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Do agoniante papel em O Iluminado a reclusão: O que aconteceu com Shelley Duvall

Atriz se aposentou em 2002 e só reapareceu em público em uma entrevista de 2016, surpreendendo muitos

Fabio Previdelli Publicado em 18/02/2021, às 11h54 - Atualizado às 11h55

Shelley Duvall em cena do 'O Iluminado'
Shelley Duvall em cena do 'O Iluminado' - Divulgação

Em 1980, ao lado do icônico Jack Nicholson, a atriz Shelley Duvall estrelou um dos filmes de terror/suspense mais aclamados de todos os tempos: O Iluminado, que foi dirigido pelo talentoso e perfeccionista Stanley Kubrick.  

Se nas telonas o longa causava angustia em muitos espectadores — afinal, não é pra menos, já que a célebre cena de Jack Torrance [Jack Nicholson] quebrando a porta do banheiro com um machado causa cala frios até hoje —, nos sets, a situação não era diferente, visto que Duvall relatou diversos perrengues para dar vida a Wendy Torrance.  

Apesar da experiência traumatizante, até certo ponto, a atriz disse que aprendeu mais sobre seu trabalho em um set com Kubrick do que em qualquer outro filme que participou. Mas afinal, após todo esse tempo, o que aconteceu com Shelley Duvall

O início de carreira 

Antes dos holofotes, Shelley jamais pensou em se tornar atriz. Muito pelo contrário, ela tinha ambições muito diferentes. Texana de nascença e criação, ela nunca havia saído do Estado antes de ser artista.

Por lá, chegou a se formar em nutrição e pensava em se tornar cientista, área pela qual tinha interesse desde pequena.  

Mas tudo mudou nos anos 1970, quando o diretor Robert Altman fez locações do filme ‘Voar é com os pássaros’ no Texas. Durante uma festa de confraternização entre a equipe da produção, o diretor conheceu Duvall em um bar local.

Foi encanto à primeira vista. Não só da parte de Robert, mas muitos de seus companheiros ficaram fascinados com a presença otimista dela, além de sua aparência física única.  

Com isso, foi convidada para fazer um papel no filme. Ali começava sua carreira e sua vida longe do Texas. Posteriormente, ela estrelou o musical ‘Nashville’ (1975); participou do drama ‘Três Mulheres’ (1977), também dirigido por Altman; e também fez um pequeno papel em ‘Noivo neurótico, noiva nervosa’, de Woody Allen, naquele mesmo ano.  

Duvall ao lado de Keith Carradine em Nashville / Crédito: Wikimedia Commons

 

Inclusive, foi na filmagem do último longa que conheceu Paul Simon, com que se relacionou na época. Juntos, o casal estrelado viveu um amor que marcou época.

Entretanto, o romance acabou pouco depois, quando ela apresentou Carrie Fischer para Paul. Simon acabou se apaixonando pela eterna princesa Leia e largou Shelley — ele e Fischer ficaram casados por apenas um ano.  

O Iluminado 

Logo Duvall seria convidada para estrelar ‘O Iluminado’, filme pelo qual ela é mais reconhecida até hoje. A experiência foi muito marcante, contudo, nem sempre por um bom motivo.

Em rara entrevista ao Hollywood Reporter, que foi repercutida pela Rolling Stones, a atriz, hoje com 71 anos, conta que precisava chorar todos os dias. Além de todo sentimento de angústia, ela tinha que repetir as cenas centenas de vezes, o que se tornava exaustivo.  

"Ele [Stanley Kubrick] não ficava satisfeito com nada até pelo menos o 35º take. Trinta e cinco takes correndo, chorando e carregando um garotinho é pesado. E ele queria todos atuando com tudo desde o primeiro ensaio. Era difícil", relembrou.  

Porém, não era só nas filmagens que sofria. Nos bastidores, Kubrick fazia de tudo para deixar a atriz desconfortável. A intenção do diretor era fazer com que ela se sentisse fragilizada, para retratar o desespero de sua personagem de maneira genuína.  

Para se ter uma ideia, Shelley não podia fazer suas refeições com o resto da equipe. Um pouco desse clima pode ser visto no vídeo abaixo. Confira! 

Duvall também revela que, para se preparar para dar vida a Wendy Torrance, ela sofria muito, afinal, precisava estar triste e chorar todos os dias. Para isso, revela que sempre ligava seu walkman e ouvia músicas melancólicas, além do mais, se concentrava em memórias traumáticas. 

"Eu pensava em algo muito triste da minha vida ou na saudade que sentia de familiares e de amigos", conta. "Depois de um tempo [fazendo isso] o seu corpo se rebela. Ele lhe diz: ‘Pare de fazer isso comigo, não quero chorar todos os dias'. E, às vezes, apenas esse pensamento já me fazia chorar". 

"Eu acordava cedo em uma segunda de manhã e lembrava que precisava chorar porque estava na agenda, e aí eu começava a chorar e dizia para mim mesma: 'Não, eu não quero isso’. E, no entanto, eu consegui. Não sei como fiz isso", relembra Shelley. A maneira como se preparava para a personagem era tão pesada que chegou a impressionar até mesmo Nicholson. "Ele também comentou comigo: 'Não sei como você faz isso'". 

No fim das filmagens, a atriz chegou a presentar Kubrick com diversos tufos de cabelo que ela perdia devido a crises de ansiedade.  

Carreira pós O Iluminado 

Depois do longa, a atriz ainda teve bons momentos na vida artística. Em 1981, por exemplo, trabalhou no infantil Popey, em mais um longa dirigido por Robert Altman. Nele, teve o papel obvio de Olívia Palito. Robin Williams acabou dando vida ao personagem principal.  

Além disso, ela também foi a idealizadora e produtora de um programa infantil: Fairy tale theatre, que ficou no ar por cinco anos, sendo exibido entre 1981 e 1986. Nos anos 1990, chegou a gravar dois singles de Natal.  

Sua aposentadoria da indústria do entretenimento aconteceu em 2002. Seu último projeto foi o longa ‘Um Presente de Deus’. Após isso, ela deixou Los Angeles e foi morar em um sítio no interior do Texas. 

Reclusa dos holofotes, Duvall passou a desenvolver um estado de saúde mental debilitado. Em 2016, ela fez sua primeira aparição pública após todos esses anos ao ser entrevistada no programa do Dr. Phil, conhecido por suas participações no programa de Oprah Winfrey.  

Shelley Duvall em entrevista em 2016/ Crédito: Divulgação

 

Com a exibição da entrevista, muitos se surpreenderam com a mudança drástica no visual da atriz. Na ocasião, ela revelou: “Estou muito doente. Preciso de ajuda”. Além disso, ela também declarou que seu amigo Robin Williams, que havia falecido dois anos antes, em 2014, estava vivo. “Ele está mudando de forma”, acrescentou.  

Muitos consideraram a exposição da atriz como um abuso sensacionalista, afinal, em muitos momentos, ela parecia alternar momentos de lucidez com delírios. Porém, outra parte preferiu exaltar tudo que ela construiu dentro da indústria de Hollywood, relembrando todo o carisma e talento da atriz. 


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