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"Desafio qualquer médico no mundo a provar que não sou mulher": a incrível luta de Lucy Anderson

Nascida no corpo de um garoto, a norte-americana sabia que, na verdade, era uma menina e nunca abriu mão de sua identidade

Pamela Malva Publicado em 14/11/2020, às 10h00

Ilustração de Lucy Hicks Anderson
Ilustração de Lucy Hicks Anderson - Divulgação/Youtube

Desde que nasceu, a pequena Lucy Hicks Anderson nunca se sentiu confortável em seu corpo. Considerada um menino pela sociedade, a menina sabia que era diferente de tudo que as pessoas imaginavam muito antes do termo transgênero ser cunhado.

Natural de Waddy, no estado norte-americano de Kentucky, Lucy, de fato, nasceu no corpo de um menino, biologicamente falando, em 1886. Olhando-se no espelho, todavia, ela sabia que, na verdade, era uma menina.

Dessa forma, desde muito pequena, Lucy agia, falava e se vestia de acordo com o padrão feminino da época. Certa sobre sua identidade, a jovem resistiu até mesmo quando a polícia e diversas outras autoridades quiseram entrar em seu caminho.

Lucy Hicks Anderson (no centro) ao lado de dois oficiais / Crédito: Divulgação/Youtube

 

A família

Quando perceberam os comportamentos da menina, os pais de Lucy rapidamente a levaram para o hospital. Não era comum, afinal, que um menino do século 19 afirmasse estar no corpo errado, alegando ser, na verdade, uma garota.

Como a menina era muito pequena, entretanto, os profissionais não viram tantos problemas em sua “personificação” de comportamentos femininos. Assim, disseram para os pais que Lucy que não se preocupassem e deixassem a menina viver em paz.

Com isso, a criança assumiu completamente sua personalidade tida como feminina e passou a frequentar sua escola em vestidos — peças que, na época, eram reservadas apenas para mulheres. Foi nesse momento que o nome Lucy surgiu em sua vida.

Ilustração de Lucy Anderson em seu julgamento / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Vida cheia de lutas

A infância de Lucy passou como um estalo e, aos 15 anos, a menina já não estudava mais. Longe da escola, ela trabalhou durante anos para se sustentar e, quando chegou aos 20 anos, casou-se com seu primeiro marido, ClarenceHicks, no Novo México.

O matrimônio durou nove anos e, mais tarde, uma vez separada, a mulher começou a perseguir um de seus maiores sonhos: a panificação. Lucy, na verdade, era muito habilidosa na cozinha, mas não conseguia ganhar tanto dinheiro como chef.

Assim, ela juntou um pouco de suas poupanças e comprou uma antiga pensão, em Oxnard, na Califórnia. Por lá, ela montou um dos bordéis mais conhecidos e visitados da região. Com o negócio, Lucy passou a ser tratada como uma verdadeira socialite.

Ilustração de Lucy se defendendo em seu julgamento / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Vida de socialite

Muito além de uma mulher elegante, no entanto, a jovem dona do bordel também era uma anfitriã incrível. Ela era bastante influente e recebia dezenas de pessoas em sua casa durante jantares de gala, nos quais ela fazia questão de falar sobre política.

Tamanha era sua rede de contatos que, quando ela se envolveu em um escândalo de venda ilegal de bebidas alcoólicas, a polícia mal conseguiu colocar às mãos na socialite. Na ocasião, Lucy chegou a ser presa, mas sua fiança logo foi paga por um amigo rico.

Em 1944, a jovem casou-se mais uma vez, agora com Rueben Anderson, um soldado que trabalhava em Long Island. No ano seguinte, contudo, um marinheiro fez uma séria acusação contra o bordel de Lucy, afirmando que teria contraído uma doença venérea de alguma das garotas que a socialite empregava no lugar.

Manchete de jornal anunciando que Lucy não poderia mais usar roupas femininas / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Começo do fim

A repercussão do caso foi enorme e, como consequência, todas as mulheres do bordel tiveram de fazer exames detalhados, Lucy inclusive. Durante os testes, então, não demorou para que as pessoas descobrissem que ela nasceu como um garoto.

Indignado com a vida que a mulher levava, o promotor do condado de Ventura acusou a mulher de perjúrio, afirmando que ela teria mentido em sua certidão de casamento. Pelo suposto crime, Lucy foi condenada a 10 anos de liberdade condicional. 

Durante seu julgamento, entretanto, a mulher comoveu diversas pessoas ao contestar o júri. “Desafio qualquer médico no mundo a provar que não sou mulher", ela bradou, com certeza na voz. "Vivi, me vesti e agi exatamente como sou: uma mulher."

Ilustração de Lucy se defendendo em seu julgamento / Crédito: Divulgação/Youtube

 

Cercada de amor e incertezas

Condenada e com seu casamento invalidado pela corte, ela ainda foi acusada de fraude pelo governo federal. Nesse segundo processo, Lucy foi proibida de usar roupas femininas e passou a ser legalmente obrigada a se vestir “como um homem”.

Uma vez liberada da prisão, a antiga socialite não pode voltar para Oxnard, já que o chefe de polícia do condado a ameaçou com mais um processo. Assim, Lucy e Rueben decidiram se mudar para Los Angeles, onde poderiam viver sem maiores preocupações.

Aos 68 anos, após uma vida ao lado do marido que ela tanto amava, Lucy faleceu, em 1954. Hoje em dia, a mulher é conhecida por protagonizar "um dos primeiros casos documentados de uma transexual afro-americana", segundo o Handbook of LGBT Elders.


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