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Eddie Slovik: o único soldado americano a ser executado por deserção na Segunda Guerra

Há 76 anos, o combatente era executado sob acusação de deserção, sendo o primeiro a ser morto por este motivo desde a Guerra Civil dos Estados Unidos

Victória Gearini Publicado em 31/01/2021, às 08h00

Eddie Slovik, soldado estadunidense
Eddie Slovik, soldado estadunidense - Wikimedia Commons

No dia 31 de janeiro de 1945, o soldado Eddie Slovik foi executado pelo governo dos EUA, sob acusação de deserção à pátria. Na ocasião, 21.049 militares norte-americanos foram condenados pelo mesmo motivo e 49 foram condenados à morte. No entanto, apenas Slovik foi assassinado, tornando-se o único soldado do país a ser morto por deserção desde a Guerra de Secessão.

Devido a brutalidade e a controvérsia em torno do ocorrido, o caso inspirou William Bradford Huie a escrever o livro, The Execution of Private Slovik, em 1954. Mais tarde, a obra foi adaptada para um filme, em 1974.

Primeiros anos 

Nascido em 18 de fevereiro de 1920, em Detroit, nos Estados Unidos, Eddie Slovik era filho de imigrantes e passou boa parte de sua juventude na Escola Reformatória de Michigan, após furtar doces, chicletes e cigarros do estabelecimento onde trabalhava.

Em 1942, o rapaz conheceu Antoinette Wisniewski, com quem se casou em novembro do mesmo ano. Durante aproximadamente um ano, o casal levou uma vida tranquila e feliz, pois acreditava que Slovik não seria convocado para lutar na Segunda Guerra Mundial, uma vez que, era ex-presidiário. 

Contudo, devido a escassez de militares, o rapaz foi convocado logo após o primeiro aniversário de casamento. Embora a aparência frágil e desajustada, foi enviado para o Camp Wolters no Texas, onde iniciou no dia 24 de janeiro de 1944 o treinamento básico do exército. 

Eddie Slovik e Antoinette Wisniewski durante casamento / Crédito: Divulgação / Youtube / House of History

 

Em primeiro momento relutou para entrar em combate, mas para sua infelicidade seus esforços foram em vão. Para tentar esquecer as agruras, durante 372 dias, ele escreveu 376 longas cartas para sua amada.

“Você está doente, querida, mas o que vou fazer? Oh, querida, não sei o que fazer para ficar com você de novo. Estou tão enjoado e cansado deste lugar. Estou com vontade de sumir. Me desculpe por não ter ido para a cadeia por seis meses, então eu sei que você poderia vir me ver quando quisesse”, escreveu em uma de suas correspondências.

A deserção

Conforme documentado pelo site Detroit News, Slovik não se considerava um combatente, pois temia as armas. Durante o seu treinamento, o rapaz teve que ser escoltado pelos seus instrutores no curso de infiltração. O medo do soldado era tão forte, que o levou a desertar.

“Tudo acontece comigo. Nunca tive sorte na minha vida. A única sorte que tive na vida foi quando me casei com você. Eu sabia que não iria durar porque estava muito feliz. Eu sabia que eles não me deixariam ser feliz”, escreveu o rapaz em sua última carta à Antoinette.

Na noite do dia 25 de agosto de 1944, o militar desertou pela primeira vez, após ser enviado para a linha de frente na França. Na ocasião, sua empresa de rifles havia sido atacada por bombardeios intensos.

Dois meses depois, as forças canadenses o capturaram e o devolveram à sua unidade militar. Os oficiais o alertaram que se ele desistisse ou fugisse novamente, seria acusado de deserção e seria duramente repreendido.

Assim como esperado, mais tarde, ele se entregou às autoridades na Bélgica, assinando uma confissão em que alegou não conseguir guerrear. 

Manchete de jornal noticiando a execução de Eddie Slovik / Crédito: Divulgação / Youtube / House of History

 

Diante da declaração, Slovik foi condenado à morte por um pelotão de fuzilamento. Contudo, Antoinette não foi notificada da sentença e, mais tarde, o exército afirmou que a responsabilidade de informá-la pertencia somente ao réu.  

Busca por justiça

De acordo com o The Detroit News, um membro do pelotão teria dito a ele: "Tente ir com calma, Eddie. Tente tornar as coisas mais fáceis para você — e para nós". Slovik, por sua vez, teria respondido: "Não se preocupe comigo. Estou bem. Eles não estão atirando em mim por ter abandonado o Exército dos Estados Unidos — milhares de caras fizeram isso. Eles estão atirando em mim pelo pão que roubei quando tinha 12 anos". 

O rapaz foi sepultado na França, em um cemitério secreto, onde outros 94 soldados norte-americanos foram enterrados, após serem acusados e executados por crimes hediondos, como estupro e assassinato.

Antonieta, por sua vez, passou a lutar por justiça pelo amado. Para ela, era injusto que o seu marido tivesse sido brutalmente assassinado e enterrado no mesmo local que estupradores e assassinos.

Durante décadas, ela lutou incansavelmente por reparação, chegando a pedir a sete presidentes que perdoassem o falecido. Contudo, seus esforços foram em vão, e a viúva veio a falecer em 1979.

Após a morte da mulher, um polonês-americano veterano da Segunda Guerra Mundial, chamado Bernard V. Calka, assumiu a campanha. Durante anos, lutou pela memória de Slovik, até que 42 anos após a execução do combatente, ele conseguiu enterrar novamente os restos mortais do soldado, desta vez no cemitério Woodmere de Detroit, ao lado da amada.


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