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Dos bordéis às boates e casas de massagem: a história da prostituição no Brasil

A prostituição confirma ser a mais velha e maleável profissão do mundo

Coluna - Mary Del Priore, publicado originalmente em 2016 Publicado em 18/07/2021, às 11h00

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Imagem ilustrativa - Image by Gerd Altmann from Pixabay

No fim dos anos 1970, todo mês de julho, a vida noturna das grandes cidades animava-se. Em época de férias, com mulher e filhos distantes para descansar melhor, exauriam-se os maridos: “as cigarras”, como eram chamados.  

Sua presença em boates, nightclubs e todo tipo de casa noturna azeitava o faturamento da indústria da prostituição, um negócio com muitos interesses. No meio do ano, batiam-se recordes. Não só o preço das prostitutas subia mas também a venda de bebidas alcoólicas e drogas, a frequência de hotéis e motéis e até porteiros de boates eram beneficiados.  

Em 1973, apenas em São Paulo, a polícia calculava haver 10 mil prostitutas, sendo 4 mil cadastradas. Entre essas, de 3 mil a 3.900 atuavam exclusivamente na “boca do luxo”, região onde casas como La Licorne, Vagão, Teleco Teco da Paróquia, Catedral do Samba etc. tornavam-se terreno de caça.  

Todo esse aumento da prostituição, no entanto, não era coibido pela polícia: vender sexo não é crime. As cigarras não cantavam igual em toda parte. A revista Veja, em matéria sobre o assunto na época, registrava as diferenças no país:

“São Paulo, sem dúvida, é o centro nervoso desta época de apoteose — segundo as mulheres, é na capital paulista que está o ‘grosso do dinheiro’ (...). Os cariocas são em geral menos generosos do que os paulistas na remuneração dos seus programas. 

Os homens de negócios ou os senhores casados de cidades como Salvador e Recife, por sua vez, não têm o hábito de se afastar de suas famílias durante as férias de verão ou inverno (...).Os mineiros igualmente não têm sido clientes ideais para as boates. Eles recorrem mais às call girls, que atendem em seus apartamentos.

(...) A segunda alternativa corre por conta dos encontros marcados, ainda por telefone, com uma das call girls recomendadas pelos barmen de uma das principais boates da capital mineira (...) sob um intrincado sistema de código que funciona na base do ‘doutor Antônio pediu para o senhor José ligar amanhã para ele às 10 horas’. Ou de que ‘o doutor Antônio confirmou que vai esperá-lo amanhã às 14 horas’.  

Em Brasília, o recesso parlamentar não chega a alterar a vida noturna da cidade. Pelo contrário, as boates de música pop Kako e Shalako continuam bastante frequentadas, e a saída dos políticos, segundo os porteiros e ascensoristas dos hotéis de alta categoria, é compensada pela chegada dos turistas”.  

A reportagem informava ainda que, como aves migratórias, durante o “mês das cigarras”, as prostitutas costumavam partir de suas cidades para aquelas “cujos mercados se revelassem mais promissores”.  

Haveria uma espécie de intercâmbio entre as casas de prostituição. O perfil das mulheres que viviam da prostituição era, em geral, o mesmo: “Elas vivem da prostituição porque foram defloradas e abandonadas ou porque se separaram do marido e tinham filho para sustentar, ou simplesmente porque estavam a ponto de se desesperar por não poder ganhar dinheiro suficiente para comer. Quase sempre, também, todas pretendem ficar por pouco tempo na profissão e lamentam o que estão fazendo”.  

As mais requisitadas eram “as fartas”, capazes de “encher uma cama”. Mas mais importante é que fossem discretas. Em 1979, o Brasil assinou a Convenção contra o Tráfico de Pessoas e Exploração da Prostituição. A atividade não era crime ilegal, mas sua exploração, por lenocínio ou tráfico de mulheres, sim, conforme os artigos 227 e 231 do Código Penal Brasileiro.

Atenta para o fato, a CNBB — Conferência Nacional dos Bispos do Brasil — já chamara a atenção para a situação das “madalenas”, sugerindo apoios: “A prostituição, como instituição legal, é uma mancha vergonhosa em nossa civilização. É a aceitação de um fato, postulado pelo egoísmo dos homens, propiciado pela fragilidade das mulheres, amparado pela hipocrisia generalizada”, registrou o arcebispo dom Luciano Duarte.  

A chegada da aids, nos anos 1980, calou a cantoria das “cigarras”. Bordéis e casas noturnas esvaziaram-se. Prostitutas e clientes foram vítimas do vírus, aumentando a discriminação e o preconceito. Nessa década, o debate sobre a violência contra as mulheres se abriu também em defesa das prostitutas.  

Vítimas de cáftens, policiais e clientes, e da doença, elas começaram a se organizar. Surgiram movimentos para proteger as “trabalhadoras do sexo”. E as preocupações morais e sanitárias evoluíram para questões como cidadania e direitos.  

Imagens do II Encontro Nacional de Prostitutas, na cidade do Rio de Janeiro, em 1987/ Crédito: Divulgação/YouTube/Coletivo Puta Davida

 

Depois do II Encontro Nacional de Prostitutas, na cidade do Rio de Janeiro, em 1987, a estratégia para garantir o reconhecimento público da profissão e a cidadania das “profissionais do sexo” foi a criação e a legalização de associações em diferentes estados.

Dois anos depois, durante o II Encontro Nacional de Prostitutas, nasceria a Rede Nacional de Profissionais do Sexo. Nos anos seguintes, um conjunto de entidades foi criado nos diversos estados brasileiros. 

Segundo relatório da ONU, em 2001, havia 100 mil mulheres e crianças sexualmente exploradas no Brasil. A vida dessas pessoas pouco mudou de lá para cá... Dos bordéis às boates e casas de massagem, e destas para as telas do computador, a prostituição confirma ser a mais velha e maleável profissão do mundo.


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