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Matérias / George Tiller

Dono de clínica de aborto, George Tiller foi morto por ‘extremista’ pró-vida

Por quatro décadas, George Tiller manteve uma clínica de aborto no Kansas, mas foi perseguido por manifestantes pró-vida

Fabio Previdelli Publicado em 31/07/2022, às 06h00

O médico George Tiller - Divulgação/YouTube/CBS
O médico George Tiller - Divulgação/YouTube/CBS

Por mais de 40 anos, o Dr. George Tiller construiu uma reputação nacional. Diretor de uma entre as três clínicas dos Estados Unidos que ofereciam abortos tardios às mulheres, ele se tornou alvo de ativistas pró-vida. Sua história acabou com uma tragédia em 2009. 

Por anos, Tiller lutou contras aqueles que discordavam dos procedimentos que sua clínica oferecia; por conta disso, foi alvo de atos de violência e sobreviveu, ao menos, de duas tentativas de assassinato feitas por manifestantes pró-vida

No dia 31 de maio de 2009, Scott Roeder, que dizia ser um defensor da vida, atirou na parte lateral da cabeça de George Tiller enquanto ele distribuia boletins antes de um culto de domingo de manhã. 

Alvo de extremistas 

Nascido em Wichita, no Kansas, em 8 de agosto de 1941, George Tiller seguiu os passos de seu pai e frequentou a faculdade de medicina na University of Kansas School of Medicine, conforme aponta a Embryo Project Encyclopedia. 

O médico George Tiller/ Crédito: Arquivo Pessoal

Após completar sua residência em um Hospital Naval na Califórnia, ele começou a trabalhar como cirurgião de voo — que atua com os membros de uma tripulação para apoiar e manter sua saúde física e mental enquanto estiverem no ar; além de diagnosticar e tratar de doenças ou distúrbios específicos dos ambientes aeroespaciais.

Ao contrário de seu pai, porém, George não queria ser um clínico geral, seu sonho era se tornar um renomado dermatologista. Mas tudo mudou depois que seus progenitores morreram em um acidente de avião em 1970. Tiller se sentiu pressionado a assumir a clínica da família. 

Sua perspectiva de futuro passou a mudar quando ele ouviu a história de uma mulher que havia morrido em uma clínica ilegal de aborto. Ele sabia que seu pai poderia salvar a vida dela em seu escritório. Assim, ficou convencido de que o melhor a se fazer era atender as mulheres ao invés da dermatologia. 

Depois de vários anos na clínica de seu pai, George Tiller abriu a Clínica de Saúde da Mulher em Wichita, em 1975. Rapidamente, ele passou a chamar a atenção de organizações pró-vida. Tiller fornecia abortos pós-viabilidade em casos muito específicos: quando uma mulher descobria falhas genéticas graves em seu feto ou se dois médicos confirmassem que sua vida estava em jogo.

Nos cinco anos seguintes, passou a ser alvo da vigília diária da ‘Coalizão pela Vida do Kansas’. Em junho de 1986, sua clínica foi bombardeada, segundo aponta matéria do All That Interesting. Apesar de uma reconstrução prática, Tiller continuou sofrendo ataques. 

Em 9 de agosto de 1993, Shelley Shannon, uma extremista anti-aborto, atirou em Tiller cinco vezes enquanto ele estava sentado em seu carro estacionado. Ela foi condenada a 11 anos pela tentativa de assassinato. Shannon ainda pegou mais 20 anos por sua conexão com ataques a outras clínicas de aborto.

Segundo matéria do Kansas City Star, Shannon escreveu uma carta para sua filha justificando o gesto: “Não estou negando que atirei em Tiller. Mas nego que esteja errada. Foi a coisa mais santa e mais justa que já fiz. Eu não estou arrependida."

Protestos aumentam 

Em 1991, uma filial da organização Operation Rescue — um grupo anti-aborto dos Estados Unidos — mudou sua sede da Califónia para Wichita, justamente para se ‘aproximar’ de George. Eles se renomearam Operation Rescue West e operaram sob a orientação da vice-presidente Cheryl Sullenger.

A organização começou seu trabalho contra a clínica logo após se mudar para a área, com o que eles chamaram de “Verão da Misericórdia” — liderados por Keith Tucci, manifestantes anti-aborto reuniram-se em Wichita e foram presos por protestos e bloqueios das entradas das clínicas e de suas ruas adjacentes. Apesar de manifestações acontecerem em todas as clínicas de aborto, a comandada por Tiller foi o alvo principal. 

Cena do documentário 'After Tiller' (2003) / Crédito: Divulgção

O caso acabou chamando a atenção do âncora Bill O'Reilly, da FOX News, que fazia campanha contra Tiller com frequência em seu programa. Em 2006, segundo a NPR.org, ele chegou a alegar ter informações que provavam que o médico realizou abortos tardios para corrigir “depressão temporária” porque ele era “um selvagem à solta, matando bebês à vontade”.

George Tiller ganhou as manchetes nacionais novamente em 2007, quando ele foi acusado de 19 contravenções após ser acusado de consultar médicos aos quais ele era afiliado financeiramente. Segundo a lei do Kansas, para que um aborto seja recomendado, dois médicos precisam dar um parecer favorável à operação, sendo que nenhum deles pode ter ligação com o responsável por fazer a cirurgia. 

Tiller foi considerado inocente de todas as acusações dois anos depois, mas a campanha contra ele continuou virtualmente. Segundo a Liga Anti-difamação, Scott Roeder fez o seguinte comentário no site da Operation Rescue em 2007: 

Tiller possui o campo de concentração de 'Mengele' de nossos dias e precisa ser detido antes que ele e aqueles que o protegem julguem nossa nação.”

O assassinato de Tiller

Apesar de constatada a inocência de George Tiller, Scott Roeder — que há muito era associado a grupos extremistas — acreditava que fazia parte de um exército que deveria impedir pessoas como Tiller. Sobre o julgamento do médico, ele acreditava que o sistema de justiça havia falhado.

Mugshot de Scott Roeder / Crédito: Getty Images

Em 31 de maio de 2009, Roeder foi responsável por uma brutalidade. No dia anterior, ele chegou a tentar selar as fechaduras das portas da clínica. Mas como isso não deu certo, ele tomou medidas drásticas. 

Naquela manhã de domingo, Tiller estava na entrada de sua igreja, uma prática comum de todas as semanas, para distribuir boletins do culto enquanto a congregação enchia os bancos.

Roeder dirigiu até lá, caminhou até a porta e atirou na parte lateral da cabeça de George Tiller. Ele foi preso e acusado de assassinato em primeiro grau e duas acusações de agressão agravada.

Após 40 minutos de deliberação, o júri considerou Roeder culpado de todas as três acusações, o que culminou com sua condenação à prisão perpétua sem liberdade condicional até que 50 anos fossem cumpridos. Em 2016, ele foi condenado à prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional após a revisão das leis estaduais.

Com o assassinato de George Tiller, a Operation Rescue West denunciou a violência e negou que Roeder tenha sido membro da organização. Porém, investigadores encontraram o número de telefone celular da vice-presidente Cheryl Sullenger no carro de Roeder. Ela mais tarde admitiu que lhe forneceu as datas e horários das audiências de Tiller para Scott o acompanhá-lo. 

Enterro de George Tiller / Crédito: Getty Images

Por fim, Bill O'Reilly também negou que seu programa tenha sido um agravante na morte do médico. “Quando soube do assassinato de Tiller, sabia que fanáticos pró-aborto e odiadores da Fox News tentariam nos culpar pelo crime”.