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Neste dia, em 1975, Brasil e Alemanha firmaram acordo nuclear

Construção das usinas nucleares em Angra dos Reis se deu graças ao acordo com os alemães

Valentina Nunes Publicado em 15/07/2019, às 00h00 - Atualizado às 09h00

Usinas nucleares de Angra dos Reis
Usinas nucleares de Angra dos Reis - Reprodução

Enquanto a Alemanha, principal parceira brasileira na busca de tecnologia para produção atômica, manteve o ano de 2022 como limite para o desligamento de seus reatores, em busca de fontes de energia renováveis; e enquanto nos Estados Unidos matrizes nucleares perderam a concorrência para o gás de xisto, bem mais barato, ainda que não reduza o efeito estufa na atmosfera, o Brasil vai em caminho contrário. Seu programa de energia nuclear prossegue com as obras de Angra 3 e, conforme planos do governo, com a construção até 2030 de outras quatro unidades, todas no Nordeste.

A produção de eletricidade gerada por usinas nucleares no Brasil resultou de acordo de 1975, para importação de tecnologia germânica. As usinas 1 e 2 da central nuclear Almirante Álvaro Alberto, resultado de parte desse acordo, estão localizadas em Angra dos Reis (RJ), próximas à rodovia Rio-Santos, e hoje correspondem a 2,7% do consumo nacional.

Para entender a evolução do programa nuclear institucionalizado durante as longas tratativas realizadas entre 27 de junho e 15 de julho de 1975, durante o governo ditatorial do general Ernesto Geisel, é preciso voltar um pouco mais no tempo. Na década de 1950, os Estados Unidos exerciam a supremacia mundial na tecnologia industrial, condição que forçou a reação dos países em desenvolvimento em busca da autonomia da própria política científica.

Com essa motivação, em 1951 foi criado o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), que nos primeiros anos de funcionamento manteve sua política pautada no princípio da autonomia, mesmo tendo de enfrentar a oposição da ala que atuava em defesa dos interesses dos Estados Unidos nos meios científicos e governamentais do Brasil. Cinco anos mais tarde, em 1956, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) foi desmembrada do CNPq e assumiu o controle da política nuclear brasileira, em colaboração com pesquisadores norte-americanos.

A parceria com os Estados Unidos foi reafirmada em 1971, com a compra do primeiro reator da Westinghouse Electric Corporation para equipar a central nuclear de Angra dos Reis. A partir de 1973, no entanto, a crise do petróleo, aliada à expansão internacional do mercado de reatores nucleares e, no ano seguinte, à suspensão norte-americana do fornecimento do urânio enriquecido, acordaram o governo brasileiro para a nova realidade.

O país redefiniu, então, a política nuclear e adotou postura mais ousada, com a construção de centrais para desenvolvimento dos diversos ciclos de produção nuclear. Nesse contexto, o acordo assinado com a Alemanha em 1975 previu contrato com consórcio de empresas alemãs, liderado pela Kraftwerk Union - KWU, para construção de oito grandes reatores, geração de eletricidade e implantação de indústria teuto-brasileira para a fabricação de componentes e combustível para operação dos equipamentos, pelo prazo de quinze anos. Das oito usinas, três saíram do papel. Mesmo sem reverter a opção pelo urânio enriquecido, o acordo com a Alemanha permitiu ao Brasil desenvolver a tecnologia.

Foram fortes as pressões, internas e externas, com críticas do Congresso dos Estados Unidos. Foi questionado, por exemplo, o destino do lixo atômico, além da adesão brasileira ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, em julho de 1968. Em fevereiro de 1976, novo acordo entre Brasil e Alemanha, intermediado pela Agência Internacional de Energia Atômica, complementou o original, de 1975, com regras mais rígidas de segurança.


Reportagem retirada do Livro 365 dias que mudaram o Brasil, da autora Valentina Nunes, Editora Planeta do Brasil.