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No Dia do Soldado, conheça Maria Quitéria, a mulher que se disfarçou entre combatentes

Entenda como a baiana se tornou um dos nomes mais importantes da história da Independência da Bahia

Texto Raphaela de Campos Mello, com adaptações de Wallacy Ferrari Publicado em 27/02/2021, às 08h00 - Atualizado em 25/08/2021, às 10h56

Maria Quitéria, primeira mulher no Exército brasileiro
Maria Quitéria, primeira mulher no Exército brasileiro - Wikimedia Commons

“É verdade, que não tendes filho, meu pai. Mas lembrai-vos que manejo as armas e que a caça não é mais nobre que a defesa da pátria. O coração me abrasa. Deixai-me ir disfarçada para tão justa guerra”, com essas palavras, Maria Quitéria de Jesus implorou ao pai para que pudesse se tornar uma combatente durante os conflitos pela independência da Bahia contra os lusitanos.

Mesmo com a recusa, ela entrou para a história do país ao se disfarçar entre os homens do primeiro batalhão militar do que seria o Exército Brasileiro, se tornando a 'soldado Medeiros' e, posteriormente, recebendo honrarias como a primeira mulher a trajar uma farda militar.

Com isso, a revista Aventuras na História separou cronologicamente os episódios que marcaram a história da patrona das Forças Armadas.

1. Pedido ao pai

Filha de pequenos agricultores, ela nasceu em Arraial de São José das Itapororocas, atual município de Feira de Santana, e tentou convencer seu pai a deixá-la se alistar como combatente na luta contra os militares portugueses aos 19 anos de idade, segundo o historiador Pereira Reis Junior, a obra 'Maria Quitéria: Heroína da Guerra da Independência do Brasil'.

A resposta chegou como um lembrete do papel com o qual a filha deveria se contentar: “Mulheres fiam, tecem e bordam. Não vão à guerra”. Mesmo diante do impedimento paterno, ela não esmoreceu — pelo contrário, bolou um plano e, com o auxílio de parentes próximos, conseguiu enganar as tropas.


2. Disfarce perfeito

“Deixou a fazenda e foi procurar auxílio na casa de sua meia-irmã Teresa, que a socorreu, providenciando o corte dos cabelos e fazendo com que seu marido, José Cordeiro de Medeiros, lhe emprestasse a farda”, relata a obra 'Dicionário Mulheres do Brasil – de 1500 até a atualidade' (Editora Zahar), de Schuma Schumaher e Erico Vital Brazil.

Mapa do Recôncavo baiano, feito por Teodoro Fernandes Sampaio em 1899 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Disfarçada de homem, ela seguiu com o Batalhão dos Periquitos – assim chamado por causa da farda verde – para a defesa da Ilha de Maré e, logo após, para Conceição, Pituba e Itapuã. Participou também de batalhas na foz do Rio Iguaçu. 


3. Talento para combater

“Destacou-se desde o começo por sua bravura e destreza no manejo das armas. Seu batismo de fogo aconteceu no combate da Pituba e, em fevereiro de 1823, no confronto em Itapuã, foi citada na ordem do dia por ter atacado uma trincheira inimiga e feito muitos prisioneiros”, revela o Dicionário Mulheres do Brasil.

Depois de suspensa a luta armada, ainda foi condecorada por sua bravura junto com os demais membros do Batalhão dos Periquitos. O historiador Murilo Mello, em entrevista à AH, ainda acrescentou que há um documento comprovando o interesse do general francês Pierre Labatut —um dos principais estrategistas do confronto — em torná-la cadete do Exército.

Sua xará inglesa, Maria Graham, a conheceu pessoalmente e deixou registradas as seguintes impressões: “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educasse, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis”.


4. Após os conflitos

Depois de ter deixado o Exército, Maria Quitéria se casou com um antigo namorado, chamado Gabriel Pereira de Brito, com o qual teve uma filha, Luísa Maria da Conceição. Chegou a se encontrar com Dom Pedro Ie receber a garantia de um soldo — antigo salário, recebido anualmente.

Escultura de bronze em homenageia Maria Quitéria, feita por José P. Barreto / Crédito: Wikimedia Commons

 

Após a morte do marido, ela se mudou para Feira de Santana, na intenção de receber parte da herança de seu pai, que veio a falecer em 1834. Entretanto, acabou desistindo do inventário por causa da morosidade da Justiça e foi viver em Salvador com a filha. Morreu praticamente cega e no anonimato, em Salvador, no dia 21 de agosto de 1853.


5. Orgulho dos batalhões

Após a morte, sua figura passou a ser ainda mais presente na memória nacional, principalmente com a abertura para mais pautas femininas. "A construção do mito vai se dar, sobretudo, 100 anos depois de sua morte — ela vai ter um reconhecimento em vida, tanto que vai ser recebida pelo imperador do Brasil. [...] Mas ela não tinha ideia da figura que ela se tornaria ao longo do tempo", relatou o historiador Murilo Mello.

Em 1996, ela recebeu o auge de suas honrarias pelas Forças Armadas; o título de­ Patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro, sendo considerada a figura feminina mais importante da história da instituição.


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