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Dias Antropológicos: As Olimpíadas do Racismo

Num evento paralelo às Olimpíadas de 1904, competiram povos considerados primitivos. Foi um show do pensamento colonialista

Willy Delvalle e Joseane Pereira Publicado em 03/07/2019, às 07h00 - Atualizado às 07h02

Missouri Historical Society
Arremesso de dardos durante os Dias Antropológicos

Os Dias Antropológicos foram jogos realizados cerca de duas semanas antes dos Jogos Olímpicos de 1904, em Saint-Louis, nos Estados Unidos. A proposta era que povos considerados primitivos pelo Ocidente, a exemplo de zulus, pigmeus africanos e alguns indígenas, disputassem as competições.

No primeiro dia, eles seguiriam o programa olímpico de esportes. No segundo, deveriam mostrar o que sabiam fazer, como subir rapidamente numa árvore. Como eles obviamente não tinham experiência nas modalidades olímpicas, os desempenhos foram desastrosos.

Especialidades eram consideradas primitivismo /
Crédito: Wikimedia Commons

Segundo Fabrice Delsahut, mestre de conferência em ciências e técnicas de atividades esportivas da Universidade de Sorbonne, as disputas foram preparadas para americanos xenófobos, que, ao assistir às competições, reagiam com gargalhadas. "As capacidades físicas", como explica Delsahut, "dos povos colonizados eram estudadas por cientistas, que assim mostrariam a presunçosa superioridade dos brancos colonizadores". 

Subir em poste era outra prova da competição /
Crédito: Wikimedia Commons

O evento fazia parte da III Feira de Exposição Universal de Saint-Louis e celebrava a compra do território francês da Louisiana pelos Estados Unidos, em 1803. Fabrice Delsahut explica que os organizadores queriam ensinar o que seria o Cidadão Ideal, defendendo a importância da expansão colonial, em marcha nos Estados Unidos ao longo do século 19

A capacidade física dos povos era analisada por estudiosos /
Crédito: Wikimedia Commons

Os Dias Antropológicos, com toda a pompa de um acontecimento mundial, são uma das provas mais recentes da mentalidade branca com relação a outras etnias. Marcada na História, essa celebração da intolerância e brutalidade ocidental mostra que a tentativa de adequar uma cultura aos padrões de outra, feita de maneira forçosa e com objetivos cruéis, nunca funciona.