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Do Estado Paralelo a morte cinematográfica: Jesuíno Brilhante, o primeiro cangaceiro do Sertão

Figura única do nordeste, Brilhante tentou atuar como justiceiro sendo responsável até mesmo por uma realidade paralela

André Nogueira Publicado em 27/06/2020, às 08h00

Jesuíno em representação de cordel
Jesuíno em representação de cordel - Divulgação

Por mais que movimentos análogos existam desde o século 18, o potiguar Jesuíno Alves de Melo Calado, o Jesuíno Brilhante, é considerado o primeiro cangaceiro da História.  Bandoleiro idealista e, ponderando entre a violência e a gentileza, que deu origem ao movimento mais famoso do nordeste. Nascido na zona rural de Patu, em meio à aristocracia agrária, foi um pacato produtor até os 25 anos.

Conta-se que entrou para a criminalidade como forma de se vingar do homem que agrediu violentamente seu irmão e recuperar o roubo de uma cabra, em 1871. Os dois casos gerados por uma desavença com a família Limão. Quando Honorato Limão bateu no jovem Lucas Alves, ele estourou, foi a um bar e matou o agressor a golpes de faca.

Sua campanha no cangaço foi essencial para a criação da mitologia do bandoleiro Robin Hood, pois, apesar das ambições pessoais, a preocupação com o social e aproximação com os pobres o levou a fundar o cangaço como forma de auxílio aos necessitados.

Representação de Jesuíno em cordel / Crédito: Divulgação

 

Considerado um homem gentil e chamado de O Cangaceiro Romântico, Brilhante tinha uma boa relação com os pobres, a quem distribuía parte de seus roubos, e tinha como principal alvo os coronéis nordestinos. Era famoso por interceptar comboios do governo com recursos aos afetados pela seca, que normalmente não eram distribuídos e ficavam com os poderosos, assim devolvendo para o povo.

No entanto, isso não impedia Brilhante de atuar em benefício próprio, ou em prol da própria família. É famoso na Paraíba um episódio em que Jesuíno entrou numa penitenciária onde um irmão estava preso, no intuito de soltá-lo, e saiu atirando por todos os lados. Fugindo por entre as casas, e abrindo buracos nas paredes, ele saiu ileso e conseguiu libertar 43 detentos.

Aliado aos mais pobres e à margem da lei, Jesuíno vivia em uma sociedade completamente à parte do estabelecimento do governo brasileiro, possibilitando outras relações sociais e formas de agrupamento. Por isso, entre 1871 e 1879, implementou o que é considerado um Estado Paralelo no sertão, ou seja, um domínio quase imperial (análogo ao feito por Lampião) em que a lei estadual não prevalecia.

Foto rara de bando ligado a Jseuíno / Credito: Divulgação/Facebook

 

Jesuíno se tornou lenda no nordeste, sendo muitos de seus feitos sendo reproduzidos até hoje pela tradição oral sertaneja, cordéis, e por autores prestigiados como Câmara Cascudo e Rodolfo Teófilo. Ele passou quase 10 anos na clandestinidade, dando origem a uma linhagem politica e esteticamente ligada a esse movimento do cangaço.

Sua morte foi digna de cinema: perseguido por uma tropa policial comandada por um inimigo de longa data da família Limão, caiu numa emboscada em Belém do Brejo Cruz, na Paraíba. Encurralado, montou no cavalo e saiu correndo em direção aos perseguidores, atirando. Em desvantagem, levou dois tiros fatais que o abateram, caindo no chão.

Seu corpo foi levado ao Colégio Diocesano de Mossoró, pelo médico Francisco Pinheiro de Almeida, e logo foi transferido para o Rio de Janeiro, como "item" de museu. Porém, após tempo impreciso, o pesquisador Juliano Moreira removeu o cadáver do acervo e nunca declarou o paradeiro dos restos.


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