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Do caos no Titanic aos horrores das guerras mundiais: a saga de Charles Lightoller

Durante o naufrágio, o oficial foi o principal responsável pelo deslocamento da população do navio para os botes salva-vidas — e cometeu erros trágicos

Wallacy Ferrari Publicado em 27/06/2020, às 10h00

Charles Lightoller (à esq.) em montagem junto ao Titanic (à dir.)
Charles Lightoller (à esq.) em montagem junto ao Titanic (à dir.) - Wikimedia Commons

A vida de Charles Hebert Lightoller parecia predestinada para ver a morte de perto desde seus primeiros momentos de vida. Nasceu em 30 de março de 1874, com sua mãe, Sarah, falecendo pouco depois do parto. Criado em uma família de trabalhadores do ramo da produção de algodão, seu pai, Fred, o abandonou ainda na infância, viajando passa a Nova Zelândia.

O crescimento difícil fez o jovem buscar forças em uma de suas paixões: o mar. Iniciando sua aprendizagem marítima aos 13 anos, em uma viagem prevista para durar quatro anos. A bordo do Primrose Hill, Charles não apenas adquiriu habilidades na vida aquática, como viu a morte de perto com diversos acidentes. Durante uma tempestade no Rio de Janeiro em 1889, o barco teve de ser reparado às pressas para prosseguir a viagem de maneira segura.

O susto maior foi anos depois, em Calcutá, quando a carga de carvão no navio pegou fogo. Os esforços para diminuir as chamas e conter uma possível tragédia não apenas promoveu Charles a segundo-piloto, mas atraiu os olhares da White Star Line. Em 1900, ele começou a trabalhar como oficial da companhia e por lá ficou até 1912, quando o ambicioso projeto RMS Titanic iniciou suas viagens.

Charles no navio inafundável

Faltando duas semanas para a viagem inaugural no navio, Lightoller foi escalado como segundo-oficial, devido a uma transferência de David Blair. A escolha, no entanto, não contou com o fato de que o funcionário era o único com a chave do compartimento de binóculos.

Ao invés de solicitar, Charles afirmou que compraria outros binóculos quando o navio chegasse nos Estados Unidos. A ausência de binóculos foi essencial na visualização do iceberg, podendo ser evitado e desviado.

Ao colidir com o bloco de gelo na noite de 14 de abril de 1912, Charles estava pronto para dormir, mas teve de colocar seu uniforme por cima do pijama e ser o principal responsável pela organização da tripulação no convés, colocando as pessoas nos botes.

Um erro de comunicação com o capitão Edward Smith resultou em mais um ato que poderia ter salvado vidas; ao ser orientado a dar preferência a mulheres e crianças, os primeiros botes saíram unicamente com as pessoas no perfil proposto, antes mesmo de preencher a lotação máxima.

Um dos relatos chocantes, confirmado por diversas testemunhas, foi na saída do segundo bote. Assim que aberto, foi rapidamente ocupado por 25 homens, deixando Charles furioso, ordenando a saída de todos com uma arma. Em seguida, encheu a embarcação apenas de mulheres e crianças e a lançou no mar, totalizando 17 pessoas em um bote com capacidade para 40.

Fotografia reunindo os únicos quatro oficiais sobreviventes no Titanic / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma força de salvamento

Mesmo com o susto inicial, conseguiu compreender que o número de mulheres e crianças eram insuficientes para boa parte dos botes, ignorando a entrada de homens nos últimos. Foi um dos últimos oficiais a se manter no navio, até ser atirado na queda de uma de suas chaminés. Ao atingir a água, foi rapidamente afastado com a erupção dos canos.

Charles avistou o bote dobrável B, flutuando com sua estrutura virada, além de cerca de trinta pessoas agarradas nele. Nadou em direção ao barco, subiu e orientou, gradativamente, a subida de cada uma das pessoas em volta, de maneira que o peso fosse equilibrado e evitasse problemas com as ondas.

Em cima do navio tombado, cerca de 30 pessoas permaneceram equilibradas por toda a madrugada, até o amparo de um outro bote. Com a transferência da tripulação, o grupo foi regatado pelo RMS Carpathia, com Lightoller sendo o último a ser salvo. Chegou a depor nas investigações da tragédia, mas defendeu a empresa, adicionando fatos que embasaram a causa como um acidente.

A vida após o desastre

Ainda ficou mais um ano trabalhando para a White Star Line, mas passou a servir como um tenente da Marinha Real britânica durante a Primeira Guerra Mundial. Participou de diversos confrontos, estando presente em mais dois naufrágios — Oceanic, em 1914 e HMS Falcon, em 1918 — sendo promovido a Tenente-Comandante no fim da guerra e  se aposentando em 1919.

Os esforços para servir na água serviram para transformar a imagem de Charles, mas não para retomar sua carreira. Após ser recusado na White Star Line, relatou que os oficiais e tripulantes sobreviventes do Titanic passaram a sofrer preconceito no mercado ao passar dos anos, principalmente após o surgimento de provas de que o desastre poderia ter sido evitado.

O iate, adquirido por Charles, utilizado para auxiliar em Dunkirk / Crédito: Wikimedia Commons

 

Lightoller prosseguiu no mar; comprou um iate próprio e chegou a auxiliar voluntariamente no resgate de soldados durante o naufrágio de Dunkirk, na França, durante uma batalha da Segunda Guerra Mundial.

Também escreveu uma autobiografia, no final da década de 1930, relatando os principais episódios de sua vida, dando ênfase ao naufrágio do Titanic. Teve o livro retirado das prateleiras após uma crítica aos telégrafos da marca Marconi, que ameaçou processá-lo por calúnia. O militar faleceu aos 78 anos de idade em seu estaleiro, localizado em Londres, em 8 de dezembro de 1952, vítima de uma insuficiência cardíaca.


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