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Durante a censura na União Soviética, homem registrou músicas em chapas de raio-x

A criação clandestina foi responsável por levar artistas como Beatles e Elvis para os ouvidos soviéticos durante anos de proibição

Wallacy Ferrari Publicado em 24/04/2022, às 14h00

Chapas de raio-X usadas como discos musicais
Chapas de raio-X usadas como discos musicais - Divulgação / Reddit / robxburninator

Após a Segunda Guerra Mundial, o contexto cultural da União Soviética era de divisão; O país havia proibido a entrada de material artístico ocidental, ou seja, sem filmes, programas de TV e, principalmente, música internacional. 

Contudo, pouco antes das proibições, diversas pessoas ainda possuíam suas coleções de discos que passaram a ser requisitadas em contrabandos.

Com isso, as produções de gravadoras locais também descartaram os selos internacionais ao longo das décadas seguintes, encerrando os estoques e atualização do que havia de novo no mundo da música.

Em contrapartida, um engenheiro de som chamado Ruslan Bogoslowski detinha conhecimento o suficiente para tentar produzir suas próprias cópias de reprodução, longe da existência de copiadoras de discos computadorizadas.

A crise de produtos petrolíferos após a guerra, no entanto, tornou a matéria prima do vinil cara para a tentativa, fazendo o rapaz pensar em uma alternativa curiosa de reprodução, como explicou uma reportagem da VICE norte-americana.

Chapa de raio-X transformada em disco de Elvis Presley com escritura 'King of Rock' / Crédito: Divulgação / BBC

Discos na chapa

Na época da tentativa, a lei russa havia instaurado uma ordem específica sobre um objeto de uso médico e veterinário; os raio-X deveriam ser descartadas após um ano armazenadas devido a composição inflamável. Sabendo da funcionalidade do material, Ruslan encontrou uma pilha deste material e decidiu experimentá-lo para a gravação de músicas.

O resultado não apenas surpreendeu pela fidelidade, como conseguiu riscar, meticulosamente, as linhas que poderiam ser reproduzidas por vitrolas, criando um substituto barato e sem intermédio estatal para a produção dos discos. Sabendo da capacidade comercial, ele entrou em contato com funcionários de hospitais para obter mais chapas extraoficiais.

Nas três décadas seguintes, produziu inúmeras cópias dos álbuns ilegais. Apesar de não ter a mesma qualidade do vinil original, com uma série de ruídos e sendo facilmente deteriorados, os discos em chapas, apelidados de 'discos de ossos', custavam poucos rublos e, quando armazenados corretamente, poderiam durar gerações.

Problemas soviéticos

De acordo com a Vale Magazine, o conteúdo dos discos eram arranjados em raras transferências escondidas de outros países, conseguindo bandas como Beatles, Beach Boys e até Elvis Presley.

Contudo, a tentativa de Bogoslowski resultou em problemas, sendo preso e sentenciado a cinco anos em regime fechado na Sibéria, pegando uma pena relativamente pequena, visto que não havia como mensurar o tamanho de sua atividade comercial com os itens ocidentais.

Ao longo do tempo, a abertura cultural foi se expandindo e os discos ilegais foram caindo em desuso, com Moscou sediando, pouco antes do fim da URSS, o maior festival de rock internacional de todos os tempos, o Monsters of Rock, que colocou o Pantera, Black Crowes e Metallica em um palco.

Mesmo com o desuso, os discos de ossos se tornaram peças de coleção de extrema raridade, principalmente nos casos onde músicas estrangeiras estão gravadas de maneira nítida.

Para a catalogação e conhecimento do que existe sobre estes discos, o compositor Stephen Coates, o pesquisador e artista sonoro Alex Kolkowski e o fotógrafo Paul Heartfield se uniram e criaram o site The X Ray Audio Project.

"Em uma época em que a indústria fonográfica era implacavelmente controlada pelo Estado, eles encontraram um meio incrivelmente arriscado de fazê-lo - eles construíram suas próprias máquinas de gravação e usaram placas de raios X reaproveitadas como base para discos estranhos e bonitos que vendiam secretamente. Foi um ato de empreendimento de rua, resistência cultural, engenhosidade técnica e esforço humano", explica o site do projeto.