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Diário de vítima do holocausto ganha vida no Instagram

A conta "Eva Stories", que mostra o Holocausto ao vivo e à cores, é alvo de opiniões diversas

Joseane Pereira Publicado em 03/05/2019, às 10h37

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Eva Heyman fictícia e real / Créditos:Reprodução

"E se uma garota no Holocausto tivesse um Instagram?" É com essa frase que se inicia o vídeo oficial do perfil de Eva Stories, que homenageia a memória de uma garota de 13 anos assassinada no campo de concentração nazista de Auschwitz, em 1944.

O perfil da plataforma online se baseia no diário que Eva Heyman escreveu em seus últimos dias, relatando pensamentos e temores e denunciando as atrocidades que vivenciou. Suas frases agora ganharam vida no universo digital, onde são reproduzidas pela filha de um bilionário israelense que decidiu proporcionar aos usuários da plataforma reflexões sobre o horror do Holocausto.

Segundo os criadores do projeto, Mati Kochavi e sua filha Maya, o objetivo é aumentar a conscientização sobre o ocorrido em uma era onde a atenção é pouca e o vício em novos formatos de mídias é constante. E tem funcionado: 24 horas após seu lançamento, no Dia da Recordação do Holocausto em Israel, o perfil já contava com cerca de um milhão de seguidores.

Membros do projeto / Créditos: instagram eva.stories

 

Oi! Meu nome é Eva

No vídeo promocional da conta, Eva veste roupas da década de 1940 e apresenta sua família, as melhores amigas e até seu "crush". Mas esses momentos de alegria logo são substituídos por cenas onde o exército nazista marcha pelas ruas da cidade. 

"Sou eu, são 1944, os nazistas conquistaram a maior parte da Europa, fazem coisas terríveis para nós judeus, mas ainda não nos conquistaram", diz ela em outro trecho curto.

Em stories diários, a garota registra ela mesma e outros judeus sendo hostilizados. Suas roupas coloridas foram substituídas pelo pijama azul com uma estrela amarela. Eva, que é interpretada por uma atriz britânica e fala em inglês com legendas em hebraico, “filma” os nazistas malvados e declara seu ódio por Adolf Hitler, dizendo que ela não entende por que tantas pessoas “o seguem”.

Em sua história real, parcialmente documentada no diário, a personagem foi deportada cerca de quatro meses após o seu aniversário de 13 anos. Seus escritos se encerram em 30 de maio de 1944, e a garota é morta em Auschwitz no dia 17 de outubro de 1944. Sua mãe, Agnes Zsolt, sobreviveu e descobriu posteriormente o diário.

De mau gosto?

Em Israel, alguns criticaram o tratamento a um assunto tão delicado. Segundo o músico e professor israelense Yuval Mendelson o projeto é "bruto e de mau gosto". Embora tenha sido difícil mobilizar os jovens para essas questões, escreveu ele, “uma conta fictícia no Instagram de uma garota assassinada no Holocausto não é e não pode ser um caminho legítimo”. Para muitos, os filmes curtos e coloridos têm falhado em mostrar os verdadeiros horrores deste período histórico, quando 6 milhões de judeus, incluindo 1,5 milhão de crianças, foram brutalmente assassinados.

Divulgação em outdoor / Créditos: Reprodução

 

Filho de sobreviventes do Holocausto, Kochavi disse em um comunicado que "o Instagram é uma plataforma para contar histórias e, como qualquer plataforma de mídia e conteúdo, pode contar histórias superficiais e histórias profundas".

“Na era digital, quando a atenção é baixa, mas os momentos de emoção são altos, e dado o número cada vez menor de sobreviventes, é imperativo encontrar novos modelos de testemunho e memória”, disse ele. “A ideia é usar as mídias sociais para criar um novo gênero de memória, e esperamos, dessa maneira, aproximar os espectadores da vida de Eva e das profundezas de sua alma.”

O projeto multimilionário foi altamente divulgado on-line e em outdoors gigantes em Israel. E foi endossado positivamente por pessoas como o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que comentou em sua conta do Twitter que as pessoas deveriam segui-lo.

Na quinta-feira (2), o projeto Eva Stories parecia ter alcançado seus objetivos: não apenas se tornara viral (mais de 100 milhões de pessoas já haviam visto a conta, segundo os organizadores), mas também estava provocando conversas entre os jovens israelenses que se reuniam para as cerimônias anuais de recordação do Holocausto em suas escolas. Aprendizados e reflexões necessárias sobre um passado cruel - que está sendo recordado da forma mais jovem possível.