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Anos 60: Os desafios para ser jogador de futebol

Décadas atrás, antes da era do futebol bilionário dos caça-talentos, o processo para entrar era muito mais tortuoso

José Renato Santiago Publicado em 31/01/2019, às 15h00

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Entenda - Wikimedia Commons

Fortaleza, 16 de janeiro de 1958. Naquele dia o atual campeão paulista, o São Paulo Futebol Clube, iria enfrentar a equipe mais popular e também campeão de seu estado o Ceará Sporting Club. Naquele tempo, por conta da ausência de competições com abrangência nacional, as excursões das equipes do sul do país ao nordeste eram frequentes e costumavam atrair muitos torcedores que ouviam os nomes dos grandes craques do futebol brasileiro apenas pelo som vindo das rádios.

Neste ano a equipe da capital bandeirante contava com nomes de destaque no futebol brasileiro dentre eles Zizinho, ídolo declarado do Rei Pelé, o trio De Sordi, Dino Sani e Mauro Ramos de Oliveira, que conquistaria o título mundial naquele mesmo ano na Suécia, Poy, um dos maiores goleiros da história do futebol paulista, e Canhoteiro, um mágico pelo lado esquerdo do campo.

Devido ao fato do campeonato paulista ter se encerrado fazia pouco mais de 15 dias, em 29 dezembro de 1957, com a vitória por 3 a 1 frente ao rival Corinthians, muitos desses jogadores sequer chegaram a viajar para esta excursão da equipe que começara no dia 9, em Salvador, passara em São Luís, no dia 12 e que além de Fortaleza, ainda se estenderia até o Recife, onde se encerraria em 9 de fevereiro. Ao todo, seriam 9 partidas em um mês.

Ainda assim, a equipe tricolor era temida e por conta disso os dirigentes do Ceará resolveram adotar uma prática muito comum para as equipes anfitriãs naquela época que consistia em reforçar seus elencos com jogadores de outros times da cidade. O importante era, ao menos, não fazer feio diante as equipes do sul do país. Costumeiramente, a preferência era chamar atletas de equipes que não eram rivais, por conta disso, o técnico do Ceará, Manoel Conrado do Nascimento, o Dengoso, solicitou a Airton do Monte que dirigia o Gentilândia, equipe do subúrbio de Fortaleza, a liberação do atleta Fernando Cordeiro Sátiro, médio volante que se destacara na equipe desde 1956, quando conquistou o título de campeão estadual.

Aos 20 anos, Sátiro pertencia a uma tradicional família cearense com fortes raízes ao futebol local. Seu tio-avô, Alcides Santos, fundara o arquirival do Ceará, o Fortaleza Esporte Clube, já seu tio, Walter, fora campeão cearense em 1936 defendendo as cores do Maguary, outro grande rival do Ceará sobretudo durante as décadas de 1930 e 1940. Associado a este histórica rivalidade com o Ceará Sporting, uma grande paixão com quem gostaria de passar seus momentos livres, fez com que ele, a princípio, recusasse o convite de defender as cores preta e branca naquele amistoso.

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Diante da negativa, coube a Airton do Monte pedir que ele atuasse ao menos no primeiro tempo da partida, uma vez que o atleta titular do Ceará não conseguiria participar do jogo inteiro. Ainda que contrariado, ele aceitou e momentos antes do início da partida chegou aos vestiários do estádio Presidente Vargas. Rapidamente vestiu a camisa e foi à campo se juntar aos seus companheiros, até então, adversários de outros tempos.

Embora demonstrasse alegria, Sátiro não escondeu, no entanto, que estava meio aborrecido, ainda mais por estar atuando fora de sua posição, como lateral. Talvez por conta disso, logo aos 3 minutos da partida, ao se antecipar ao goleiro Ivan, acabou endereçando a bola para a sua própria rede, isto é, marcou um gol contra, Ceará 0 x 1 São Paulo.

A preocupação maior que veio à tona, como confessaria anos depois, foi a de que seus companheiros achassem que tivera feito corpo mole. Muito por conta disso, passou a correr como jamais o fizera antes ao longo de sua carreira. Foi dele o passe que propiciou o gol de empate cearense logo aos 12 minutos, Ceará 1 x 1 São Paulo. Dono de um toque de bola refinado, Sátiro se empenhou demais durante aquele primeiro tempo, deixando ótima impressão.

No intervalo da partida, como houvera combinado, foi substituído e sequer ficou no estádio para acompanhar o restante da partida que acabaria 2 a 2. Ao final do jogo, no entanto, o então técnico do São Paulo naquela partida, Manuel Raymundo Paes de Almeida, que também era dirigente do clube perguntou ao técnico do Ceará se haveria como contar com aquele rapaz que atuara apenas do primeiro tempo. Surpreso, Dengoso informou que Sátiro não pertencia ao clube, mas sim a outro clube da cidade, o Gentilândia. Sendo assim, chamou Airton do Monte para conversar com ele.

Airton comentou que não haveria problemas desde que fossem apenas por alguns jogos. O motivo era a certa aversão que seu pai, Mahir, tinha quanto ao filho seguir a carreira de jogador de futebol. Ainda que houvesse uma estreita ligação histórica de sua família junto ao futebol alencarino, Mahir não admitia que o filho deixasse os estudos de lado e partisse para ficar ‘jogando bola’. A sociedade daquele tempo encarava isso como coisa de gente que não quer trabalhar, aliás, até mesmo as mulheres “em idade de contrair matrimônio” eram orientadas a se afastarem de jogadores de futebol para não ficarem mal faladas. Embora já profissional, o futebol não envolvia grandes valores financeiros, e, ainda mais no nordeste, era visto apenas como um passatempo para aqueles que ainda estudavam ou uma forma de ‘vagabundar’ aos que sequer emprego tinham.

Este tipo de preconceito ao jogador de futebol em nosso país se tornou mais evidente desde que o esporte, inicialmente concebido como uma prática restrita à elite da sociedade brasileira, passou a se popularizar. O fato dos primeiros grandes nomes de nossos campos, Arthur Friedenreich, ‘El Tigre’, Fausto, a Maravilha Negra, e Leônidas da Silva, o Diamante Negro, estes últimos destaques nas Copas do Mundo de 1930 e 1938, respectivamente serem negros e/ou descendentes certamente aguçou ainda mais este preconceito que também revestia algum racismo ainda muito presente em nossa sociedade. Além disso, Barbosa, goleiro acusado de ter falhado na final da Copa do Mundo de 1950, na derrota do selecionado brasileiro diante o uruguaio por 2 a 1, era negro e viveu até o fim da vida a carga desta pena. Certa vez ele chegou a afirmar “No Brasil, a pena máxima (de prisão) é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi”. Racismo ou não, apenas em 1998, quase 50 anos depois, um negro voltaria a ser goleiro titular da seleção brasileira durante uma Copa do Mundo, no caso, Dida, no torneio realizado na França.

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Mahir era dentista, filho de um proeminente político local, Manoel Sátiro, e embora tivesse alguns irmãos ex-jogadores de futebol, um deles tinha se tornado médico e outro advogado. Ele não admitiria que seu filho trocasse as carteiras da escola pelos campos de futebol. A questão familiar, no entanto, só viria a se tornar um problema após Sátiro atuar em duas partidas pela equipe paulista, nos dias 23 e 26, contra o Ferroviário local e o Fluminense do Rio de Janeiro. Ao vê-lo atuar com a camisa do tricolor paulista, Manuel Raimundo se convenceu que ele seria uma ótima contratação ainda mais pelo fato de Dino Sani, o titular da equipe, fatalmente fosse se ausentar de algumas partidas da equipe por conta de sua esperada convocação para a Copa do Mundo da Suécia que aconteceria em junho daquele ano. Novamente, veio à tona a figura de Airton do Monte, a quem coube estabelecer uma estratégia em prol de convencer o pai de Sátiro, Mahir, a permitir sua ida para o São Paulo. Anos antes em 1956, dirigentes do Vasco da Gama já tinham tentado a sua contratação e chegaram a oferecer estadia no estádio de São Januário. Naquela oportunidade, Mahir sequer respondeu a carta enviada pelos dirigentes cruzmaltinos. Astuto e sabedor dos valores da família, Airton foi ao encontro de Manuel Raimundo e ressaltou a importância que os estudos teriam na vida de Sátiro, ainda mais pelo fato de seu pai ser dentista e boa parte de seus parentes serem ‘letrados’. Também destacou o que ocorrera com os dirigentes do Vasco anos antes.

Por fim deixou claro que a única maneira de Mahir permitir a ida do filho para São Paulo seria se o dirigente garantisse que ele continuaria a estudar. Dias depois, eis que uma carta endereçada a Mahir chega, informando o interesse do tricolor paulista pela contratação de Sátiro. No texto, escrito pelo próprio Manuel, o dirigente confirmou a importância que o clube dava a formação intelectual de seus atletas e ressaltou que daria plenas condições para que seu filho continuasse a estudar.

Com um olhar desconfiado mas sabedor que seria o melhor para seu rebendo, Mahir escreveu em uma carta, sua resposta, onde agradeceu pelo interesse demonstrado e permitindo a ida de Sátiro para a capital paulistana. No dia 27 de fevereiro daquele ano, Sátiro estreou pelo São Paulo, em partida válida pelo Torneio Rio-São Paulo, diante o Fluminense no estádio do Pacaembu. Viria a atuar pelo tricolor ao longo de 90 partidas, a mais importante delas, no dia 2 de outubro de 1960, na inauguração oficial do estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, quando deu início à jogada que resultou no gol de Peixinho na vitória por 1 a 0 diante a equipe portuguesa do Sporting. Atuaria ainda na Ferroviária de Araraquara, XV de Piracicaba e Fortaleza, com grande destaque e sempre de forma muito disciplinada. Conforme desejo do pai, concluiu os estudos, se formou em Educação Física, atividade que desenvolveu, como professor, até se aposentar. Sátiro representa um pouco da história de tantos atletas nordestinos que enfrentaram o preconceito de ser tornar jogador profissional e vieram fazer suceso no chamado “sul maravilha”.