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Diretora da série documental ‘Elize Matsunaga: Era uma vez um crime’ fala sobre bastidores da produção

Eliza Capai traçou, ainda, um paralelo com a repercussão de crimes cometidos por homens e mulheres

Victória Gearini | @victoriagearini Publicado em 17/07/2021, às 09h00

Elize Matsunaga em série documental
Elize Matsunaga em série documental - Divulgação / Netflix

Na quinta-feira, 8, de julho estreou na Netflix a minissérie documentalElize Matsunaga: Era uma vez um crime’. A produção nacional foi dividida em quatro episódios que retratam os bastidores do crime que escandalizou o Brasil em 2012.

Na época, a técnica de enfermagemElize Matsunagaatirou contra o então marido Marcos Matsunagae, em seguida, o esquartejou para esconder as provas do crime. Em 2016, a assassina foi condenada a 19 anos e 11 meses de prisão. Atualmente, ela cumpre pena na Penitenciária do Tremembé, em São Paulo. 

Dada a repercussão do crime, a Netflix produziu a minissérie documental, que com pouco mais de uma semana de lançamento, encontra-se no Top 10 do serviço de streaming. Com direção de Eliza Capai, a produção nacional busca apresentar os dois lados da história. Isto é, tanto os argumentos da acusação quanto da defesa. 

Curiosidades da produção geral

Conforme a assessoria de imprensa da Netflix, ElizeMatsunaga gravou durante 21 horas para a produção da minissérie. O material bruto contou com 4.500 horas que foram divididas em quatro episódios de 50 minutos cada. 

Elize Matsunaga na série documental ‘Elize Matsunaga: Era uma vez um crime’ / Crédito: Divulgação / Netflix

 

Durante dois anos da produção documental, a equipe entrevistou mais de 20 pessoas, entre elas familiares, conhecidos, advogados, jornalistas e especialistas criminais. A ideia partiu da jornalista investigativa Thaís Nunes, que apresentou o projeto para a Boutique Filmes. 

A produção envolveu, ainda, o profissionalismo de muitas mulheres, que estão à frente da série na direção, no roteiro e direção de imagem. Entre elas, está Eliza Capai, diretora da minissérie. “A cronologia do feminino é muito mais circular. Nossa fala é muito mais progesterônica do que testosterônica", disse ela.

A abordagem 

Segundo a diretora da produção, séries baseadas em crimes reais possuem uma estética muito mais voltada para o olhar masculino.

As próprias estatísticas mostram que os homens cometem muito mais crimes do que as mulheres. E o modo de contar essas histórias também é o da arma, do sangue, do bruto, do masculino como estética”, comentou Eliza Capai.

Ainda de acordo com ela, um dos motivos que levou o caso ser ainda mais conhecido foi o fato de Elize Matsunaga já ter sido garota de programa no passado. Por outro lado, a diretora percebeu que houve um rebaixamento da história pelos mesmos motivos.

Elize Matsunaga em entrevista / Crédito: Divulgação / Netflix

 

É uma história que também fica famosa porque ela era uma garota de programa, porque a forma como esse casal se conheceu foi através do sexo. A partir desse lugar que é rebaixado por um lado, mas que é tão poderoso, que é do prazer à venda, do aluguel do corpo, da prostituição”, complementou. 

Responsabilidade moral 

Para produzir a minissérie documental, a especialista disse que teve que conhecer o caso a fundo. Pesquisar sobre o crime e a repercussão dele na época. A partir disso, a equipe fez o primeiro contato com a criminosa, que diferente do que se possa imaginar, mostrou estar aberta para apresentar a sua versão da história. 

O primeiro contato com a Elize foi muito rico porque ela se abriu de uma forma muito forte. Se permitiu ser gravada tomando banho. Foi como uma metáfora de desnudar-se para a câmera. E a Janice [D’Ávila, diretora de fotografia] conseguiu gravar essas cenas expositivas de forma respeitosa, para ir contra a estereotipização da garota de programa. Antes disso havíamos ido ao presídio conversar com ela, nos apresentarmos e vermos a melhor forma de gravarmos. Esse primeiro contato foi muito importante”, disse a diretora. 

Por outro lado, um dos maiores desafios do projeto foi a responsabilidade moral com a sociedade e envolvidos no caso. 

Elize durante as gravações / Crédito: Divulgação / Netflix

 

Senti uma responsabilidade moral muito grande em dirigir essa série. Não só pela família do Marcos, pelas filhas dele, os pais, irmão e amigos que sofreram com essa tragédia, mas também pela família da Elize — a tia, a avó, pessoas que não sabiam de nada daquilo, mas que também sofrem as consequências até hoje. Apesar de tudo, elas amam essa pessoa que cometeu uma barbaridade”, argumentou Eliza Capai.

O ciclo 

Para a responsável pela direção da trama documental, a detenta encontrará um mundo diferente daquele de quando ela foi presa. Isso significa, que desde 2012 muitas coisas mudaram na sociedade.

Acho interessante que ela vai sair numa sociedade transformada. Enquanto ela estava presa, a gente teve um boom sobre debate sobre violência contra a mulher, aprovação da lei do feminicídio. Então há um debate maior sobre quão nocivas são as relações abusivas. E por outro lado a gente tem uma loucura no que concerne ao porte de armas. Por um lado, uma sociedade escandalizada com essa liberação e por outro uma sociedade que comemora o crescente afrouxamento da posse de armas”, disse ela. 

Ao longo de sua carreira, Eliza Capai já trabalhou em uma oficina de audiovisual com detentos acusados de crimes contra as mulheres. Quando questionada sobre a sua visão destes casos ela disse:   

Um paralelo entre a história da Elize e dos detentos dessa oficina é que todos eles, ainda muito jovens, foram vítimas de violência de quem deveria ser o representante do cuidado e do amor. Eles transformam proteção e violência em sinônimos. E separar essas duas coisas por conta própria é muito raro. Se você ama aquela pessoa que te magoa, que te diminui a vida toda, e aquilo está relacionando com afeto, é possível que você reproduza essa violência, seja como algoz ou como vítima”. 

Para ela, é dever de toda a sociedade romper com esse ciclo de violência, uma vez que homens e mulheres são reféns deste sistema. No entanto, ela argumentou que as prisões brasileiras não estão prontas para ajudar na ressocialização desses indivíduos.   

Porque assim como os pais e padrastos violentaram, esse novo tutor que deveria reeducá-los para que eles não sejam mais pessoas que destroem o equilíbrio da sociedade é novamente violento. Seja por violência de vizinhos de cela ou por agentes do estado. Usar as mesmas roupas, o mesmo corte de cabelo, acaba não te ajudando a se repensar como indivíduo. A gente tem um desafio como sociedade muito grande. E, infelizmente, neste momento, nosso país caminha na direção contrária de se tornar uma sociedade mais segura”, concluiu Eliza Capai.

+Assista ao trailer de ‘Elize Matsunaga: Era uma vez um crime’:


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