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A destituição do ditador Idi Amin, de Uganda, completa 40 anos. Relembre sua sanguinária trajetória no poder

Em 11 de abril de 1979, as forças militares da Tanzânia chegam à capital e derrubam o temido ditador ugandense

André Nogueira Publicado em 11/04/2019, às 14h00

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Acervo AH

Há 40 anos, o famoso déspota ugandense Idi Amin era derrubado do poder, o que o obrigou a fugir do país. Essa reviravolta política deu fim a uma ditadura de oito anos criada e chefiada por Amin, quando o mesmo deu um golpe militar e assumiu a presidência do pequeno país africano.

Amin era um importante veterano do mundo militar. Aos 26 anos, ele entrou no King’s African Rifles, importante braço armado criado pelo governo britânico que tinha como principal missão o fortalecimento do lado europeu durante as guerras de ocupação colonial. Apoiando os colonizadores (e adquirindo vantagens com isso), Amin participou de importantes batalhas no Quênia e na Somália. Sua capacidade física e estratégica o levou a ser, nos anos 1950, um grande campeão de boxe. Depois, passou a integrar o exército de Uganda -- e lá faz carreira, chegando à posição de Comandante. Em 1971, Amin capitaneia um golpe de Estado contra Milton Obote, então presidente de Uganda.

Idi Amin e o povo de Uganda após o golpe de 1971 (Reprodução)

O golpe de Amin dá início a uma sangrenta ditadura, porém ideologicamente confusa e inconstante. Inicialmente, seu governo era marcado pelo determinado anticomunismo e uma aproximação pouco usual com Israel. Em menos de quatro anos, o quadro geopolítico, do ponto de vista de Uganda, muda completamente: a perseguição aos comunistas deixa de ser destacada, fazendo parte somente da perseguição geral realizada pelo governo à oposição, e seu regime começa a ser apoiado por URSS, Alemanha Oriental e Líbia, principalmente ligada à sua proximidade pessoal com Muammar al-Gaddafi.

Ao mesmo tempo, alguns aspectos de seu governo se tornam permanentes: a ditadura era extremamente repressiva e violenta, marcada pela perseguição política, assassinatos em série, violação de direitos humanos básicos, nepotismo, corrupção, acirramento das desigualdades e perseguições étnicas segregacionistas, além da má gestão da economia, conduzida durante esses 8 anos.

Amin, durante seu período no governo, acumulou diversos inimigos. Sua oposição política era tratada com ferro e fogo. Logo nos primeiros anos de regime, decretou a expulsão de mais de 60 mil imigrantes e descendentes de asiáticos que viviam do comércio no país, criando uma rixa com diversos países que se viam ameaçados pelo projeto de unidade étnica do ditador. Criou vários atritos com países na Europa por suas relações diplomáticas irresponsáveis e debochadas. Chegou num ponto em que Amin enviou para o Secretário-Geral da ONU um pronunciamento em que celebrava a iniciativa de Hitler em exterminar os judeus.

A violência de Estado mantida por ele criou sua fama de déspota sanguinário, a ponto de várias histórias serem tão absurdas que ainda não se sabe até que ponto os relatos são verdadeiros ou boatos exagerados: que ele colecionava cabeças decepadas, que alimentava jacarés de estimação com cadáveres, que assistia rindo à sessões de esfaqueamento onde o prisioneiro morria por falta de sangue ou mesmo que praticava o canibalismo. Nenhuma dessas histórias é impossível.

Amin também mandou executar um importante bispo de Kampala e dois de seus ministros, criando então rixas até com o interior de seu governo. Em 1977, muitos membros de seu regime fogem e buscam exílio. Mas o ápice do caos de se seu governo chega em novembro de 1978. Seu vice-presidente Mustafa Adrisi sofre um acidente de carro bastante suspeito e quase morre. Isso gera uma grande revolta, acompanhada de motins, por membros das Forças Armadas do país, em que muitos desertam e fogem para a Tanzânia. Amin, então, acusa Julius Nyerere, presidente do país vizinho, de conspiração contra seu governo e declara guerra ao novo inimigo, dando início à Guerra Uganda-Tanzânia. Uganda então inicia uma ocupação da Tanzânia e anexa um pedaço do país vizinho.

O contra-ataque tanzaniano ganha força em janeiro de 1979, quando se somam o exército da Tanzânia, a Frente de Libertação Nacional de Uganda (UNLA) e diversos apoios internacionais. Na época, Amin só tinha apoio de Gaddafi. Em 11 de abril de 1979, o contra-ataque de Nyerere chega a Kampala e toma a cidade, capital do país. O ditador é derrubado e foge do país, pedindo exílio na Líbia no mesmo dia. A reação do povo de Uganda é de grande celebração e agradecimento a Nyerere.

Gaddafi aceita acolher o ditador ugandense, mas o expulsa do país no ano seguinte. Amin, então, foge para a Arábia Saudita (principalmente por ser islâmico) e vive por lá até 2003, ano de sua morte.