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Distrito 6: a perturbadora saga das 60 mil pessoas negras que foram expulsas de suas casas

Durante 30 anos, o local se tornou um dos maiores símbolos dos horrores do Apartheid

Giovanna de Matteo Publicado em 25/10/2020, às 10h00

Uma mala é exposta no District Six Museum
Uma mala é exposta no District Six Museum - Crédito/Giovanna De Matteo/District Six Museum

O Distrito 6, localizado na Cidade do Cabo, nasceu como um bairro que abrigou judeus durantes anos, já sendo uma área considerada "periférica" desde o começo. Ao longo dos anos, a população foi crescendo e muitos dos judeus mudaram de lugar, deixando aquele local livre para novas pessoas. Com isso, o distrito se tornou um local que abrigava, em sua maioria, pessoas negras.

Em fevereiro de 1966, P.W. Botha, um ex-primeiro-ministro da África do Sul, proclamou o Distrito 6 como uma "área branca". Em um período de 15 anos, mais de 60.000 pessoas negras que residiam naquele local foram notificadas pelo governo e tiveram abandonar suas casas, e a quem resistisse à mudança, só se sobrava repressão e violência. Isso aconteceu não só no distrito 6, mas em vários outros locais dentro de todo o país.

A população negra foi obrigada a se mudar para novos distritos, exclusivos para negros, onde eles seriam realocados em apartamentos. As comodidades necessárias para uma vida decente, como saneamento básico, estavam ausentes nesses locais que eram totalmente esquecidos pelo governo.

As regras da segregação racial que formavam a política do apartheid forçaram todos os cidadãos a emitirem uma espécie de "passaporte", que identificava a raça da pessoa e os lugares que ela podia frequentar. As pessoas eram separadas em quatro distinções: brancos, negros, bantu (etnia africana negra) e outros (não-europeus, estrangeiros, mulçumanos, judeus, etc).

Uma explicação à respeito do The Act /Giovanna De Matteo/District Six Museum

 

The Act, como é chamada a lei de registro da população, foi feita através de testes humilhantes onde as autoridades determinavam a raça de cada pessoa através da língua falada e características físicas.

Para um não branco passar pelas "áreas", precisava de um passe que autorizasse sua permanência ali, caso o contrário, era levado para delegacia, podendo sofrer violência policial, multa ou prisão. Isso por si só já aterrorizava a população.

"Passaporte" de classificação de raça da Cidade do Cabo / Giovanna De Matteo/Cape Town Civic Center

 

Além disso, o apartheid se fez extremamente violento e exclusivo, tendo em todos os locais áreas separadas por raça, onde existiam bancos, ônibus, vendas, bebedouros e outros lugares específicos para o uso de pessoas brancas ou não. 

Os anos se passaram e as pessoas negras do Distrito 6 foram expulsas de suas residências, tendo suas propriedades destruídas uma por uma. Na maioria das vezes, as pessoas precisavam sair de suas casas com nada mais do que apenas uma mala de mão.

A situação era degradante e vergonhosa àqueles que estavam sendo submetidos à uma inferioridade racial, tendo os direitos de trabalho, residência própria e liberdade de locomoção e expressão retirados pelo Estado. Ao longo do país sul-africano, outros distritos seguiram o mesmo exemplo do Distrito 6.

Placas que determinavam a segregação racial na Cidade do Cabo são expostas no District Six Museum /Giovanna De Matteo

 

Uma resistência de professores, líderes religiosos, manifestantes e grupos políticos e anticolonialistas se formou para lutar contra o racismo e o apartheid, mas os movimentos eram totalmente oprimidos pelas autoridades governamentais e pela polícia. 

Somente após 46 anos o apartheid foi abolido totalmente na África do Sul, e o Distrito 6 pôde voltar a ser livre para todos os cidadãos depois de 30 anos de leis absurdas. Até hoje, o país luta pelas memórias daqueles que sofreram com o regime e tenta lidar com as consequências e resquícios dessa política brutal.

Capas de jornais registram o momento em que o Distrito 6 retornou como uma área livre /Giovanna De Matteo/District Six Museum

 

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