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Em 1993, um programa jornalístico brasileiro transmitiu imagens de um suicídio

Durante a reportagem, 800 mil televisões mostraram Daniele Alves Lopes, de 16 anos, se atirando do sétimo andar de um prédio no centro de São Paulo

Pamela Malva Publicado em 27/01/2020, às 18h58

Apresentadores Ivo Morganti e Christina Rocha na bancada do programa
Apresentadores Ivo Morganti e Christina Rocha na bancada do programa - Divulgação/Aqui Agora

Diversas coberturas da televisão aberta já foram criticadas por telespectadores e especialistas. No caso Eloá, por exemplo, um dos maiores questionamentos em torno da morte da jovem foi o papel dos programas jornalísticos e suas coberturas incessantes.

O mesmo aconteceu em uma das edições do jornal Aqui Agora, do SBT, em julho de 1993. Apresentado por Ivo Morganti e Christina Rocha, o programa alcançava, geralmente 15 pontos de audiência, segundo o Ibope, e era um dos mais conhecidos da emissora.

No dia 5 de julho, no entanto, Sérgio Frias, repórter do jornal, recebeu uma ligação sobre uma pauta quente no centro de São Paulo e decidiu cobrir o ocorrido. Às 11h da manhã daquele dia, ele e o cinegrafista José Meraio foram até o local.

Às 20:30 daquela noite, durante o jornal, a cena gravada de uma jovem sentada na beirada de um prédio a 25 metros do chão era a reportagem principal da noite. Parada por 15 minutos no topo do edifício, Daniele Alves Lopes, de 16 anos, estava prestes a pular.

A câmera de José acompanhou cada segundo da queda da menina, enquanto Sérgio exclamava: “Ela pulou, ai meu Deus”. O estrondo do corpo atingindo o chão pôde ser ouvido ainda durante a transmissão.

Socorrida por policiais, Daniele morreu a caminho do hospital após saltar do sétimo andar do prédio. Em entrevistas da época, o porteiro do prédio de onde a jovem se jogou contou que chamou os bombeiros assim que percebeu a atitude da garota.

Na edição da Folha de S. Paulo do dia seguinte, uma das amigas de Daniele, Vânia Maria Duarte de Oliveira, de 15 anos, explicou o contexto do suicídio. Segundo a jovem, a amiga teria se jogado por um amor frustrado. Ela estava apaixonada pela mesma pessoa há três anos e, segundo Vânia, o sentimento não era correspondido.

Daniele era recepcionista e não deixou um bilhete de despedida. Seu suicídio, filmado pela equipe do jornal Aqui Agora, aumentou a audiência do programa em 33,5%, de acordo com o Ibope. A reportagem, que durou dez minutos, atingiu cerca de 800 mil domicílios.

Após o ocorrido, especialistas analisaram a postura do jornal e a escolha da reportagem, bem como a cobertura sensível do suicídio de Daniele. Maria Baccega, professora da Escola de Comunicações da USP, por exemplo, diagnosticou o ocorrido em entrevista à Folha.

“O SBT misturou realidade com ficção”, disse ela. “Não sabemos se a menina se suicidou porque queria morrer ou porque iria sair na televisão”. Para Maria, a reportagem explorou a atração que as pessoas têm pelo mórbido.

Depois da repercussão do caso, o diretor nacional de jornalismo do SBT da época, Marcos Wilson, se posicionou sobre a cobertura. Segundo ele, a reportagem nada mais era do que um flagrante da cidade. “Tivemos preocupação de avisar o telespectador que as imagens eram fortes”, disse. “Pedimos para as crianças não assistirem e mostramos que o suicídio nunca é a saída. A saída é a vida.”

Dias mais tarde, Wilson comentou o ocorrido mais uma vez, dizendo que a exibição da filmagem do suicídio de Daniele foi uma decisão editorial e que não houve qualquer abuso por parte do SBT. O diretor, inclusive, pontuou que “abuso teria sido reprisar as imagens em câmera lenta”.

Os pais de Daniele, em resposta, processaram o SBT. No dia 30 de setembro de 1994, a Folha de S. Paulo anunciou a decisão do júri sobre o caso: a emissora teria que pagar uma indenização equivalente a 15 mil salários mínimos (cerca de R$ 1,05 milhão) para a família Lopes por danos morais.


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