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Do reinado de 34 dias a boatos destrutivos: Umberto II, o último rei da Itália

Após a queda de Mussolini, o herdeiro ao trono foi nomeado rei em uma tentativa de restaurar a monarquia

Victória Gearini Publicado em 13/07/2020, às 17h12

Retrato de Umberto II, o último rei da Itália
Retrato de Umberto II, o último rei da Itália - Wikimedia Commons

Umberto II foi o último rei da Itália e comandou a nação durante 34 dias, após uma tentativa frustrada de restaurar a monarquia italiana, após a ditadura de Benito Mussolini. Em uma entrevista ao jornal italiano La Settimana Incom Illustrata, em 1959, o monarca revelou que seu pai, o rei Victor Emmanuel III, sabia dos riscos em nomear o fascista como primeiro-ministro do país. Ao longo de sua vida, Umberto II se envolveu, ainda, em diversos escândalos em sua vida pessoal. 

Nascido em 15 de setembro de 1904, no Castelo de Racconigi, em Piemonte, Umberto II era filho do rei Victor Emmanuel III da Itália com Elena do Montenegro. Desde muito cedo, teve uma criação rígida e uma educação militar. Criado em uma família autoritária, Umberto II sempre se ajoelhava e beijava a mão de seu pai antes de poder falar, tal costume perdurou até a fase adulta. 

Sob o título de príncipe do Piemonte, Umberto II fez algumas viagens à América do Sul, como parte do plano político de expandir o fascismo para o Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. Treinado para seguir carreira militar, tornou-se, ainda, o comandante-chefe do exército, no entanto, o poder, de fato, pertencia ao rei Victor Emmanuel III. 

Em 24 de outubro de 1929, durante o noivado com a princesa Marie José da Bélgica, Umberto II sofreu um atentado em Bruxelas. Na ocasião, o opositor ao regime fascista, Fernando de Rosa disparou um tiro contra o monarca. Posteriormente Rosa foi preso e Umberto II saiu ileso da tentativa de assassinato. 

Turbulenta vida pessoal

No dia 8 de janeiro de 1930, Umberto II se casou em Roma com a princesa Marie José, filha do rei Alberto I dos belgas. Segundo crenças populares, o soberano teria, ainda, projetado o vestido de sua esposa. Juntos, tiveram quatro filhos: princesa Maria Pia, em 1934; príncipe Vittorio Emanuele, em 1937; princesa Maria Gabriella, em 1940 e princesa Maria Beatrice, em 1943. 

Umberto II na infância / Crédito: Wikimedia Commons

 

Na alta sociedade romana, circularam rumores de que seus filhos seriam frutos de uma inseminação artificial. Outras pessoas acreditavam que os três primeiros herdeiros seriam, na verdade, filhos de Marie José com o marechal fascista Italo Balbo. Com o passar do tempo, os rumores aumentaram e Balbo foi forçado a desmentir pessoalmente os boatos para o rei Victor Emmanuel III. 

Não se sabe ao certo quanto desses boatos seriam verídicos, mas sabe-se que o casal não morava junto e quando viajavam dormiam em quartos separados. Anos mais tarde, o médico pessoal de Marie José confirmou que três dos quatro filhos reais foram concebidos por meio de uma inseminação artificial. 

Sexualidade

Com o passar do tempo novos rumores sobre a sua sexualidade surgiram. Em um preconceito extremo, os boatos eram baseados no fato do monarca passar boa parte de seu tempo ao lado do ator bissexual francês Jean Marais e do boxeador Primo Carnera. 

A fim de chantageá-lo, na década de 1920, Mussolini coletou um dossiê completo sobre a vida íntima do monarca. Já durante a Segunda Guerra Mundial, diversos veículos jornalísticos divulgaram que Umberto II seria homossexual, e mesmo após o fim do maior conflito da História, os rumores permaneceram. 

Segundo seu biógrafo, Domenico Bartoli, quando jovem Umberto II tinha o costume de presentear jovens oficiais com uma flor de lis, feita de pedras preciosas. No entanto, era católico devoto e tal fato confrontou sua atração por homens, pois se sentia culpado e atormentado por violar os preceitos da religião, em uma época em que consideravam homossexuais pecadores. 

Umberto II como oficial do exército italiano / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma das maiores revelações sobre a vida sexual de Umberto II pode ser encontrada na autobiografia do aristocrata Luchino Visconti, onde o escritor revela ter vivido um relacionamento homossexual com Umberto II.

Reinado de 34 dias e exílio 

Seguindo as tradições italianas, Umberto II não interviu nas questões políticas da Itália, embora fosse o herdeiro ao trono e o tenente-general do reino. O rei, por sua vez, não acreditava que mulheres pudessem se envolver na política, portanto, enviou Marie José para Sarre, no Vale de Aosta, a isolando da vida política da Casa Real.

Com o avanço dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, o rei transferiu boa parte de seu poder para Umberto II, o nomeando mais tarde como regente. Com a queda de Mussolini, Umberto II tentou convencer a oposição que o governo de seu pai não tinha poder sobre o primeiro-ministro. 

Em 9 de maio de 1946, após o fim do conflito, Victor Emmanuel III abdicou formalmente ao trono em favor de seu filho. O objetivo era influenciar a opinião pública, a fim de restaurar a monarquia e combater os avanços republicanos, uma vez que Umberto II era visto como progressista. 

O gabinete aceitou Umberto II como rei, mas o mandato durou apenas 34 dias, pois após uma votação, a República foi instaurada no país. Acredita-se que as acusações sobre a sexualidade de Umberto II tiveram forte peso sob os conservadores, que votaram contra o soberano. 

Com o fim da monarquia Umberto II viveu no exílio durante 37 anos, em Cascais, na Riviera Portuguesa e nunca mais voltou à Itália. A Constituição de 1948 proibiu que qualquer herdeiro ao trono retornasse ao solo italiano, exceto as mulheres da família Savoy. 

No exílio, o casamento entre Umberto II e Marie José chegou ao fim, embora nunca tenham formalizado o divórcio. Em 18 de março de 1983, Umberto II veio a falecer em Genebra, sendo enterrado na abadia de Hautecombe. Na ocasião, nenhum representante do governo italiano compareceu ao funeral.


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