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Dias de solidão: quando surgiu o isolamento social?

O isolamento surgiu como medida para conter o vírus depois de inúmeras tentativas que não deram resultado

Alexandre Carvalho Publicado em 11/07/2020, às 08h00

Representação da Peste Negra
Representação da Peste Negra - Wikimedia Commons

"Ordena aos filhos de Israel que lancem para fora do arraial a todo leproso (...) para que não contaminem o seu arraial.” Palavra do Senhor. Pelo menos é o que diz a Bíblia. No livro Números, capítulo 5, afastar leprosos do convívio da comunidade para evitar contágio é uma das ordens de Deus ao patriarca Moisés.

E não fica só nesse trecho. O isolamento social dos que sofriam com a hanseníase é previsto também em Levíticos (13:46), outro livro do Velho Testamento: “Todos os dias em que a praga houver nele, será imundo; imundo está; habitará só; a sua habitação será fora do arraial”.

Até o ponto em que se tem registro, a hanseníase (antes conhecida como lepra) foi a primeira doença da história para a qual se impôs um distanciamento dos infectados. E ela assustava: incurável na época (hoje tem cura razoavelmente fácil), é uma enfermidade que, nos casos mais graves, deixa suas vítimas desfiguradas. Mas não se sabia naquele passado remoto que o isolamento era um exagero: a doença não tem alta capacidade de contágio.

Essa ignorância, associada ao medo, esteve por trás da onda de leprosários na Idade Média, administrados pela Igreja Católica – onde os pacientes ficavam até a morte, não só 40 dias. O conceito moderno que temos de quarentena também é medieval. E surgiu em decorrência de uma das mais devastadoras pandemias que a história conheceu: a Peste Negra, que pode ter matado até 200 milhões de pessoas.

Com origem provável na Ásia, de onde viajou para a Europa através da Rota da Seda, a doença era provocada pela bactéria Yersinia pestis, alojada confortavelmente nos intestinos das pulgas dos ratos – os bichos escrotos que infestavam navios mercantes genoveses, circulando por toda a bacia do Mediterrâneo. Se hoje parece improvável que populações urbanas sejam infectadas pelo contato com ratazanas, não se pode dizer o mesmo do século 14, quando a peste – também conhecida como Morte Negra – chegou ao seu auge.

Higiene só viraria moda cinco séculos depois, no 19, de modo que as cidades medievais eram uma salada de lixo espalhado e fezes humanas em plena via pública – o que para os roedores era um banquete. Quem conseguia evitar os ratos (que transmitiam a versão bubônica da peste, afetando gânglios) não escapava da tosse de familiares e outras pessoas próximas (capaz de transmitir a forma pneumônica da doença, ainda mais letal).

O surto foi tão descontrolado que, estima-se, a peste tirou a vida de um em cada três europeus da época. Natural, então, que as autoridades começassem a imaginar maneiras de reduzir a disseminação. Mas a quarentena, infelizmente, não foi a primeira ideia.

Do que adiantaria um isolamento social se a peste fosse provocada, como a maioria dos europeus tendia a crer, por um castigo de Deus diante dos pecados da humanidade? Num período da história em que todas as questões acabavam associadas ao sagrado, essa era a noção predominante. E aí ferrou: não dá para se esconder de uma força metafísica onipresente.

Mas talvez desse para negociar com ela. Irmandades de cristãos fanáticos acreditavam que a peste podia ser contida pela autoflagelação. Se o crente tomava a iniciativa de se punir pelos pecados, Deus talvez não se desse o trabalho de lhe transmitir uma doença mortal. Esses religiosos atravessavam as cidades em grupos, ferindo a própria carne com chicotes e lâminas – e assim continuavam caindo como moscas pela peste e ainda se tornavam vulneráveis a outros tipos de infecções.

A ciência da época também não tinha explicações mais práticas e específicas. Doutores do Colégio de Sorbonne, na França, concluíram que o mal daquele século era uma consequência nefasta do alinhamento dos astros – um pensamento parecido com o da astróloga Bárbara Abramo, que, referindo-se à atual crise do coronavírus declarou à Universa, plataforma do UOL voltada para o público feminino: “tenho observado que as disseminações de vírus se dão quando Mercúrio e Netuno formam aspectos fortes, como vem ocorrendo”.

A matéria, publicada quase 700 anos após as teorias medievais, diz que o “céu agora é igual ao da época da peste bubônica”. Outros estudiosos da Idade Média julgavam que miasmas (ar envenenado) fossem o instrumento de contágio. Essa perspectiva foi a origem da máscara de “médico da peste”, que se tornaria tradicional no Carnaval de Veneza.

O adereço era um tipo de EPI da época (equipamento de proteção individual). Tinha um longo bico de pássaro, onde os profissionais da linha de frente enfiavam um composto com mais de 50 ervas aromáticas. A ideia era que esse filtro absorvesse os miasmas antes que atingissem narinas e pulmões. Não dava certo, mas o visual era estiloso.
Conforme meses e anos foram passando, e o número de mortes só aumentava, as autoridades constataram que máscaras, mapa astral, orações e sadomasoquismo não eram boas soluções.

E não havia medicina que desse conta da transmissão da doença – ou servisse de tratamento. A experiência, então, levou a uma conclusão derivada do conhecimento empírico: pessoas doentes infectavam pessoas próximas. A resposta óbvia a essa evidência era afastar umas das outras.


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