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Depois de tantas derrotas, o legado de Marx ainda existe? Especialistas respondem

A memória que temos do mundo vermelho é repleta de fatos controversos. Mas, ainda hoje, o filósofo alemão é uma figura importante para a política

Jorosteu Matraga Publicado em 14/03/2020, às 08h00

Pintura famosa do teórico
Pintura famosa do teórico - Getty Images

O marxismo, conjunto de ideias ligadas ao legado de Marx e Engels, foi um dos programas mais importantes do século 20, fundamentando governos e projetos políticos pelo mundo inteiro. Porém, com a reunificação alemã, o fim da URSS e da Iugoslávia e a burocratização dos partidos comunistas na Era da Informação, a influência do autor parece cada ver mais supérflua.

Marx traduz em sua obra questões de suma relevância na vida pública, principalmente da esquerda. Como consequência, vale citar pelo menos quatro: o conceito de Mais-valia, a noção de práxis política, a crítica ao sistema capitalista e o pensamento histórico-dialético. Marx fundamenta a análise objetiva do sistema em que vivemos, defendendo a ação real em nome da mudança.

“A delimitação do marxismo sempre foi objeto de controvérsias, mesmo quando Marx e Engels ainda estavam vivos. O confronto com a obra, a ação política e os programas partidários elaborados por eles, em geral, buscam apenas ressaltar incongruências, revisões e desvios”, afirma Ricardo Musse em O legado de Marx no Brasil.  “Para escapar dos riscos de uma determinação doutrinária ou mesmo dogmática, os historiadores tendem a considerar como pertinentes ao campo do marxismo teorias, programas, partidos e acontecimentos que reivindicam explicitamente ou tenham sido nitidamente marcados pelos legados de Marx e Engels”.

Karl Marx / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um bom marxista é, essencialmente, um crítico, inclusive, das próprias ideias. “A teoria de Marx, ela própria, só pode sobreviver criticando-se a si mesma, renovando seu próprio ponto de vista; morrendo, para renascer mais adiante. Em suma, recompondo-se numa fusão de horizontes, em que a autoria passada encontra resposta na leitura e na determinação das condições do presente”, discute Fernando Magalhães, em O legado do pensamento de Marx: a presença do marxismo na sociedade pós-moderna.

Um dos maiores especialistas em trotskismo do Brasil Osvaldo Coggiola considera que a globalização atual faz da teoria marxista ainda aspecto importante da vida social. Celso Frederico, em resenha ao trabalho de Coggiola na edição nacional do Manifesto Comunista, resume:

“Com o fim do bloco socialista o capitalismo voltou a imperar solitário no mundo. O processo conhecido como globalização, antevisto por Marx e Engels em 1848, está enfim impondo ao planeta a civilização, isto é, a forma burguesa de sociabilidade. A revolução técnico-científica em curso reafirma o prognóstico do Manifesto sobre esse modo de produção que só se mantém através da transformação contínua das forças produtivas. Acirrando as contradições entre o progresso material e a apropriação privada, o capitalismo moderno está agora mais  próximo do retrato esboçado pelo Manifesto do que em  1848. Cento e cinquenta anos depois, o texto poderá  adquirir uma explosiva atualidade.”

Partidos comunistas da Europa / Crédito: Divulgação/Twitter

 

Nesse aspecto, Marx é atual mesmo após mudanças importantes, mas não fundamentais, do capitalismo. Como o papel da tecnologia, o valor do capital intelectual e a capacidade de indexação econômica do capitalismo tardio, que exigem uma abertura de horizontes. Porém, Jorge Grespan, historiador da USP, coloca a atualidade de Marx menos nesse aspecto geral, e destaca o valor do trabalho do filósofo no entendimento dos desvios e anormalidades do próprio sistema.

 “O Marx, ele dá um exemplo muito caro a ele que é bem interessante de ver, e muito atual, que é o exemplo de uma mercadoria muito especial: o vinho. É interessante de ver que o vinho não era uma mercadoria tão especial [...] até os anos 90 do século 20. [...]. Marx trata de uma região [...] a do rio Moselle [...] e ele trada do seguinte: o trabalho de um produtor de vinho, tanto pra plantar quanto pra colher, pra tratar as uvas, para espremer, o trabalho é basicamente o mesmo”, afirmou durante a entrevista “A atualidade de Marx” para o canal Boitempo.

O historiador argumenta que essa distinção está nas convenções em relação às características do produto. “Portanto, todo e qualquer vinho tem o mesmo valor de troca. Por que então alguns vinhos são tão mais caros que outros? Tem haver com o valor de uso [que] acaba sendo suporte desse desvio de preço em relação ao valor de troca”.

Como consequência, é possível perceber uma atualidade em Marx, que pode ser projetada no exemplo que o autor dá sobre a terra, que não seria um bem humano mas adquiriria preço. Hoje, numa época de especulação imobiliária e ápice da construção civil, isso aparece com grande importância.

“Valor de uso é uma coisa, valor de troca é outra completamente distinta; no entanto, o valor de uso permite que haja um desvio de preço em relação ao valor de troca. Ele serve como suporte material desse desvio.” 

Luiz Carlos Prestes, maior nome do comunismo no Brasil, foi duramente reprimido / Crédito: Wikimedia Commons

 

“No livro 3, Marx está explicando um conjunto de fenômenos que são nos mais atuais e mais interessantes do capitalismo que a gente está vivendo. Então realmente o que eu procuro fazer é discutir essas questões do livro 3 e principalmente pelo prisma desse conceito de modo de representação, que permite justamente perceber que o momento que o preço se desvia do valor, o preço está funcionando como uma representação do valor."

"Por último, vale citar que o principal legado do marxismo é o incentivo à luta pela libertação econômica e social, a busca pela práxis e pela não acomodação. “Precisamos construir alternativas. O capitalismo tem suas crises cíclicas, crises ecológicas inclusive, mas não conseguimos simplesmente substituir um sistema por outro. Precisamos superar e construir algo melhorado”, destaca Sabrina Fernandes, autora do Canal Tese Onze ao jornal The Intercept.


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