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Desdobramento virtual: O método que possibilitou a leitura de carta lacrada há séculos

Por razões desconhecidas, as cartas nunca foram entregues aos destinatários no século 17. Em 2015, elas foram redescobertas e só agora decifradas

Larissa Lopes, com supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 04/03/2021, às 08h00

Carta lacrada com selo de cera de ouro, datada do século 17
Carta lacrada com selo de cera de ouro, datada do século 17 - Divulgação/Museum voor Communicatie

O século 17 teve grandes marcos na elaboração do conhecimento que se tem hoje. O mesmo século que trouxe a publicação de ‘Hamlet’, do consagrado Shakespeare, ou de ‘Dom Quixote’, de Miguel de Cervantes, abrigou também o pensamento científico de Galileu Galilei.

Naquele tempo, a comunicação se dava principalmente por cartas, quando era preciso que mensagens percorressem grandes distâncias. Papéis em cor creme, letras garrafais e bem desenhadas, tinta escura e selo de cera, assim eram os postais enviados.

Parece impossível que objetos assim sobrevivam a quatro séculos sem grandes prejuízos, mas aconteceu. No ano de 2015, tesouros do século 17 foram ‘redescobertos’ no Museu voor Communicatie, em Haia, na Holanda. 

Um baú, que pertencia a um antigo agente de correio, estava abandonado no museu desde o ano de 1926. Os pesquisadores da instituição descobriram que havia mais de 3 mil cartas no baú, originárias de toda a Europa. 

Baú do século 17 que estava em museu holandês / Crédito: Divulgação/Unlocking History Research Group

 

Dessas relíquias, 577 estavam totalmente lacradas. Conhecido como Coleção Brienne, o conjunto de cartas foi escrito em diversas línguas, como holandês, inglês, francês, italiano, latim e espanhol.

Em vários séculos, quando não existiam envelopes, algumas correspondências precisavam ser protegidas de olhares desnecessários, ou então tinham que ser confidenciais.

Para isso, a técnica chamada de “letterlocking” foi inventada. Consiste em manobras complexas de dobra, feitas pelo remetente, para que os relatos chegassem em segurança, e sem ser abertos.

Outros mecanismos bastante utilizados eram os rolos, fendas, orifícios e múltiplos adesivos. Claro, tudo isso junto às dificílimas dobras, de acordo com um estudo da revista Nature Communications e repercutido pela Live Science.

Técnica possibilitou abertura de carta / Crédito: Divulgação/Unlocking History Research Group

 

Redescoberta

Os pesquisadores Jana Dambrogio — conservadora do Massachusetts Institute of Technology — e Daniel Starza Smith — da Universidade de Oxford —, observaram que essas cartas eram extremamente frágeis. Tornou-se impossível abrir os escritos antigos sem que ficassem em pedaços.

Foi aí que pensaram em uma alternativa não invasiva e que mantivesse a dobra original das cartas: um método semelhante ao “raio-x”. As informações foram noticiadas pelo portal Live Science.

A alternativa foi aplicada pela primeira vez este ano. Para conseguir adentrar as camadas de papel do período renascentista sem abrir, os autores da pesquisa precisaram de um scanner utilizado normalmente para microtomografia. 

Os exemplares desse tipo foram projetados nos laboratórios de pesquisa odontológica da Queen Mary University of London (QMU), na Inglaterra.

Quando pensados, os equipamentos tinham que dar conta de mapear os minerais dos dentes, “o que é inestimável na pesquisa odontológica”, afirmou Graham Davis — co-autor do estudo das cartas — em comunicado. “Essa alta sensibilidade também tornou possível mapear certos tipos de tinta em papel e pergaminho”, disse o pesquisador.

Ainda no comunicado, o co-autor da pesquisa David Mills explicou como foi o processo: "O resto da equipe foi capaz de pegar as imagens escaneadas e transformá-las em cartas que pudessem abrir virtualmente, e serem lidas pela primeira vez em mais de 300 anos".

Carta desdobrada em tecnologia 3D / Crédito: Divulgação/Unlocking History Research Group

 

Com as imagens escaneadas, foi possível reconstruir as cartas digitalmente em tecnologia 3D. A partir disso, os pesquisadores criaram um algoritmo para decifrar então o restante das cartas, capaz de atravessar as dobras vinco por vinco.

Conteúdo

A partir do método, os cientistas puderam abrir digitalmente, até o momento, quatro cartas, e apenas uma delas foi decifrada.

Denominada “DB-1627”, a carta foi escrita em 31 de julho de 1697, por um homem chamado Jacques Sennacques. O relato estava endereçado ao seu primo Pierre Le Pers, que morava na cidade holandesa Haia. 

O remetente era um profissional jurídico em Lille, na França, e solicitava na carta a certidão de óbito oficial de seu parente, um homem chamado Daniel Le Pers. Segundo os pesquisadores, "talvez devido a uma questão de herança" que o pedido tenha sido feito. 

"Com o pedido emitido, Sennacques passa então o resto da carta pedindo notícias da família e recomendando seu primo às graças de Deus", disseram os estudiosos. "Não sabemos exatamente por que Pierre não recebeu a carta, mas, dada a itinerância dos comerciantes, é provável que ele tenha partido”, avaliaram.

Agora, será possível ler o conteúdo das inúmeras de cartas que estavam dobradas desde o século 17. "Usar o desdobramento virtual para ler uma história íntima que nunca viu a luz do dia, e nunca chegou a seu destinatário, é verdadeiramente extraordinário”, finalizaram.


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