Matérias » Brasil

Dom Pedro II e o telégrafo no Brasil

Ao longo de um século e meio, o telégrafo incorporou-se ao cotidiano dos povos, acelerou a comunicação e mudou o modo de descrever os acontecimentos

M.R. Terci Publicado em 11/07/2019, às 07h00

None
Reprodução

“A comunicação dos pensamentos, das ordens, das notícias já não encontra demora na distância.” Assim anunciava o ministro Eusébio de Queiroz, a Dom Pedro II, o êxito da implantação da primeira linha de telégrafo elétrico, em 1852, numa primeira etapa ligando a Quinta Imperial ao Quartel General do Exército, sanando a necessidade de expedir ordens rápidas para a repressão ao tráfico de escravos.

O império dos trópicos encontrou o auge de seu desenvolvimento nos anos 1850, quando o país buscava acompanhar a marcha do progresso com a implantação de estradas de ferro, da iluminação a gás e do telégrafo elétrico.

Em vinte anos, o Império estendeu quilómetros de linhas telegráficas ligando 182 estações, capazes de “estreitar num sólido e vigoroso laço de fio todo o vasto litoral de um ao outro extremo do país”.

Em 1866, o navio inglês Great Eastern estendeu um cabo submarino entre a Europa e a América do Norte, vencendo a chamada barreira da imensidão do oceano. Dom Pedro II, um entusiasta das inovações tecnológicas, não perdeu tempo. A telegrafia ultramarina poderia tornar avizinhar o Brasil da Europa, estreitando as relações com vista a divisas políticas e econômicas.

Em 1872, concedeu ao Barão de Mauá o direito de lançar cabos submarinos e explorar a telegrafia elétrica entre o Brasil e a Europa por 20 anos. Coube ao recém construído Hooper, segundo maior navio do mundo no ramo, estender 1150 milhas náuticas de cabo submarino, de Recife até o banco de Bragança a 75 milhas de Belém.

A linha foi inaugurada em setembro de 1873, com trocas de telegramas entre os governantes das duas províncias, e, em dezembro do mesmo ano, foi também concluída a ligação entre Salvador e Rio de Janeiro. A eletricidade agora ligava as cidades mais importantes do Império.

Seis meses depois, em 1874, partindo do Rio de Janeiro, cruzando o Atlântico até Cabo Verde, Ilha da Madeira e Carcavelos em Portugal, chegava a primeira transmissão telegráfica. Tratava-se de uma mensagem de Dom Pedro II informando o feito para a rainha Vitória e ao rei Dom Luís, de Portugal.

Ao longo de um século e meio, o telégrafo incorporou-se ao cotidiano dos povos, acelerou a comunicação e mudou o modo de descrever os acontecimentos. Sua difusão e seu desenvolvimento criaram uma cultura própria, com vocabulário, linguagem, ritmo e formas de comunicar compartilhados por milhões de pessoas em todo o mundo.

O cabo submarino do Barão de Mauá permaneceu em uso até o ano de 1973.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.