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Dos dias brutais do cangaço a costura: os momentos finais de Dadá

Cangaceira após ser raptada e violada aos 13 anos, a Amazona do cangaço teve um fim diferente da vida frenética no bando de Lampião

Redação Publicado em 18/07/2020, às 09h00

Uma dos poucos registros de Dadá
Uma dos poucos registros de Dadá - Wikimedia Commons

A maioria das cangaceiras não tinha papel de combatentes. Portavam facas e pistolinhas apenas para defesa, sem participarem ativamente de combates, saques e ocupações de vilarejos.

A presença feminina, segundo os pesquisadores, havia trazido um ar mais familiar aos bandos, elevando o apoio popular nas vilas por onde passavam e reduzindo os episódios de violência sexual.

Essa mudança aconteceu mais de um século após o início do banditismo do sertão, na década de 1830, com figuras como Jesuíno da Feira. Um século depois, porém, podia não parecer, mas o cangaço já estava em seus estertores.

Após o ataque, a bizarra exposição das cabeças /Wikimedia Commons

A partir da ascensão de Getúlio Vargas, o cangaço passou a ser fragilizado pela atuação mais ativa das volantes, as forças especiais criadas pela polícia especificamente para combater os cangaceiros. No fim da década de 1930, essas forças traziam uma letal novidade: metralhadoras. O armamento cangaceiro não era páreo para elas.

Numa madrugada de julho de 1938, o bando de Lampião foi atacado no sertão de Sergipe. Das 34 pessoas presentes, 11 foram degoladas ali mesmo, entre elas Lampião e Maria Bonita. Os sobreviventes fugiram ou se entregaram às forças do governo.

Justamente para fugir da perseguição policial, o grupo havia se dividido. Corisco estava longe, em Alagoas. Com a morte do chefe, ele assume o cargo, e sua primeira ação é de vingaça. Havia recebido a informação de que quem tinha entregado Lampião fora certo José Ventura Domingos.

Com a convicção de estar vingando o bando, matou o dono da casa, a esposa e os filhos, degolou os cadáveres, colocou as cabeças dentro de um saco de estopa e enviou-as ao tenente João Bezerra, responsável pela destruição do grupo principal.  A informação estava errada. Corisco matou uma família inocente.

Com esse crime hediondo sobre seus ombros, a vida passa a ser de fuga constante. Enfraquecido, o grupo nem sequer tem munição suficiente. É então que Dadá começa a ganhar relevância na defesa e nos ataques.

“As moças carregavam pistolinhas, mas eu tinha um revólver 38 e cartucheira de duas camadas. As caixas de bala eu levava numa panelinha, porque eu gastava muito. E um punhalzinho. Mas para enfeite, porque eu não ia furar ninguém”, contou Dadá.

Em agosto de 1939, nova ascensão de Dadá na hierarquia do cangaço: Corisco é baleado e se torna incapaz de liderar. É por isso que muitos pesquisadores enquadram apenas Dadá como cangaceira, pois foi a única que, além de atirar em combate, comandou o grupo. “O papel padrão da mulher no cangaço não era de uma amazona, uma guerreira. Mas Dadá era uma mulher extremamente enérgica, dura”, afirma Frederico Pernambucano de Mello.

A liderança de Dadá durou pouco menos de um ano. Em meados de 1940 Corisco já havia cortado os cabelos longos e claros que o deram também o apelido de Diabo Loiro e vivia escondido com a mulher em uma fazenda em Barra do Mendes (BA), tentando uma vida normal.

Foram supreendidos por uma volante e Corisco é atingido por vários tiros de metralhadora no abdômen, morrendo após agonizar por dez horas. Dadá é baleada na perna, que precisa ser amputada depois. Mas vive para contar a história.

Em maio de 1968 a revista Realidade colocou frente a frente Dadá e o coronel Zé Rufino, que comandou o ataque ao casal. Ele chorou ao vê-la. Ela, altiva, perdoou, mas o desmentiu: não foi combate, foi emboscada.

Vida comum

Capturada, Dadá ficou presa por dois anos. Sua condição de inválida fez com que um advogado prático (rábula) pleiteasse com sucesso sua liberdade. Durante os anos de cangaço, havia tido sete filhos, mas apenas três sobreviveram e foram entregues a outras famílias.

Casada com o pintor de paredes Alcides Chagas, ganhou a vida como costureira e viveu na periferia de Salvador até sua morte, em 1994, aos 78 anos. “Depois da prisão ela deixa de ser Dadá e volta a ser Sérgia. Quando Alcides morre, ela se sente Dadá de novo”, afirma o pesquisador Tadeu Botelho, da UESB.

No documentário Feminino Cangaço, Botelho relata ainda o encontro, já no fim da década de 1980, entre Dadá e um soldado que ficou com sequelas por um tiro dado por ela.

O soldado a teria confrontado, dizendo que a culpa era dela por ele ter ficado naquela situação, ao que ela teria respondido: “Sorte sua, porque eu atirei foi para matar”. Como diz Botelho, Dadá “morreu cangaceira”.

Síndrome de Estocolmo?

Sejamos brutalmente honestos: Sérgia Ribeiro da Silva entrou para a História contra sua vontade. A Dadá de Corisco virou cangaceira após ser raptada e estuprada por ele aos 13 anos. E, por chocante que seja hoje, o que começou de forma trágica e violenta se transformou numa parceria que os historiadores reconhecem como cheia de cumplicidade e, sim, afeto.

É o que ela, que sobreviveu ao cangaço por cinco décadas, sempre disse: “Corisco me levava de um canto para outro e nessa continuação fui tomando amor por ele. Era um pai para mim, um marido e um professor”.

“Se avaliarmos todas as entrevistas cedidas por Dadá teremos falas sentidas e sofridas sobre sua entrada no cangaço, outras dela afirmando que Corisco foi o grande amor de sua vida”, lembra Caroline de Araújo Lima, que pesquisa o papel das mulheres no cangaço em seu doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Ela explica que uma vez dentro do movimento não havia volta. “Se ela foi forçada? Considerando a memória dessas mulheres podemos dizer que foram convencidas a tal ponto que defenderam aquele modo de vida como uma alternativa ao que estava posto no Brasil da época.”

Aos olhos contemporâneos, seria possível falar em síndrome de Estocolmo, quando uma pessoa submetida a um tempo prolongado de intimidação passa a ter simpatia e até mesmo sentimentos por seu opressor.

Mas os historiadores ouvidos refutam essa análise. Para Caroline, é fundamental manter o olhar naquele momento, naquela sociedade. “Ela tinha escolha? Considerando a sociedade sertaneja no início do século 20 e a cultura e os códigos de honra pautados na violência, até onde essas mulheres tinham opção? O amor aqui seria o quê? Possivelmente se submeter para sobreviver”, resume.


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