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"Desapareceu Roberto Carlos": quando um jornal anunciou o falso sumiço do ícone da Jovem Guarda

Em 1968, a busca por uma polêmica foi tanta que o periódico teve de se retratar no dia seguinte, dessa vez com a manchete "Acharam Roberto Carlos"

Isabela Barreiros Publicado em 14/06/2020, às 07h00

Roberto Carlos jovem
Roberto Carlos jovem - Divulgação

Na década de 1960, a música brasileira estava passando por uma transformação muito importante, que chegou a modificar profundamente a cultura do país. Durante aquele período, a cena nacional estava sendo dominada pelos tropicalistas, que propunham uma mistura entre elementos nacionais e estrangeiros, e, também, pelos membros da Jovem Guarda.

Esses últimos podiam ser considerados uma espécie de Beatles em terras tupiniquins. Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléa e Ronnie Von eram os nomes mais conhecidos do movimento, e, inspirados em artistas internacionais como Elvis Presley, Rolling Stones, Chuck Berry e os próprios Beatles, popularizaram o uso da guitarra no país dominado pelo violão.

1965 pode ser considerado o marco para o movimento musical, com a estreia de um programa homônimo da Record, onde os artistas se apresentavam. Mas junto com a fama, vieram os problemas — eles eram assediados de maneira extrema tanto pelo público tanto pela mídia brasileira.

E, assim como os dias de hoje, as revistas e jornais sempre procuravam algo para falar sobre eles. Mesmo que fosse a mais pura fofoca, isso provavelmente aumentaria as vendas dos produtos jornalísticos, da mesma forma que hoje sobe audiências de sites de entretenimento.

Poderia ser até mesmo uma mentira, ou uma verdade mal contada. Em 13 de fevereiro de 1968, foi a vez do jornal paulista Notícias Populares, que hoje não existe mais, realizar tal façanha para vender mais. Naquele dia, o editor do noticiário, Jean Mellé, mandou o repórter José Carlos Bardawil conseguir alguma declaração de Roberto Carlos.

Naquela época, qualquer aspas ou fofoca improvável sobre o cantor poderiam causar um alvoroço entre os fãs e o público que gostava da Jovem Guarda. E, com esse intuito, o jornalista ligou para Paulinho de Carvalho, diretor da TV Record, que era responsável por transmitir o programa dos artistas.

A resposta foi que ele não conseguiria ter contato com o Rei, já que ele estava em Nova York, nos Estados Unidos. Isso pode até não parecer notícia, mas se transformou em uma com o imaginário criativo e polêmico do repórter. A manchete do jornal estava pronta, apenas a partir da ausência de uma declaração.

"Desapareceu Roberto Carlos", estampou o jornal Notícias Populares do dia. É claro que aquilo não era verdade: o paradeiro do cantor era, sim, conhecido, mas valia tudo para conseguir alguma controvérsia na cena musical brasileira. Milhares de cópias foram vendidas principalmente por conta da primeira página, que causou ainda um desespero entre os fãs preocupados com o ídolo.

A primeira página do jornal Notícias Populares / Crédito: Divulgação

 

A polêmica já estava feita. No dia seguinte, eles tiveram de se retratar por conta da notícia falsa espalhada e escreveram em letras engarrafadas mais uma manchete sobre o cantor, dessa vez encontrado. "Acharam Roberto Carlos", afirmou o jornal.

Aquela não foi a única nem a primeira vez que periódicos veicularam informações erradas para conseguir atingir mais público e gerar engajamento, como se diz hoje. Isso ainda faz parte da rotina de muitos sites de fofoca que atuam nos dias de hoje, por exemplo.


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