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Distinção Mosaica: uma dica para entender o monoteísmo judaico

Um breve suporte conceitual que egiptólogos e assiriólogos bolaram para entender Yahweh

André Nogueira Publicado em 18/03/2019, às 13h45

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Arquivo AH

Monoteísmo quer dizer "um único deus" e, hoje me dia, esse nome é associado a três grandes religiões: judaísmo, cristianismo e islamismo. Porém, essas três religiões nem sempre existiram e a noção de deus-único tem uma origem e um sentido. 

Conhecida como primeira religião monoteísta, o judaísmo tem a chave para entendermos essa forma de religião e suas especificidades.

A Tradução Divina

A primeira base teórica útil para a análise é o conceito bolado por Jan Assmann, egiptólogo alemão, para entender os politeísmos no Egito e na Mesopotâmia: a Tradução divina (no original, Übersetzungsgötter). Segundo Assmann, no politeísmo, os deuses possuem uma capacidade de atribuírem a si mesmos os poderes e os atributos de outros. Esse absorvimento dos poderes aconteceria com a atribuição do nome dos outros deuses ao deus que receberá esses poderes e, com isso, esse deus acaba por ganhar mais relevância na hierarquia interna do panteão. Essa receptação do nome de outros deuses é a Tradução citada pelo alemão.

Um dos principais exemplos conhecidos de Tradução divina aparece na épica Enuma Elish, mito babilônio da criação, em que Marduk, deus de Babil, após matar Tiamat e criar o mundo ordenado, recebe o nome de diversos deuses e se torna figura principal de sua religião.

Representação de Marduk matando Tiamat

 

O monoteísmo

Desta forma, é possível entender que a assimilação dos nomes de deuses por um único deus gera a diminuição do número de deuses de um panteão, pois diversos seres distintos se tornam um. A partir desta lógica, Assmann considera que, no limite, é possível compreender esse processo para a formação de um panteão de um único deus, que assimila todos os outros nomes (e, portanto, poderes). 

Conceber, portanto, o monoteísmo seria compreender a receptação integral dos nomes de um panteão por uma única figura, matando todos os outros nomes e, assim, fazendo deles uma forma inútil de comunicação. Se só há um deus, não se faz necessário chamá-lo pelo nome em distinção aos outros, fazendo da própria necessidade do nome uma forma de negar a unicidade de deus. 

Judaísmo: a Distinção Mosaica

Dessa maneira, quando Assmann tenta entender o deus-único judaico, ele percebe esse exato processo: Yahweh assimila os nomes e poderes de qualquer deus concebível no Oriente Médio, tornando-o ser único e cujo nome faz-se desnecessário (ou mesmo contraindicado) citar. Nasce o tetragrama YHWH, como forma de identificar o deus sem um nome. 

Percebe-se que esta forma de panteão de deus-único se difere dos henoteísmos como o culto a Aton no Egito ou An na Suméria, pois só Yahweh atinge o status de deus-único cuja concorrência se faz impossível, dado que não há mais nomes para competir com ele. Principalmente pois, com YHWH, a necessidade de nomear os deuses é anulada. 

Na linha do tempo das religiões, só é possível ver esse fenômeno realmente acontecendo com a aparição de deus a Moisés durante o Êxodo. Nessa passagem, Yahweh afirmaria sua unicidade e a guerra santa aos outros nomes (outros deuses), fazendo do arco narrativo de Moisés o momento de distinção de Yahweh em relação a qualquer outro panteão. Por isso, haveria uma "distinção mosaica" no judaísmo que o faria o primeiro monoteísmo da história.