em 18/08/2020, às 19h30

Fachada da pré-escola McMartin
Fachada da pré-escola McMartin - Divulgação/Youtube

A história começa em 1983. Judy Johnson acreditava que o seu filho estava sendo molestado diariamente na pré-escola depois de perceber que a criança estava tendo dificuldades para defecar. Os autores da crueldade seriam o ex-marido de Judy e o professor da criança, Ray Buckey, neto da fundadora da pré-escola McMartin, Virginia McMartin.

Como se a acusação já não fosse séria — e a verdade, incerta — Johnson acusou funcionários da escola de terem relações sexuais com animais e que o administrador da creche, Peggy McMartin Buckey, furava crianças embaixo dos braços. As acusações chegaram à polícia que, ao questionar Ray, não prosseguiram com nenhuma investigação por falta de evidências.

A história, entretanto, estava longe de acabar. A polícia enviou uma carta para mais de 200 pais que tinham seus filhos matriculados na escola de Virginia. Nessa carta, as autoridades queriam saber se alguma criança foi abusada na escola, pois existia a possibilidade que esses crimes aconteciam na instituição da Califórnia.

Interrogatório

Para entender se algo estava acontecendo, os policiais tiveram que perguntar às próprias crianças se elas tinham passado por algum tipo de trauma em decorrência desses supostos abusos. As entrevistas foram feitas em uma clínica especializada em tratar pessoas que já foram molestadas, mas, apesar do ambiente propício, é dito que os métodos utilizados pelos interrogadores eram questionáveis, em que crianças tinham que especular sobre possíveis acontecimentos.

Isso, como foi comprovado mais tarde, levava as crianças a criarem falsos testemunhos. Ainda assim, foram apontados 360 menores abusados. Esse número absurdo de vítimas, entretanto, foi ficando cada vez mais enxuto conforme investigações procediam, tendo somente menos de 12 restado para testemunhar no julgamento definitivo.

Controvérsias

Especialistas em psicologia, especialmente Michael P. Maloney, estudaram as filmagens dos depoimentos e entrevistas feitas com as crianças, apontando que os métodos eram altamente coercitivos, e dirigiam as supostas vítimas a falar o que os entrevistadores queriam.

Entre outros métodos, investigadores utilizavam fantoches no tratamento com crianças / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Na hora dos julgamentos, que aconteceram em 1987, as acusações eram extremamente fracas em quesitos legais. Mesmo assim, sete pessoas foram presas supostamente envolvidas nos estupros. Foram elas: Virginia, Peggy, Ray, a irmã de Ray, Peggy Ann Buckey, e os professores Mary Ann Jackson, Betty Raidor e Babette Spitler.

De todas essas pessoas, as acusações contra Virginia, Peggy Ann, Mary Ann, Betty e Babette foram removidas, restando Peggy e Ray Buckey, que aguardavam em custódia o julgamento. Ao final das sessões, Peggy foi inocentada.

Ray, por sua vez, não conseguiu comprovar sua inocência, ainda que não tenham sido apresentadas quaisquer provas que o apontavam como culpado. Assim, ele foi preso por cinco anos. Depois desse período, em um novo julgamento, os juízes decidiram por retirar todas as acusações contra ele.

Raymond Buckey e Virginia McMartin / Crédito: Divulgação/Youtube

 

 

Bizarrices

O estranhamento que as pessoas deveriam ter levantado sobre o caso deveria ter sido revisto desde o princípio. As acusações eram completamente escabrosas, e poderiam ir de encontro com um pânico geral ocorrido na década de 1980 por conta de supostos abusos decorrentes de rituais satânicos.

As crianças, em suas confissões, teriam afirmado que entraram em contato com bruxas voando, viajado em balões de ar quente, além de terem sido levadas para andar em túneis subterrâneos — os quais nunca foram sequer encontrados. A falta de critério das crianças forçadas a depor era tanta que durante um exercício proposto pelo advogado de McMartin, uma das supostas vítimas apontou o ator Chuck Norris como um dos abusadores.

Judy Johnson, responsável pelo início de toda essa história, fez acusações absurdas sobre os supostos envolvidos, inclusive de que Raymond Buckey conseguia voar. A mulher já tinha sido diagnosticada com uma severa paranóia esquizofrênica, mas esses fatos somente foram revelados quando a mulher foi encontrada morta, ainda com o processo em andamento, em 1986.

Johnson teria morrido por conta de complicações causadas por seu alcoolismo crônico e, mesmo quando foi descoberto pela defesa, os acusadores simplesmente retiraram as falas dadas pela mãe do garoto dos processos — decisão essa que levou até um promotor a se retirar do caso pelo circo que estava sendo formado.

Resultado

O processo demorou sete anos, e custou quinze milhões de dólares. Foi e ainda é o caso mais longo e caro da história dos Estados Unidos, e não resultou em nenhuma prisão. A escola foi fechada e o prédio acabou sendo demolido.

Em 2005, um dos estudantes da pré-escola na época do caso contou que tinha mentido em seu testemunho, pois toda vez que ele dava uma resposta que os investigadores não gostavam, o faziam responder novamente até agradá-los.


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