Matérias » Esporte

Dora Ratjen, o atleta que concorreu como mulher nas Olimpíadas de Hitler em 1936

A história, na verdade, consiste em mais do que um simples “fingimento” por parte de Ratjen e revela uma trajetória conturbada

Isabela Barreiros Publicado em 10/10/2019, às 11h03

None
Domínio Público

Durante as Olimpíadas organizadas pelo líder nazista, Adolf Hitler, em 1936, um caso peculiar marcou a história da competição. Ainda entre a constante promoção do nazismo à ideologia de superioridade ariana, essa história trata de um assunto completamente diferente. 

Dora Ratjen foi uma atleta alemã que praticava a modalidade do salto com vara. Logo depois de ganhar a medalha de ouro na categoria para mulheres, a mulher chamou a atenção de um maquinista durante uma viagem de trem por sua aparência “masculina”. O funcionário teria dito à polícia que “um homem vestido de mulher” estava no trem.

A surpresa do homem abriu brecha para que uma investigação sobre Ratjen começasse. O caso aconteceu no dia 21 de setembro de 1938 e, em alguns dias, a atleta foi presa em Magdenburg, na Alemanha, onde começou a ser interrogada pelas autoridades principalmente sobre sua imagem.

Então ela decidiu contar toda sua história, desde o momento em que nasceu. Mas nenhum dos policiais, nem mesmo as pessoas que souberam sobre o caso depois, esperavam pelo que a moça iria falar. O pai de Dora, Heinrich, também foi convocado para testemunhar. 

Crédito: Wikimedia Commons

 

“Eu não estava na cabeceira da minha esposa durante o parto, mas estava na cozinha na época. Quando a criança nasceu, a parteira me chamou: 'Heini, é um menino!' Mas cinco minutos depois ela me disse: 'Afinal, é uma menina’”, explicou. 

Assim, ela revelou que, na verdade, havia nascido biologicamente como um homem, mas que tinha sido criada como uma mulher. 

“Meus pais me criaram quando menina. Eu, portanto, vesti roupas de menina toda a minha infância. Mas a partir dos 10 ou 11 anos, comecei a perceber que não era do sexo feminino, mas do sexo masculino. No entanto, nunca perguntei a meus pais por que eu tinha que usar roupas femininas, mesmo sendo homem”, disse em um dos interrogatórios.

Todas as conversas de Ratjen com a polícia alemã foram gravadas e transcritas. Em 2009, a revista alemã Der Spiegel entrou em contato com o caso e com as decupagens das autoridades e publicou um artigo esclarecendo, enfim, a história. 

Depois da “confissão”, um médico foi chamado para analisar o corpo da atleta. Ele chegou a conclusão que as características sexuais eram, com certeza, masculinas, mas o órgão genital gerou dúvidas no especialista. 

Mesmo que definitivamente Ratjen fosse um homem, de forma biológica, o médico percebeu que o órgão possuía algumas anomalias, o que talvez possa ter gerado dúvida nos pais quando viram o bebê pela primeira vez. 

As consequências disso foram drásticas para a atleta. Quando organizadores de eventos esportivos receberam a notícia de que ela, na verdade, era do sexo masculino, desclassificaram-na de tudo que havia participado e que iria participar no futuro. A medalha de ouro conquistada também foi retirada de suas mãos, sendo dada à mulher que ficou em segundo lugar.