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Em 1918, um soldado britânico teve a chance de matar Adolf Hitler

Nos momentos finais da Primeira Guerra, Henry Tandey quase mudou o rumo da história humana. Entenda!

Santiago Farrell Publicado em 07/07/2019, às 08h00

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- Crédito: Reprodução

Em 28 de setembro de 1918, britânicos e alemães lutavam ferozmente em torno do provocado de Marcoing, no front francês de uma guerra de uma guerra que entrava em etapa decisiva. Henry Tandey já tinha sido ferido duas vezes na guerra e ganhado a Medalha Militar e a Medalha de Conduta Distinta.

 Nesse dia, ele receberia por sua coragem a distinção máxima, a Cruz Vitória. Em um momento de combate quando, pressionados pelo avanço britânico, os alemães começaram a recuar, surgiu diante de Tandey no calor da batalha um soldado alemão exausto que, mancando, parou a alguns metros dele.

Por um instante, eles se olharam. O alemão, que era cabo, não levantou sua arma. Ficou em pé, esperando a morte inevitável. Tandey levantou o rifle e apontou para mata-lo. Mas baixou a arma. Não podia atirar em um homem ferido. O cabo alemão, que tinha 29 anos, moveu a cabeça em sinal de agradecimento e se juntou às tropas que batiam em retirada.

Vinte anos depois, em setembro de 1938, o primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, viajou a Munique para reunir-se com Adolf Hitler, o homem que ameaçava desestabilizar toda a Europa e desafiava permanentemente as limitações estabelecidas pela dura rendição que os aliados haviam imposto à Alemanha depois da Grande Guerra.

O Füher agora reclamava a região dos Sudetos, que os Tratados de Versalhes haviam outorgado à Tchecoslováquia, onde vivia uma minoria de língua alemã. Durante as deliberações, que resultaram no famoso Acordo de Munique, pelo qual se sacrificou a Tchecoslováquia, para evitar uma guerra que eclodiria um anos depois, Hitler convidou Chamberlain para visitar seu retiro no alto de Berchtesgaden, na Baviera, seu kehlsteinhaus, ou Ninho da Águia, presente de seu secretário particular, Martin Bormann, e do Partido Nazista por seu aniversário de 50 anos, que seria comemorado no ano seguinte.

No impressionante chalé, que tinha 1.800 m e espetaculares vistas panorâmicas de 200 km, Chamberlain se surpreendeu ao ver em uma das paredes a reprodução de uma famosa pintura do italiano Fortunino Matania, que retratava um soldado britânico carregando nos braços um companheiro ferido durante a primeira Batalha de Ypres, em outubro de 1914.

“Esse homem”, disse Hitler a um espantado Chamberlain, “esteve tão perto de me matar que pensei que nunca mais veria a Alemanha. A Providência me salvou”.

O Füher pediu ao primeiro-ministro que, quando voltasse a Londres, telefonasse para Tandey, o soldado retratado por Matania, e agradecesse por ele não ter tirado sua vida.

Chamberlain assim o fez, e só então Tandey, já aposentado e empregado em uma fábrica de automóveis, soube quem era o homem cuja vida ele havia poupado. Tandey, um dos soldados britânicos mais condecorados durante a Grande Guerra, teve tempo de arrepender-se de seu gesto, já que viveu ele mesmo os bombardeios nazistas em Londres e Coventry.

Chamberlain morreria um ano mais tarde de câncer de estômago, depois de ser derrotado por Winston Churchill. A pintura de Matania foi destruída quando os Aliados devastaram o Ninho da Águia, em 1945. Tandey morreru em 1977, aos 86 anos.

Seus restos mortais foram cremados e enterrados no cemitério britânico em Marcoing, junto de seus camaradas mortos na mesma batalha em que ele obteve a Cruz Vitória e na qual poderia ter mudado o curso da História.


Essa reportagem foi extraída do livro Tudo O Que Você Precisa Saber Sobre a Primeira Guerra Mundial, do autor Santiago Farrell, Editora Planeta.