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Em 1945, o clássico Palmeiras x Corinthians financiou o Partido Comunista do Brasil

Em um episódio pouco conhecido, no Pacaembu, no dia 13 de outubro de 1945, os dois times paulistas realizaram um amistoso com o intuito de gerar fundos para o partido

Isabela Barreiros Publicado em 13/02/2020, às 16h29

Jogadores do Corinthians durante a partida
Jogadores do Corinthians durante a partida - Domínio Público

Hélio da Costa, Mestre em História Social pela Unicamp, define o ano de 1945 como “mágico” para a esquerda. Naquele ano, segundo o autor, “um dos desdobramentos marcantes da conjuntura do pós-guerra foi o crescimento e a legalização dos partidos de esquerda”. No Brasil e na América Latina no geral, essas organizações passaram a ter mais relevância no cenário nacional, até mesmo nas eleições.

Como estavam tentando se mostrar como uma opção possível aos trabalhadores brasileiros, os partidos passaram a organizar métodos para poder conseguir fundos e se manter financeiramente viáveis. Um episódio quase esquecido — porém importante para a História do Brasil — foi um amistoso entre times paulistas, realizado em 13 de outubro de 1945.

O Partido Comunista do Brasil (PCB) foi criado em 25 de março de 1922, na onda do credenciamento aos marxistas estimulado pela vitória bolchevique na Rússia, em 1917. Nesse contexto, militantes de esquerda ficaram responsáveis por grande parte dos sindicatos existentes, no entanto, alguns ainda estavam na mão de interventores.

Para enfrentar tal situação, foram criados “organismos paralelos de articulação sindical, como foi o caso do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), fundado em abril de 1945”, segundo Costa. Essas instituições tinham como objetivos: “aglutinar trabalhadores de diferentes categorias para representá-los nas suas reivindicações perante o patronato; consolidar a participação dos comunistas nas futuras eleições sindicais; e servir de base sindical para o PCB, apoiando a campanha pela sua legalização”.

É o MUT que passa a organizar, então, iniciativas com o intuito de arrecadar fundos para o PCB. De acordo com o autor do livro sobre a partida, Palmeiras X Corinthians 1945 — O Jogo Vermelho (2010), Aldo Rebelo, "oficialmente a renda foi para o MUT, mas ela financiou a campanha do partido".

Crédito: Domínio Público

 

Entre bailes, festas, espetáculos artísticos, exposição de artes plásticas, jantares beneficentes, aconteceu o icônico “jogo vermelho”, entre os dois rivais paulistas Palmeiras e Corinthians. O clássico foi responsável por arrecadar 114.464 cruzeiros, dinheiro importante para a arrecadação da campanha comunista que pretendia se inscrever nas eleições que aconteceriam ainda naquele ano, em 2 de dezembro de 1945.

“O estádio lotado vibra com a disputa do clássico e pelo ambiente de liberdade daquele ano de 1945, que leva ao Pacaembu torcedores, operários, jornalistas, sindicalistas e comunistas, quase em confraternização pela chegada da democracia e das esperanças por ela criadas”, escreve Rebelo em um dos capítulos do livro.

O clima nos gramados durante o amistoso acompanhava o conturbado cenário político da época da redemocratização do país — na época, a Gazeta Esportiva descreveu o primeiro tempo da partida como "45 minutos de hostilidades". Nada menos que o esperado para um clássico à flor da pele. Ao final, o Palmeiras bateu o Corinthians por 3 x 1.

Rebelo explica ainda que esse contexto pode ter ajudado o público a simpatizar — mesmo que minimamente — com o comunismo: "No Brasil, naquele clima de redemocratização, acho que a opinião pública ficou comovida com o sofrimento de Luís Carlos Prestes quando sua mulher Olga Benário foi entregue aos nazistas pelo Estado Novo e assassinada em campo de concentração".

Com o dinheiro arrecadado pelo jogo beneficente, dois meses depois, Prestes foi eleito senador pelo Rio de Janeiro com 157.397 votos, permanecendo no cargo de 1946 a 1948. O PCB também conseguiu, naquele evento, eleger 14 deputados federais pelo Brasil, entre eles Jorge Amado, Carlos Marighella, João Amazonas e Claudino Silva. Isso, porém, não duraria muito tempo.

Em 7 de maio de 1947, quando o general Eurico Gaspar Dutra chegou ao poder, a organização política foi colocada na clandestinidade, dessa vez pelo Tribunal Superior Eleitoral, que simplesmente cancelou seu registro. Oito meses depois, os mandatos de seus senador e deputados foram cassados.


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