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Desespero nacional: O confisco das poupanças na era Collor

O ex-presidente brincou em suas redes sociais e foi amplamente criticado ao lembrar do bloqueio de mais de 30% do PIB do país

Wallacy Ferrari Publicado em 16/06/2020, às 13h00

Fernando Collor de Melo durante sua cerimônia de posse
Fernando Collor de Melo durante sua cerimônia de posse - Arquivo Senado

Na tarde do último domingo, 14, o ex-presidente Fernando Collor de Mello usou a rede social Twitter para brincar, fazendo uma referência a um momento específico da história brasileira em que esteve presente. As 13h, o senador tuitou que sua esposa havia “confiscado seu telefone celular”, alegando estar tempo demais nas redes sociais.

Três horas depois, o político retornou e fez uma piada: “não foi confisco, foi um bloqueio temporário!”. A brincadeira foi mal recebida por internautas, com mais de 4,6 mil respostas na publicação, sendo a maioria delas associando a óbvia referência ao confisco nas poupanças durante o Plano Brasil Novo, popularmente conhecido como Plano Collor.

No dia seguinte, o ex-presidente se retratou, mas fez questão de esclarecer que o objetivo do comentário era mostrar que “confisco é diferente de bloqueio”, pedindo perdão para quem interpretou de maneira errônea ou se sentiu ofendido: “Sei que muitos sofreram na época e jamais brincaria com isso”.

Em sua defesa, Collor ainda respondeu diversos comentários, afirmando que seu celular não apenas foi retomado, como havia garantido “Um melhor”, devolvido com correção. Em outra resposta, o político tem interesse em conversar com um usuário que alega ter tido problemas familiares em decorrência do confisco.

O anúncio do Plano Novo Brasil, liderado pela economista Zélia Cardoso de Mello / Crédito: Fábio Marckezini

 

Apesar das tentativas para acalmar os ânimos exaltados das interações, o anúncio do dia seguinte a sua posse não foi amenizado para milhões de brasileiros, até os dias atuais.

A mesa que confundiu os brasileiros

Em 16 de março de 1990, um dia depois de Collor assumir a presidência, a ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello, estava ao vivo na cadeia nacional de teletransmissão acompanhada do então presidente do Banco Central Ibrahim Eris, do presidente do BNDES Eduardo Modiano e do secretário de Política Econômica do governo Antônio Kandis, que desenvolveu o novo plano anunciado.

Com diversos momentos de gaguejo, explicações confusas e até a orientação de Abraham para evitar o uso da palavra “confisco”, o Plano Collor causou um burburinho notável pelos microfones ainda na sala de imprensa, com diversos jornalistas políticos e econômicos visivelmente incomodados com o recolhimento de todas as poupanças do país, permitindo apenas o saque de, no máximo, 50 mil cruzados novos, cerca de R$ 8,3 mil reais.

Com a promessa de ser devolvido em doze parcelas corrigidas a partir de 16 de setembro de 1991, o Banco Central estima que o dinheiro, retido por 18 meses, foi o equivalente a 30% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, com cerca de US$ 100 bilhões. Para desesperar ainda mais a população, a medida foi anunciada em um feriado bancário de três dias, causando tumultuosas filas na primeira segunda-feira disponível para os saques, no dia 19.

Temor e terror nacional

Nos dias seguintes ao anúncio, diversas tragédias relacionadas a medida foram temas de manchetes policiais; um agricultor em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, chegou a atirar seu carro contra uma agência bancária, estilhaçando os vidros. No dia 19, um dentista em Campos, no Rio de Janeiro, cometeu suicídio com um tiro no ouvido, com sua família relatando angústia do homem ao ter suas economias — destinadas a compra de um apartamento — bloqueadas.

Manchetes de jornais e revistas estampam o bloqueio do dinheiro das poupanças no plano / Crédito: Divulgação

 

A aprovação popular, de acordo com o Instituto Datafolha, divulgada no dia 23 de março de 1991, revelou que 81% dos entrevistados acreditaram que o plano poderia ser bom ao país, porém, em 10 meses, a aprovação caiu para 23%, conforme registrado em janeiro de 1991. Zélia lançou uma segunda fase do plano, nomeada de Collor II, sem conseguir recuperar as metas anteriores. Em maio, a economista acabou sendo substituída por Marcílio Marques de Moreira.

Em entrevista a BBC, Zélia foi perguntada se faria algo diferente, mas respondeu que, “com as informações que tinha naquele momento”, não poderia mudar nada: “Trinta anos depois, provavelmente, não teria tomado algumas medidas e teria tomado outras”.

Já o ex-presidente se desculpou, também por suas redes sociais, em maio de 2020: “Acreditei que aquelas medidas radicais eram o caminho certo. Infelizmente errei. Gostaria de pedir perdão a todas aquelas pessoas que foram prejudicadas pelo bloqueio dos ativos”.


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