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Deborah Lipstadt, a historiadora que precisou provar na justiça que o Holocausto existiu

Depois do lançamento de seu livro em 1993, ela foi processada pelo escritor britânico David Irving — que negava que as câmaras de gás eram usadas para exterminar os Judeus e retratava Hitler de forma favorável

Fabio Previdelli Publicado em 07/01/2020, às 17h28

Pijamas usados pelos prisioneiros nos campos de concentração
Pijamas usados pelos prisioneiros nos campos de concentração - Divulgação

Liderados por Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, uma ação sistemática exterminou cerca de seis milhões de judeus em todos os campos de concentração espalhados nas regiões da Europa que eram dominadas pelos alemães.

Quem se depara com a informação acima rapidamente associa o fato ao Holocausto. Entretanto, apesar desse episódio da história da Segunda Guerra Mundial ser difundido até hoje, muitas pessoas ainda insistem em contestá-lo. Mas como provar para alguém que o Holocausto realmente existiu?

Foi essa parte sombria da história mundial que a historiadora americana Deborah Lipstadt teve que legitimar no tribunal em uma disputa judicial que começou em 5 de setembro de 1996. Mas para entendermos melhor todo o contexto, ainda precisaremos voltar mais alguns anos no passado.

A autora Deborah Lipstadt / Crédito: Getty Images

 

Em 1993, Deborah publicou o livro "Denying the Holocausto: The Growing Assault on Truth and Memory" ou, em tradução livre, ‘Negando o Holocausto: O Crescente Ataque à Verdade e à Memória’.

Nele, a historiadora abordou trabalhos que defendiam, entre outras coisas, que o extermínio em massa de judeus nunca aconteceu. Em poucos parágrafos, ela debateu a maneira equivocada que o escritor britânico David Irving interpretava documentos oficiais para que eles corroborassem com seu argumento de que as câmaras de gás nunca foram usadas para exterminar esse povo.

Após a publicação, pela Penguin Books, Lipstadt foi processada por Irving, que alegou difamação. Neste cenário, a autora precisaria provar que o que ela escreveu era verdade, ou seja, ela precisaria comprovar um fato histórico.

Segundo o The Guardian, na época, uma pesquisa apontava que 22% dos americanos pensavam que o Holocausto poderia não ter acontecido. Este número, somado com a ascensão do neonazismo na Europa, assustava Deborah. "Muitas pessoas me disseram para não lutar, incluindo líderes da comunidade judaica, que temiam que eu estivesse dando uma plataforma para esses grupos", declarou a autora ao jornal britânico.

David Irving processou Deborah após a publicação do livro / Crédito: Getty Images

 

O caso — que demorou seis anos para ter uma conclusão — teve 32 dias de julgamento. A equipe jurídica de Lipstadt e da Penguin Books, chefiada pelo advogado Anthony Julius, se recusou a colocar sobreviventes de Auschwitz entre as testemunhas, pois isso sugeriria a necessidade de provar a existência do Holocausto.

“Irving não nega que as pessoas foram levadas para os campos. O que ele nega é o processo de matar. E praticamente não há sobreviventes para atestar isso”, explica a autora. Afinal, os nazistas destruíram sistematicamente quase todos os documentos que podiam verificar os detalhes terríveis das câmaras de gás de Auschwitz.

Apesar de não serem convocados para depor, testemunhas dos sobreviventes apareciam todos os dias no tribunal para assistirem o julgamento. "Não queríamos colocar um sobrevivente no banco de testemunhas para ser interrogado por um homem cujos motivos supusemos que seriam humilhá-los, confundi-los", disse Deborah.

A autora acreditava que Irving, assim como outros negacionistas, indicavam, na verdade, um preconceito contra os judeus. “Em seu centro, o negacionismo é mais que uma forma de antissemitismo”, declarou em entrevista à Época.

Deborah Lipstadt saindo da corte / Crédito: Getty Images

 

Deborah acredita que essa negação a fatos históricos devem ser enfrentados em suas fontes. Foi com esse pensamento que os advogados armaram sua defesa, não apresentando ao juiz provas concretas de que o Holocausto realmente existiu, mas desmistificando os fatos levantados por Irving.

“Nós seguimos as notas de rodapé dele, ou seja, suas fontes. Assim, demonstramos para o juiz que toda vez que ele fazia algum tipo de alegação era baseado em uma distorção do que estava no documento, uma mentira, uma citação parcial, etc. Em outras palavras, não provamos o que aconteceu, o holocausto. Nós provamos que o que David Irving dizia não aconteceu”, concluiu.

Em abril de 2000, o juiz concluiu que a escritora não havia difamado Irving. Declarando que ele era incontestavelmente um “negador do Holocausto” e que seus comentários durante o julgamento confirmaram que ele era um “antissemita” e “racista”.

Após ter tido sua apelação recusada, ele foi declarado falido em 2002, já que era incapaz de pagar os custos do processo que eram estimados em 2 milhões de libras. Além do mais, o tribunal também considerou que os livros de Irving distorceram a história sobre o papel de Adolf Hitler no Holocausto, retratando o ditador alemão de forma favorável.

Em 2005, ele foi condenado a três anos de prisão na Áustria — país que considera a negação do Holocausto um crime. Mais de uma década depois, em 2016, os seis anos de batalha judicial foram relatados no filme ‘Negação’, dirigido por Mick Jackson (O Guarda-Costas) e estrelado por Rachel Weisz (A Favorita).

A atriz Rachel Weisz e a escritora Deborah Lipstadt durante coletiva do filme Negação / Crédito: Getty Images 

 

“Há tantas pessoas que gostariam de enfrentar racistas, pedófilos ou antissemitas. E eu tive a chance de fazer isso. Eu fui arrastada para isso, mas tive a chance de me levantar. E, ao fazê-lo, fui capaz de defender os mortos — aqueles mortos, aquelas famílias que não puderam fazer isso”, declarou Deborah Lipstadt.


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