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O povo do êxodo: Judeus estão espalhados por 100 países

No dia do aniversário da expulsão dos judeus de Portugal, em 1496, descubra por onde eles andaram nos últimos 2.000 anos

segunda 3 dezembro, 2018
Foto:Getty Images

Aos 46 anos, com um quipá e um sorriso nos olhos, Zebulon Simentov é o responsável pela sinagoga de Cabul, no Afeganistão. Mas ninguém frequenta o edifício nas noites de sexta-feira, quando os judeus celebram o shabat (dia do descanso). É que Simentov é o único judeu naquele país. Pelo menos o único de que se tem notícia desde que morreu o colega Ishaq Levin, antigo zelador da sinagoga. Os outros 5 mil membros da comunidade deixaram o Afeganistão desde que o Talibã tomou o poder. Simentov diz que foi torturado, mas não arreda o pé da sinagoga.

Essa é apenas uma entre tantas histórias vividas pelos judeus nos rincões do planeta. Eles somam apenas 14 milhões de pessoas, ou 0,2% da população mundial. Mas estão espalhados pelos quatro cantos do globo. Da Austrália ao Canadá, de Hong Kong ao Zimbábue, as comunidades judaicas vêm mantendo sua tradição ao longo de 2 mil anos de Diáspora.

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Primórdios

A primeira dispersão dos judeus ocorreu no século 6 a.C., quando Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu o reino de Judá e levou seus habitantes ao exílio. A ascensão do imperador persa Ciro permitiu a volta dos judeus, mas por pouco tempo. No ano 70 d.C., os romanos conquistaram Jerusalém, destruíram o Templo e empurraram os judeus para uma nova e mais ampla dispersão pelo mundo, que atingiu a Ásia, a África e a Europa.

A perda do Estado significou o início de perseguições. Os conquistadores romanos não toleravam costumes judaicos, como o shabat e o culto a um Deus único. A situação piorou com a conversão do imperador Constantino ao cristianismo. “Esquecendo-se de que Jesus foi judeu e nunca abriu mão disso, os partidários da Igreja iriam, em nome de Jesus, cobrir os judeus de acusações”, afirma o historiador francês Gerald Messadié no livro História Geral do Anti-Semitismo.

Em 325, o Concílio de Nicéia culpou-os pela morte de Jesus, o que serviu de base para o mito medieval de que os judeus tinham chifres e poderes sobrenaturais, faziam rituais com sangue de crianças e provocavam a Peste Negra. Os judeus também foram proibidos de exercer funções públicas, ter empregados e se casar com não-judeus. A Inglaterra expulsou os judeus em 1290. A França, em 1306. E a Espanha, em 1492.

Em Portugal, os judeus foram convertidos em 1497 e, depois, perseguidos como cristãos-novos pela Santa Inquisição. “Eles tinham três opções: tentar imigrar para as terras do Império Otomano ou outro lugar onde pudessem se assumir como judeus – e muitos fizeram isso, tornando Constantinopla (futura Istambul) a cidade mais judaica da Europa; aceitar a doutrina cristã e ensiná-la a seus filhos; ou praticar o judaísmo dentro de casa e o cristianismo fora”, diz o escritor americano Richard Zimler, professor na Universidade do Porto e autor do livro O Último Cabalista de Lisboa. Os que seguiam a terceira opção, os judeus secretos, não tinham acesso à Torá nem aos livros de rezas, que haviam sido confiscados pelo rei Dom Manuel. “As tradições passaram a ser mantidas pelas mulheres, sobretudo a do shabat, e continuaram assim por quase 500 anos”, diz Zimler.

Identidade judaica

Embora difícil definir, a identidade judaica em geral foi construída como um triângulo cujos vértices são: um povo, uma religião e uma terra – Israel. Por mais longe que estivessem os judeus, eles sempre mantiveram uma profunda ligação com a terra de origem de seus antepassados. Hashaná habaá be Ierushalaim ("no ano que vem, em Jerusalém"), eles sempre repetiram. As comunidades do norte da África, da Península Ibérica e do Oriente Médio ficaram conhecidas como sefaradi e as do Leste Europeu, como ashkenazi. Em países como Rússia, Polônia e Lituânia, eles viviam em vilarejos chamados shtetl – onde despistavam o semi-confinamento com boas doses de humor e violino. Suas histórias foram eternizadas nos livros de Isaac Bashevis Singer e nas pinturas de Marc Chagall.

Apesar dessa identidade comum, cada comunidade desenvolveu culinárias, linguagens, músicas e arquiteturas próprias, influenciadas pelos costumes locais. Os judeus tunisianos, por exemplo, agregaram cores à vestimenta e um novo evento ao calendário: uma visita anual à ilha de Djerba durante a festa judaica de Lag Baomer. Já os da Europa Oriental desenvolveram o iídiche, um idioma germânico escrito com caracteres hebraicos, e o costume de tomar borscht, uma deliciosa sopa de beterraba.

Quando os ventos da Revolução Francesa sopraram pela Europa, os judeus conquistaram direitos fundamentais e puderam se integrar aos países onde viviam. “Desde o início, a contribuição de judeus emancipados para suas sociedades foi desproporcional”, diz o historiador inglês Eric Hobsbawm no artigo Benefits of Diaspora ("Benefícios da Diáspora"). Figuras como Einstein, Freud e Marx mudaram a forma de pensar do Ocidente. Mas se por um lado o século 19 trouxe emancipação aos judeus, também instigou sentimentos nacionalistas.

Os novos Estados-Nação rejeitaram os judeus por não participarem da cultura majoritária e, portanto, da identidade nacional. Como dizia a pensadora alemã Hannah Arendt, os judeus eram considerados muito cosmopolitas para ser cidadãos leais. Einstein nunca escondeu a discriminação que os judeus sofriam na Alemanha – justamente eles, que queriam ser alemães antes de tudo. “O músico Gustav Mahler se sentia três vezes apátrida: como boêmio (natural da Boêmia) na Áustria, como austríaco entre os alemães e como judeu em todo o mundo”, diz o filósofo alemão Dietrich Schwanitz.

Caldeirão israelense

Para solucionar o problema do anti-semitismo, só mesmo com a (re)criação de um Estado para a nação judaica. Com esse pensamento, os judeus da Europa Oriental organizaram-se no final do século 19 em torno do sionismo, um movimento que pregava a autodeterminação do povo. Seu nome vem de Sion, um monte nos arredores de Jerusalém que simboliza a cidade. Os milhares de pessoas que fizeram a aliá (ascensão) para Israel criaram uma das sociedades mais diversificadas do mundo, com cidadãos originários de 140 países – grande parte deles fugitivos do nazismo e refugiados dos países árabes.

Hoje, Israel é um caldeirão étnico-cultural de 7 milhões de pessoas, das quais 76% são judeus e 20% são árabes cristãos, árabes muçulmanos e drusos (uma minoria religiosa que habita a região), além de outras minorias. Entre os habitantes, 1 milhão nasceram na ex-URSS, 160 mil no Marrocos, 110 mil na Romênia e 64 mil na Polônia. O país tem duas línguas oficiais, hebraico e árabe, e um sistema político que inclui desde partidos ultra-ortodoxos até os de extrema esquerda. Hoje, já se discute a função do sionismo e a relação entre Israel e a Diáspora.

Especialistas nessa área, como o israelense Yossi Gold-stein, dizem que o modelo centro-periferia anda obsoleto, embora Israel ainda ocupe um papel fundamental para o judaísmo. Não apenas porque os judeus da Diáspora continuam ligados sentimentalmente ao país, mas também porque, em 2006, Israel desbancou os Estados Unidos do posto de maior comunidade judaica do mundo, com 5,3 milhões de pessoas. Atualmente, 6,5 milihões de judeus vivem em território israelense. Juntos, Israel e Estados Unidos respondem por 83% da população judaica total, com os 17% restantes espalhado por 98 diferentes países.

Muitas realidades

A criação de Israel significou um porto seguro para os judeus da Diáspora, que continuaram a sofrer perseguições mesmo depois da Segunda Guerra Mundial. Na URSS, por exemplo, o número de estudantes judeus despencou de 112 mil em 1968 para 67 mil em 1975. Três anos depois, nem um só judeu foi aceito na Universidade de Moscou. Com o colapso do comunismo, eles ganharam mais liberdade religiosa em algumas ex-repúblicas soviéticas.

“Em 2004, foi aberta em Astana (nova capital do Cazaquistão) a maior sinagoga da Ásia Central”, diz Irena Vladimirsky, do Departamento de História do Achva College of Education, em Israel. Por outro lado, sinagogas e escolas judaicas viraram alvo de atentados. “A comunidade do Tadjiquistão foi quase toda evacuada pela Agência Judaica”, diz Irena.

A situação não tem sido melhor nos países árabes. O Egito, que chegou a ter 65 mil judeus em 1937, hoje tem apenas 18. Existiam 30 mil judeus na Líbia décadas atrás; hoje, não há nenhum. Os 10 mil judeus do Irã recordam o rico passado da comunidade no país, quando ainda imperava a cultura persa. Desde a revolução islâmica, eles vivem com relativa liberdade religiosa, mas sob suspeita. O mero contato com os Estados Unidos ou Israel é um crime passível de morte.

A Austrália foi o destino da Diáspora que recebeu mais sobreviventes do Holocausto, depois dos Estados Unidos. “Eles encontraram aqui um ótimo lugar para se restabelecer”, diz a educadora australiana Rita Nash, que emigrou com a família da Polônia. Como ela, também chegaram milhares de judeus húngaros, soviéticos e sul-africanos, formando uma comunidade de mais de 100 mil integrantes. “Sem importar o grau de religiosidade ou a atitude sobre Israel, eles tendem a ser um grupo muito coeso em torno do judaísmo. Estão cada vez mais dispostos a se identificar como judeus nos censos, ao passo que os sobreviventes do Holocausto relutavam muito”, diz Rita.

Na América Latina, algumas comunidades encolheram por fatores econômicos ou políticos. A da Argentina, que chegou a ter 250 mil integrantes, hoje tem 180 mil. Na Venezuela, nos últimos anos, a maioria embarcou para Miami sem passagem de volta. Já em países como o Brasil, as comunidades estão totalmente integradas, mas vêm diminuindo lentamente por causa da assimilação. Ainda assim, vivem no país pouco mais de 100 mil judeus.

Antigos centros judaicos, Porto e Lisboa, somam hoje cerca de 700 judeus – fruto da marca deixada pela Santa Inquisição. Mas há uma pequena comunidade florescendo na cidade portuguesa de Belmonte, que já conta com uma sinagoga. “Eles estão produzindo um vinho kosher pela primeira vez em 500 anos”, diz o escritor Richard Zimler.

Basta dar uma volta por uma cidade como Nova York para perceber que os judeus se tornaram parte integrante e harmoniosa da cultura americana. E são justamente comunidades grandes como a dos Estados Unidos que expõem com mais clareza as mudanças na identidade judaica. “Hoje, judeus não-ortodoxos tendem a pensar em judaísmo como uma escolha”, diz o rabino americano Jacob Staub, professor de espiritualidade e filosofia judaicas no Reconstructionist Rabbinical College.

“A simples identificação étnica, que caracterizou a segunda geração dos judeus ashkenazi em meados do século 20, já não é tão forte o bastante – especialmente levando-se em conta os 40% de casamentos mistos, que incorporam grande número de judeus trazendo outras bagagens étnico-culturais.” Para fazer essa escolha, os jovens querem atividades judaicas que sejam de alta qualidade, significativas e dinâmicas – por exemplo, os chamados tikun olam (trabalhos pela paz e a justiça social).

De volta à Alemanha

A comunidade judaica da Alemanha parecia condenada à extinção depois do Holocausto. Entre 1945 e 1952, 220 mil judeus imigraram para Israel e outros milhares zarparam em direção a países como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Austrália. Os que ficaram se diziam judeus na Alemanha, não judeus alemães. Em 1989, restavam apenas 26 mil e previa-se que seriam metade em 2003. Hoje, porém, há 118 mil judeus no país, de acordo com o The Jewish People Policy Planning Institute.

A explicação para esse fenômeno está na decisão do governo da Alemanha reunificada de absorver judeus da ex-União Soviética. Eles receberam um status especial entre os refugiados, o que lhes garantiu subsídios para casa, cursos de alemão, saúde e trabalho. Foram assentados em todo o território, dependendo da capacidade de cada estado alemão. Com isso, 190 mil pessoas da região aportaram lá entre 1989 e 2004 – ano em que a Alemanha se tornou o principal destino dos judeus no mundo. “Agora, são israelenses que vão para Alemanha, e não os alemães a Israel”, diziam os recém-chegados, que presenciaram o renascimento de museus e institutos culturais judaicos.

Mas esse enorme fluxo de imigrantes durou pouco. Parte deles não se adaptou à comunidade; outros não foram aceitos por congregações ortodoxas. Muitas pessoas também se passavam por judeus para entrar no país, que sofria com uma das mais altas taxas de desemprego da Europa. Em 2005, o governo limitou a entrada de imigrantes e retirou benefícios especiais aos judeus, fazendo com que a imigração caísse drasticamente no ano passado.

Eduardo Szklarz


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