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Dos deuses ao lixo: As origens do cigarro

O ato de fumar tem um passado medicinal e ritualístico, embora o cigarro mais usado hoje tenha saído do lixo

Joseane Pereira e Lívia Lombardo Publicado em 09/05/2019, às 13h00

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Reprodução

O ato de fumar, apesar de desestimulado por órgãos de saúde, é frequente e diário: basta você sair às ruas de um centro urbano para logo receber uma baforada de algum fumante apressado.

Segundo dados da OMS, existem hoje 1,1 bilhão de fumantes adultos no mundo e pelo menos 367 milhões de usuários de derivados do tabaco. Mais de 80% das pessoas que fumam tabaco vivem em países de baixa e média renda, e apenas nas Américas se registra anualmente mais de 900 mil mortes pelo seu uso, incluindo 72 mil mortes prematuras causadas pela exposição à fumaça alheia. Essa epidemia se deve em grande parte ao fato de o cigarro ser barato e pequeno, incentivando o consumo compulsório.

Mas o ato de fumar nem sempre foi tão prejudicial: em épocas anteriores e em culturas indígenas atuais, o tabaco é usado principalmente com objetivos rituais como a cura e o contato com o sagrado. Confira abaixo a trajetória histórica de seu uso.

No princípio, era medicina

Os primeiros registros do uso de tabaco vêm das Américas. Entre os povos Maias, essa planta era ofertada aos deuses na forma de incensos queimados em altares, e também fumada por sacerdotes nos templos.

Entre os Astecas, fumar era parte das cerimônias de oferenda ao Deus Tezcatlipoca, ocasião onde prisioneiros também eram sacrificados e ofertados ao deus. O tabaco era usado na cura de muitas doenças conhecidas pelos nativos, era preciso mastigar as folhas e aplicá-las em cortes, por exemplo.

Deus Tezcatlipoca e seu templo / Créditos: Reprodução

 

Como era uma "planta ritualística", nem todos podiam consumir o tabaco, seu uso era exclusivo para aqueles responsáveis pelos processos de cura e aproximação com o sagrado.

Segundo relatos do dominicano Bartolomeu de Las Casas, a fumaça do tabaco também era utilizada por populações autóctones como os tainos, habitantes da atual República Dominicana. “Os indígenas misturavam o próprio sopro com a fumaça de uma erva chamada pentum (ou tobago) e sopravam como criaturas danadas”, escreveu Las Casas.

Algum tempo depois, o governador espanhol de San Domingo, Fernando Oviedo, deixaria registrado que “entre as várias artes satânicas que praticam, os indígenas têm uma altamente nefasta: a aspiração do fumo de folhas que eles chamam tabaco e que produz neles um estado de inconsciência profunda”. Portanto, o uso da planta entre esses povos servia para induzir estados alterados de consciência e o contato com o divino, diferente do uso "profano" e diário do cigarro de hoje em dia.

Chegando na Europa

O fumo industrializado, com folhas de tabaco picadas e enroladas em papel, tem origem na Europa. Mas para entender isso, precisamos voltar alguns séculos: em 1492, Cristóvão Colombo desembarcou na América, junto ao navegador espanhol Rodrigo de Xeres. Após provar um cachimbo dos indígenas das Bahamas, Colombo não passou mais nenhum dia no Novo Mundo sem fumar e, na volta para casa, levou tabaco na bagagem.

Logo os europeus criaram outras formas de consumir a folha. Os charutos surgiram  ainda no século 16, feitos com folhas inteiras e perfeitas de tabaco enroladas em um processo árduo — por isso sempre foram caros e restritos aos mais ricos. Mas os trabalhadores de Sevilha, cidade espanhola da Península Ibérica, arranjaram um jeito para também dar suas tragadas: eles apanhavam restos de charutos nas ruas, picavam tudo e enrolavam em papel. Nascia assim o cigarro.

Disseminação

Passaram-se 300 anos até que o cigarro se popularizasse. Essa situação começou a mudar com uma dupla de empreendedores norte-americanos: James Albert Bonsack (1859-1924) e James Buchanan Duke (1856-1925).

Com 24 anos, Duke entrou para a indústria norte-americana de tabaco, liderando um grupo que enrolava à mão os cigarros de palha “Duke of Durham” na Carolina do Norte. Dois anos mais tarde, Duke passou a trabalhar com o mecânico James Bonsack, que afirmava poder criar uma máquina para mecanizar a produção do fumo, produzindo cigarros milimetricamente perfeitos.  

James Bonsack e sua máquina de enrolar cigarros / Créditos: Reprodução

 

Enquanto antes os operários enrolavam cerca de 200 cigarros por turno, a máquina criada por Bonsack  produzia 120.000 cigarros por dia, cerca de um quinto do consumo nos EUA daquele momento. "O problema é que ele estava produzindo mais cigarros do que podia vender", afirma o historiador Jordan Goodman, autor do livro Tabaco na História. "Ele tinha que encontrar uma maneira de escoar para o mercado".

E a resposta estava na publicidade e no marketing: já empresário, Duke passou a patrocinar corridas de cavalos, oferecer cigarros de graça em eventos e anunciar seu produto nas primeiras revistas ilustradas de moda.

Somente em 1889, o empresário gastou US$ 800.000 em marketing, cerca de US$ 25 milhões comparado com o dólar de hoje. "A globalização, com a qual estamos acostumados atualmente consumindo Coca-Cola e McDonalds, foi precedida por Duke e o Tabaco", afirma Goodman. E tem funcionado desde então.