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Do extermínio de pardais ao canibalismo: 5 fatos sobre A Grande Fome de Mao

Entre 1958 e 1962, o líder do Partido Comunista Chinês iniciou um programa promissor que transformaria o país em uma grande potência, mas políticas públicas equivocadas resultaram na morte de mais de 45 milhões de pessoas

Fabio Previdelli Publicado em 26/05/2020, às 17h30

Crianças e adultos durante o período da Grande Fome de Mao
Crianças e adultos durante o período da Grande Fome de Mao - Divulgação

Entre 1958 e 1962, o líder do Partido Comunista Chinês, Mao Tsé-Tung, implementou um programa de aceleração do crescimento no país: o chamado Grande Salto Adiante. Com o intuito de transformar a China em uma nação próspera, Mao iniciou seu plano promissor, afinal, em até 15 anos, o país sobrepujaria, economicamente, qualquer nação Ocidental.

Entretanto, na prática, suas políticas foram catastróficas e tiveram graves consequências continentais. O programa, que falava em igualdade e justiça social, causou a perda de um número inestimável de vidas.

Conheça 5 fatos para entender A Grande Fome de Mao, um dos períodos mais sóbrios da história da China:

1. Grande desequilíbrio ambiental:

Conhecida oficialmente como Campanha das Quatro Pragas, também apelidada de A Grande Campanha dos Pardais ou Campanha Mate um Pardal, causou a morte de aproximadamente 1 bilhão de aves em todo o país.

Poster da Campanha das Quatro Pragas / Crédito: Divulgação

 

Para o líder comunista, ratos, moscas, mosquitos e pardais propagavam inúmeras doenças para a população e, por consequência, essas espécies teriam que ser exterminadas. Porém, acredita-se que esse não tenha sido o único motivo, afinal, fazendeiros alegavam que os pássaros estavam devorando grande parte dos grãos de suas plantações.

Assim, em 1960, os cidadãos chineses usaram qualquer material que tinham a disposição para caçar os animais. Barulhos de panelas e frigideiras faziam com que as aves nunca pousassem e morressem de exaustão.

Mas a morte dos bichos causou um grande desequilíbrio ambiental no país: como não havia predadores, o número da colônia de gafanhotos e lagartos aumentou. Essa proliferação fez com que eles destruíssem as plantações e, consequentemente, as colheitas, ocasionando a falta de alimentos para toda a população.


2. Casos de canibalismo:

De acordo com Frank Dikötter, professor catedrático na Universidade de Hong Kong e autor do livro A grande Fome de Mao – A história da catástrofe mais devastadora da China (Editora Record), os arquivos do Partido Comunista sobre o período — do qual teve acesso pouco antes das Olimpíadas de Pequim, em 2008 — são um verdadeiro catálogo de horrores.

O autor revela que esses episódios incluem casos de canibalismo em aldeias de diferentes regiões do país: como relatos de camponeses que desenterram cadáveres de parentes para a alimentação; ou daqueles que comiam ratos, e até mesmo cascas de árvores e terra.

Chineses famintos durante a Grande Fome / Crédito: Domínio Público

 

“Não é que as pessoas morressem de fome porque não havia comida disponível. A comida era, na verdade, usada como uma arma para forçar as pessoas a cumprirem as tarefas atribuídas pelo Partido. E as pessoas que eram consideradas como de direita ou conservadoras, as pessoas que dormiam no serviço, que estavam muito doentes ou enfraquecidas para serem obrigadas a trabalhar se viram sem acesso à cantina e morriam mais rapidamente de fome. Pessoas fracas ou os elementos considerados como inaptos pelo Partido foram, portanto, deliberadamente levados à fome”.


3. Morte de opositores e trabalho forçado:

Além das pessoas que morreram por causa da Grande Fome, qualquer cidadão que tinha pensamentos opostos ao Partido ou ao que estava sendo implantado por Mao era desqualificado sistematicamente. Em casos mais extremos, alguns opositores eram presos, exilados ou obrigados a trabalharem em campos de trabalho forçado.

No período, o poder maoísta torturou, matou e executou entre 2 e 3 milhões de pessoas que discordavam das diretrizes do sistema. Aqueles que roubavam um punhado de grãos, ou batatas para matar a fome também eram severamente punidos.

Em um relato, encontrado nos registros oficiais do PCC, é descrito o caso de um homem que foi forçado a enterrar seu filho vivo de 12 anos. O garoto teria saqueado alguns grãos. O pai morreu de desgosto algumas semanas depois.


4. Falsa propaganda positivista e lavagem cerebral coletivista:

Ao mesmo tempo em que essas barbáries aconteciam no país, o governo vendia, por meio da propaganda oficial, uma imagem de um povo feliz e de uma economia prospera. O autor aponta que por acreditarem cegamente em Mao Tsé-Tung e no Partido Comunista Chinês, a população passou por uma espécie de lavagem cerebral intensa e sistemática.

“Tudo foi coletivizado”, relata. “Muito rapidamente o paraíso utópico provou ser um enorme quartel militar. A coerção e a violência eram as únicas formas de garantir que as pessoas executassem as tarefas que lhes eram ordenadas pelos membros locais do Partido”.

Foto de Mao Tsé-Tung em um campo de trigo / Crédito: Getty Images

 

“A fome tomou dimensões muito além do que se pensava anteriormente”, descreve o autor. “Os especialistas estimavam a catástrofe demográfica entre 15 e 30 milhões de mortes. Com as estatísticas compiladas pelo próprio Gabinete de Segurança Pública na época, descobre-se uma calamidade muito maior: pelo menos 45 milhões de mortes prematuras entre 1958 e 1962. Mas não é simplesmente a extensão do número de mortos que conta, mas também como essas pessoas morreram”.


5. Apenas um “difícil período de três anos”:

Apesar dos diversos casos chocantes e da morte de dezenas de milhares de vidas, o Partido Comunista Chinês trata o período com certa normalidade. É alegado que as perdas humanas aconteceram em virtude das condições ambientais. Além disso, as autoridades discordam do número de óbitos registrados e dizem que elas aconteceram em menor escala: cerca de 15 milhões de mortes. Eles tratam essa fase como “O difícil período de três anos”.


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