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Do antissemitismo a ligação com o nazismo: o outro lado de Henry Ford

Um dos maiores ícones do capitalismo americano, Ford se tornou o único estadunidense a ser condecorado com medalha nazista e a ser citado no Mein Kampf

Fabio Previdelli Publicado em 09/06/2020, às 12h13

Foto de Henry Ford
Foto de Henry Ford - Wikimedia Commons

Henry Ford é um ícone americano. Sob sua liderança, a Ford Motor Corporation se tornou o motor da economia dos Estados Unidos e se consolidou como uma das marcas mais icônicas do país. Muitas vezes celebrado por introduziu novos e revolucionários métodos de produção em massa, criou a primeira linha de montagem móvel de automóveis do mundo, em 1913.

No entanto, existe um lado menos conhecido do magnata dos negócios: o de simpatizante do nazismo com opiniões antissemitas raivosas. Isso fez com que, durante a Segunda Guerra, a Ford apoiasse um dos regimes mais destrutivos que o nosso mundo já viu.

As opiniões de Henry Ford sobre os judeus são bem divulgadas e documentadas. As primeiras declarações antissemitas do magnata datam do início de 1915. Naquela época, ele conversou com a pacifista judia húngara Rosika Schwimmer sobre a Primeira Guerra Mundial. “Eu sei quem causou a guerra: ‘os banqueiros judeus-alemães’. Eu tenho as provas aqui”, afirmou Ford, batendo no bolso.

Ford, Thomas Edison e Harvey Firestone / Crédito: Wikimedia Commons

 

Já em 1919, durante um acampamento com seus amigos Thomas Edison, Harvey Firestone e o naturalista John Burroughs, o ensaísta relatou a seguinte experiência que teve com Henry: “O sr. Ford atribui todo o mal aos judeus ou aos capitalistas judeus: os judeus causaram a guerra; os judeus causaram o surto de ladrões e roubos em todo o país, os judeus causaram a ineficiência da marinha de que Edison falou na noite passada...”.

E então, no ano seguinte, ele apresentou suas opiniões em público pela primeira vez, em uma entrevista ao New York World: “Os financiadores internacionais estão por trás de toda guerra. Eles são o que é chamado de judeu internacional. Acredito que em todos esses países, exceto o nosso, o financista judeu é supremo ... Aqui o judeu é uma ameaça”.

O Judeu Internacional

Em 1918, Ford comprou o jornal de sua cidade natal, o The Dearborn Independent. Durante os oito anos que esteve em funcionamento, a publicação lançou uma série de artigos antissemitas que afirmavam que uma vasta conspiração judaica estava infectando a América.

Além disso, os textos "culpavam os judeus por tudo, desde a Revolução Bolchevique e a Primeira Guerra Mundial, até uma conspiração para escravizar o cristianismo e destruir o modo de vida anglo-saxão”, segundo um trabalho de pesquisa publicado pela Hanover College.

The International Jew, novembro de 1920, primeira edição por Henry Ford / Crédito: Wikimedia Commons

 

Esses artigos antissemitas abrangeram 91 edições e foram publicados e distribuídos em quatro volumes intitulados The International Jew. Como um dos homens mais influentes da América, Ford legitimou ideias antissemitas através de seu jornal e a mídia alemã tomou conhecimento disso.

Assim, a publicação nacionalista alemã Hammer traduziu e publicou o primeiro volume de The International Jew no verão de 1921.

A admiração de Adolf Hitler por Henry Ford

Acontece que Ford não era apenas um simpatizante nazista, mas também uma inspiração para o líder deles: Adolf Hitler. Em um artigo publicado pelo The New York Times, em 20 de dezembro de 1922, o jornal discute a alta consideração que o Führer tinha por Henry.

"A parede ao lado de sua mesa no escritório particular de Hitler está decorada com uma grande foto de Henry Ford", informou o Times. A publicação acrescentou que Hitler também mantinha uma cópia traduzida do The International Jewish em seu escritório.

Em março de 1923, um repórter do The Chicago Tribune entrevistou Hitler. Durante a entrevista, surgiu o assunto de uma possível presidência presidida por Ford. “Gostaria de poder enviar algumas das minhas tropas de choque para Chicago e outras grandes cidades americanas para ajudar nas eleições. Consideramos Henry Ford o líder do crescente movimento fascista na América. Os alemães admiram particularmente sua política antijudaica, que é a plataforma fascista da Baviera”, observou Hitler.

Além disso, Ford era o único americano citado por nome na autobiografia de Hitler, Mein Kampf, publicada em 1925. "Cada ano que passa fazem deles [judeus americanos], os mestres controladores dos produtores em uma nação de cento e vinte milhões. Porém, apenas um grande homem, Ford, mantém sua fúria e sua total independência”, escreveu o Führer.

Henry Ford, um ícone nazista

O Instituto Histórico Alemão relatou que outros líderes nazistas também falaram de seu carinho por Ford. Em uma carta escrita em 1924, Heinrich Himmler descreveu Ford como "um dos nossos lutadores mais valiosos, importantes e espirituosos".

Diplomatas alemães premiam Henry Ford, centro, com a mais alta decoração da Alemanha nazista para estrangeiros, a Cruz da Ordem de Mérito da Águia Alemã, em Detroit, em 1938 / Crédito: Domínio Público

 

Além disso, em julho de 1938, antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, diplomatas alemães concederam a Ford a Cruz da Ordem de Mérito da Águia Alemã — a maior medalha que um alemão nazista poderia conceder a um estrangeiro, e Ford seria o único americano a receber o prêmio.

Tentativa de Reparação

Uma ação movida pelo advogado de São Francisco Aaron Sapiro levou Ford a fechar o The Dearborn Independent, em dezembro de 1927. Em retratação, o magnata escreveu uma carta à Liga Antidifamação, em 7 de janeiro de 1942, tentando esclarecer suas declarações anteriores. Henry concluiu sua mensagem com: “Minha sincera esperança de que agora neste país e em todo o mundo, quando a guerra terminar, o ódio aos judeus e o ódio contra quaisquer outros grupos raciais ou religiosos cessem para sempre".

Linha de montagem de Ford, em 1913 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Privadamente, porém, as visões antissemitas da Ford permaneceram intactas. O magnata americano morreu em casa em 1947, e seu império ficou sob o poder de Henry Ford II, que fez o possível para reparar a reputação da família ao longo dos anos 1950.


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