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Do racismo nos EUA aos horrores do stalinismo: a trajetória de Robert Robinson

Fugindo da Grande Depressão e do supremacismo branco, o fabricante de ferramentas foi recrutado pelos comunistas; mas teve enormes dificuldades para deixar a União Soviética

Isabela Barreiros Publicado em 26/05/2020, às 14h52

O fabricante de ferramentas Robert Robinson
O fabricante de ferramentas Robert Robinson - Divulgação

A Grande Depressão assolava os Estados Unidos. A partir de 1929, o país começou a sofrer com a queda nos preços das ações, e as consequências foram sentidas de maneira drástica pela população estadunidense, principalmente entre os trabalhadores. Sem empregos ou com salários muito baixos, as perspectivas de melhora não eram as mais altas.

Esse foi um dos motivos que levou o então fabricante de ferramentas automobilísticas, Robert Robinson, com 23 anos, a aceitar um convite da União Soviética para trabalhar na indústria da região. Em 1929, a Ford fez um acordo com o Estado socialista para construir uma fábrica na cidade russa de Nizhny Novgorod. No ano seguinte, uma delegação visitou uma das instalações da empresa nos Estados Unidos. Foi naquele momento que a longa saga de Robinson começou.

Um fabricante de ferramentas afro-americano

Robert Robinson é o único negro na fotografia / Crédito: Divulgação

 

Robert Robinson nasceu em 1906 na Jamaica, mudou-se para Cuba, cresceu no país que viria a se tornar comunista, e somente depois emigrou para os Estados Unidos. Ele e a mãe, nascida na Dominica, se estabeleceram em Detroit, no estado do Michigan. Formou-se como fabricante de ferramentas qualificado pela Ford Motor Company, em um período onde a indústria automobilística crescia cada vez mais.

Negro, desde sempre percebeu seu lugar na sociedade americana, essencialmente racista. A Ku Klux Klan estava no seu 2º Klan e o nacionalismo branco era o dogma praticado por quem pertencia ou não à organização. Com vítimas constantes e preconceito explícito, Robinson, aos 23 anos, temia que fosse o próximo a sofrer linchamentos, como havia enfrentado o primo de um amigo próximo.

O salário que ganhava na Ford também não era lá essas coisas. Temia ser demitido por consequência da crise que acometia a década de 1930 ou simplesmente pelo racismo institucionalizado nos Estados Unidos. Não havia muitos motivos que o segurariam no país cujo objetivo era o american way of life, pouco possível naquelas circunstâncias.

Quando a comissão soviética o ofereceu uma remuneração mais alta, em 1930, Robinson foi recrutado. O contrato de um ano inicialmente estabelecido foi apenas o começo da relação do jamaicano com o território vermelho, que duraria quase meio século, mas em trancos e barrancos.

Estado vermelho

Robert Robinson em um jornal soviético / Crédito: Divulgação

 

“No minuto em que cheguei na rua 125, todo o desejo de voltar à América desapareceu. Todos pareciam tão apáticos e descontentes que uma nuvem de escuridão desceu e me envolveu. Era tão contrário ao espírito animado manifestado pelos trabalhadores russos que se ocupavam alegremente de suas tarefas diárias, sem pensar na perda de emprego ou despejo de amanhã”, afirmou Robinson no livro Black on Red: My 44 Years Inside the Soviet Union (1988), escrito junto à Jonathan Slevin.

Ele chegou a Stalingrado, hoje Volgogrado, em 4 de julho de 1930. O destino de sua labuta era uma fábrica de tratores, lugar onde era o único afro-americano entre um grande número de trabalhadores brancos dos Estados Unidos. A tensão foi enorme, e o fabricante foi espancado por dois destes logo quando se apresentou à fábrica.

O caso se tornou um exemplo divulgado pelos russos do racismo estadunidense e sua violência. Os homens foram presos, julgados, expulsos do bloco e levados de volta ao país de origem. Assim, Robinson foi transformado em uma espécie de pequena celebridade pela imprensa soviética, e a agressão teve tanta publicidade que fez com ele se sentisse incapaz de retornar aos Estados Unidos.

O contrato de um ano se tornou outro de dois que foi renovado novamente depois de expirar. Em 1932, foi à capital russa, Moscou, para comprar uma passagem de volta, mas foi convencido a ficar. Mudou de fábrica, e passou a integrar um grupo de 362 "especialistas estrangeiros" em uma usina de rolamento de esferas. Mas nem tudo eram flores na era stalinista da União Soviética.

Quando Sergei Mironovich Kirov, suposto sucessor de Stalin, foi assassinado no dia 1 de dezembro de 1934, a preferência pelos trabalhadores americanos acabou, como diria Robinson, “da noite para o dia”. Outras tormentas também afligiam os estrangeiros: o Grande Expurgo do líder soviético, entre 1936 e 1939, fez com que muitos dos conhecidos do afro-americano desaparecessem.

Voltando para casa?

Crédito: Divulgação

 

Em 1937, o governo dos Estados Unidos impôs uma escolha ao trabalhador da Ford: ou voltava ao seu país de origem ou teria que dar adeus à sua cidadania. Ele resolveu ficar, e aceitou uma nova nacionalidade, a soviética, o que posteriormente lamentaria, mas apenas muito tempo depois. 

Os anos passavam e Robinson continuava seu trabalho no bloco comunista. No entanto, a partir da década de 1950, ele passou a solicitar anualmente um visto de férias para o exterior. Ele foi negado em todos os pedidos. Decidiu, então, recorrer a outro método para conseguir deixar o território: usou da influência de embaixadores do país africano de Uganda para conseguir, ao menos, ir até o continente.

Foi apenas em 1974 que o americano conseguiu sair da URSS, comprando uma passagem de ida e volta, para não causar suspeitas, para Uganda. Lá, pediu refúgio, e, em 1976, casou-se com uma professora universitária também afro-americana, Zylpha Mapp. Mas demorou ainda mais para que ele conseguisse entrar nos Estados Unidos novamente. Em 1986, ele pôde voltar ao país, onde conseguiu a cidadania e morou até a morte devido a um câncer, em 1994.


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