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Em 1970, a Playboy passou a ser publicada em Braille e causou a ira dos conservadores nos EUA

A versão alternativa, que surgiu com a revolução sexual de 1970, causou indignação no país

Thiago Lincolins Publicado em 11/04/2019, às 12h19

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Divulgação

Quando apresentou Marilyn Monroe como coelhinha na primeira edição da Playboy em 1953, o público apostou que Hugh Hefner não conseguiria mais surpreender o mercado de revistas dos EUA. Entretanto, uma versão alternativa da publicação causou indignação em 1970 - por incrível que pareça, o recheio não precisou das mais exuberantes modelos em nu explícito. Pela primeira vez na história, a Playboy foi publicada em Braille.

As vendas da revista aumentaram significativamente em 1960, junto com a revolução sexual nos EUA. Como consequência, a publicação reforçou seu papel cultural na sociedade norte-americana. Para se opor à onda de conservadorismo que tomava conta do país, Hefner passou a promover a liberdade sexual. Eis que o dono da Playboy notou que a revista não era acessível para todos. E assim surgiu a ideia de criar uma segunda versão da revista para deficientes visuais.

A publicação foi impressa pelo Serviço Nacional de Biblioteca para Cegos e Deficientes Físicos - como era financiada pelo orçamento nacional, não apresentou custos para a marca. Diferente da versão original, esta foi colocada em circulação num papel pardo e a capa trazia apenas o notório logotipo do coelhinho. E o mais importante: sem imagens explícitas, nem possibilidade de "tocar" nas mulheres nuas.

O recheio da revista / Reprodução 

Desde sua estreia no mercado, a Playboy sempre trouxe artigos de opinião, política e entrevistas com nomes influentes. Escritores como Vladimir Nabokov, Arthur Clarke, Ursula Le Guin e Doris Lessing contribuíram com o envio de conteúdo para as edições. Assim, o material foi adaptado para o Braille e disponibilizado em bibliotecas.

Um verdadeiro sucesso. Em 1980, a Playboy ocupou a posição de número 6 no ranking das revistas mais lidas por deficientes visuais. E como consequência, o sucesso incomodou os representantes do Congresso - que consideravam um absurdo o uso do dinheiro público para financiar uma revista “pornográfica”. A primeira tentativa de censura ocorreu em 1981.

Mack Mattingly, senador republicano da Georgia, tentou barrar algumas colunas da revista. Afirmou que o conteúdo era “impróprio” para pessoas cegas. Um verdadeiro fracasso, a opinião de Mattingly foi ignorada. No entanto, com a onda de conservadorismo que tomava conta do país, a sua ideia despertou a opinião pública sobre o conteúdo pornográfico.

Em 1985, Charlmers Wylie, republicano de Ohio, tentou impedir a produção da revista ao enviar várias cartas pedindo um corte de gastos no valor que era utilizado para financiar a impressão.  A sua queixa foi levada para votação na Câmara do Congresso e o resultado foi de 216 a 193 a favor do cancelamento da Playboy para deficientes visuais. Quando a notícia foi divulgada, muitos leitores decidiram processar o governo.

“Foi um ponto de orgulho da comunidade cega que a Playboy existia em braille. Isso ajudou a legitimar as pessoas cegas como 'normais'. Este é um primeiro passo para censurar outros materiais? A população cega tem o direito de ter acesso a materiais representativos da cultura”, afirmou um leitor numa carta enviada ao Conselho Americano dos Cegos em julho de 1985.

Ao argumentarem que o mesmo conteúdo poderia ser vendido para não deficientes visuais, a votação acabou sendo anulada com sucesso no dia 28 de agosto de 1986. E a revista, claro, voltou a ser vendida sem a interrupção dos conservadores do país.